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Cultura

Um festival de música para viajar pelos lugares e pelo espírito do Porto

D.R.

A terceira edição do “In Spiritum” – Festival de Música do Porto leva o público, nacional e internacional, a explorar a história de alguns dos locais mais emblemáticos da cidade

André Manuel Correia

Seis concertos para descobrir a riqueza histórica de outros tantos lugares, onde as sonoridades estabelecem uma estrita relação com alguns dos espaços e monumentos incontornáveis da Invicta. Assim se pode descrever o “In Spiritum” – Festival de Música do Porto, com a terceira edição a realizar-se entre 11 e 14 de maio. O Salão Árabe do Palácio da Bolsa, a Igreja de São Francisco, o Museu Nacional Soares dos Reis, a Sé Catedral, as Caves Ferreira ou a Igreja dos Clérigos são os locais, mais ou menos improváveis, por onde passará este evento transumante. Apresentamos-lhe a programação de um festival aberto a todos, turistas e portuenses, para ver, ouvir e conhecer.

“In Spiritum” é um evento para “descobrir o espírito da cidade do Porto através da música”, explica o maestro e diretor artístico do festival, Cesário Costa. Com uma programação bastante eclética, o objetivo é chegar a diferentes públicos e deixar bem patente que a música erudita não está apenas ao alcance de alguns. É para todos esta odisseia desde a música árabe à exuberância das sonoridades barrocas portuguesas; das viagens pelas estações proporcionadas por Vivaldi e pelo tango de Astor Piazzolla; passando por incursões pela música de câmara, um concerto a dois órgãos na Sé Catedral e um recital de voz e piano nas Caves Ferreira.

A 11 de maio, pelas 21h30, o Salão Árabe do Palácio da Bolsa – com construção e decoração inspiradas no Palácio de Alhambra, em Granada – abre as portas a uma programação sustentada em versos e canções de Ibn Zamrak, com a música para estes poemas a ser retirada das “nubas” andaluzas de tradição marroquina. O concerto de música árabe fica a cargo do madrileno Eduardo Paniaga e do duo marroquino “El Arabi Ensemble”, composto pela voz de El Arabi Serghini Mohammed e pelo violista Jamal Edine Ben Allal.

No dia seguinte, 12 de maio, à mesma hora, a Igreja de São Francisco, adornada com o esplendor da talha dourada, recebe os “Fulgores do Barroco Português”, com uma apresentação de uma seleção de obras setecentistas, interpretadas por parte dos “Ludovice Ensemble”, um agrupamento de Lisboa especializado em Música Antiga. A atuação inclui no repertório peças de Antonio Tedeschi, Giovanni Giorgi, José António Carlos de Seixas, Pedro António Avondano ou a estreia moderna de uma obra do compositor Manuel de Morais Pedroso.

Para o Museu Nacional Soares dos Reis está agendado um recital de música de câmara, interpretado pelo “Quarteto Rosário” (violino, piano, viola d’arco e violoncelo), pelas 18h do dia 13 de maio. Na galeria onde estão expostas as obras do escultor português, fica esculpida a ligação entre o legado artístico de António Soares dos Reis e a música do seu tempo (segunda metade do séc. XIX), com obras de Mahler, Fauré, Miguel Ângelo Pereira e Nicolau Medina Ribas.

À noite, pelas 21h30, há “Diálogos” entre dois organistas – António Esteireiro e Rui Paiva – na Sé Catedral do Porto, num concerto para explorar as potencialidades tímbricas e dinâmicas dos instrumentos, através de um repertório maioritariamente contemporâneo e que abarca múltiplas escolas e géneros musicais.

Do outro lado do rio, há música entre pipas

No último dia do Festival de Música do Porto o público será levado até ao outro lado do Rio Douro. Nas Caves Ferreira, umas 250 pessoas poderão assistir, entre as imponentes e famosas pipas, a um recital de canto e piano a cargo de Ana Maria Pinto e David Santos, com início às 12h. O momento musical constitui igualmente uma oportunidade para ficar a conhecer um pouco mais sobre Dona Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida por Ferreirinha (1811 – 1896), uma das primeiras empresárias do séc.XIX, tida como uma das personalidades mais ousadas e fascinantes num contexto histórico dominado por homens. Por essa mesma altura, várias compositoras começavam a afirmar-se também no meio musical e a apresentação será o reflexo disso mesmo, estabelecendo assim uma relação tão harmoniosa como o vinho do porto.

O autêntico roteiro turístico-musical termina na Igreja dos Clérigos, a célebre edificação de Nicolau Nasoni que anualmente recebe perto de 600 mil visitantes. Nesse dia, pelas 18h, abre as portas para 300 pessoas, proporcionando uma viagem pelas “Quatro Estações”, num encontro entre o barroco resplandecente de Vivaldi e o tango do mestre argentino Piazzolla. A interpretação fica a cargo do violinista Pedro Meireles e do acordeonista Gonçalo Pescada, a quem se junta a Ensemble do Festival.

Na opinião do diretor artístico do “In Spiritum”, Cesário Costa, esta é “uma nova forma de pensar um festival de música”, em que o objetivo passou por “juntar todo o tipo de sensações que estes espaços têm e que a música proporciona, de forma a ligá-las”.

O orçamento para esta terceira edição ronda os 75 mil euros, de acordo com o diretor-geral do festival, Alfredo da Costa, e os bilhetes para os diferentes espetáculos têm um custo de 10 euros.