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O etéreo habitat de Lince – ou o universo de algodão doce de Sofia

D.R.

Integrou projetos como “We Trust” e agora presenteia-nos com a exploração do seu próprio ecossistema musical, num projeto a solo intitulado “Lince”. Conheça o delicado universo de Sofia Ribeiro

André Manuel Correia

Lince é um felino raríssimo na Península Ibérica e é também o nome de um dos projetos musicais mais singulares a emergir no panorama da música alternativa em Portugal. Pela mão de Sofia Ribeiro – que já passou pelos “We Trust”, onde trabalhou com André Tentúgal – somos levados até a um delicado universo musical. Um ecossistema composto por paisagens sonoras etéreas, espelhadas em temas como “Earth Space”, “Call me Home” ou “Puzzles”. Para breve, mas ainda sem data definida, está a edição do primeiro “EP”.

Depois de já termos entrado no habitat sonoro de “Lince” numa das primeiras aparições públicas, no espaço cultural Maus Hábitos, no Porto, voltamos a encontrá-lo no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, cidade onde há 31 anos nasceu Sofia Ribeiro. O arrebatamento foi exatamente o mesmo, num espetáculo intimista, no qual a artista nos conduz habilmente com a sua voz inconfundível por ambientes sonoros cristalinos, como se de uma viagem espacial se tratasse, através de canções concebidas ao piano, mas às quais se juntam as camadas e texturas sintetizadas de Rui Sousa, integrante dos “El Rupe” e que acompanha Sofia nas atuações ao vivo.

Não vamos colar-lhe um rótulo na tentativa de aprisionar este “Lince”, nativo de algum lugar criativo entre a Terra e o Espaço, mas podemos dizer que se trata de música tão impressionista como um quadro de Henri Matisse. Géneros musicais à parte, tentem pensar em algodão doce. Podemos também dizer, metaforicamente, que se trata de um kit de iniciação para levitar entre horizontes melódicos flutuantes, repletos de cores primaveris, emoções em estado puro, onde tudo é inefavelmente leve, mágico, sideral e onde sopra uma brisa refrescante.

“São músicas muito emotivas e pessoais”, começa por explicar a artista, em entrevista ao Expresso. “Acabam por refletir um estado de espírito de um período de tempo ou de uma época da minha vida. Mesmo que esse momento já tenha passado, enquanto continuo a trabalhar e a interpretar as canções, acabo por perceber o que vivi em determinada altura”, explica Sofia Ribeiro.

D.R.

A vontade de compor e lançar-se num projeto a solo já a acompanhava há bastante tempo. Muito antes até de ter integrado os “We Trust”, onde era teclista e juntava a sua voz à de André Tentúgal em momentos mais harmónicos. Na adolescência começou a tocar com amigos e teve aulas de canto lírico. Sentia a necessidade de começar a trabalhar em composições próprias. As ideias surgiam-lhe, mas não sabia tocar nenhum instrumento. “Decidi comprar um piano e começar a compor. Desde então sempre compus ao piano, em simultâneo com a voz”, frisa a jovem artista vimaranense.

Ainda sem data oficial, mas com lançamento para breve, Sofia Ribeiro refere que algumas das músicas – cinco das quais vão integrar o EP – partem de ideias mais recentes mescladas com outras surgidas há alguns anos e maturadas ao longo do tempo. “Acontece-me muitas vezes estar a compor e ouvir novamente coisas que já tinha gravado. Ao olhar novamente para esses elementos, muitas vezes acho-os interessantes e volto a trabalhá-los”, explica.

Bailarina desde a infância e com formação em artes plásticas, o cruzamento interartístico fica também evidenciado na sonoridade que produz. “As áreas estão de alguma forma interligadas. Claro que eu não me imagino a fazer num concerto meu uma ‘performance’ de dança, mas há esse lado performativo que me permite talvez estar mais confortável em palco”, reconhece Sofia Ribeiro, a quem todo o tipo de música lhe provoca o desejo de dançar, “mesmo aquelas mais lentas e espaciais”.

“Earth Space” e “Call me Home” são os dois temas de avanço lançados em simultâneo pela artista e ambas podem ser encontradas no “Youtube”. Mesmo agora, no momento em que Sofia está a dar os primeiros passos de afirmação para uma carreira a solo, a ligação a André Tentúgal mantém-se e é ele o realizador dos videoclipes, bem como o produtor do par de músicas já disponíveis.

“Lince” acabou de chegar, mas tem tudo o que é necessário para se estabelecer e já pode ser visto por todo o país. Passou recentemente pelo “Lisboa Dance Festival”, fez uma aparição no Portugal Fashion onde adornou musicalmente o desfile da criadora Susana Bettencourt e a 1 de abril (podem acreditar) apresentou-se na Casa da Música.

Os próximos espetáculos estão agendados para 25 de abril no Festival Santos da Casa, em Coimbra, e 6 de maio no Centro Cultural de Vila das Aves.