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O dom de escrever sem amargura sobre um amor antigo

Inconfundível

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É uma história tão velha e fundamental como o tempo: Samuel Herring apaixonou-se mas não acabou bem, por isso ele foi escrever canções para explicar como doeu. É o regresso dos Future Islands, três anos depois de uma contagiante dança esquisita os ter lançado para a fama

Era difícil não acreditar nas palavras que Sam cantava. Agitado contra o fundo azul do programa de David Letterman, o vocalista dos Future Islands mexia-se com vigor, interpretando cada palavra que cantava, sofrendo com cada gesto expressivo. “As estações mudam e eu tentei muito suavizar-te”, o rosto como que a chamar o público para o drama romântico que a canção, “Seasons”, descrevia. “Mas eu cansei-me de te tentar mudar, porque tenho estado à tua espera.”

Descrevemos a atuação que, de acordo com qualquer revista especializada, crítico ou fã dos Future Islands foi a responsável por mudar a vida de Samuel Herring, Gerrit Welmers e William Cashion. Até ali, segundo descrevem os próprios, eles eram apenas “três rapazes asquerosos” numa caravana, a tocar para fãs ou para ninguém; depois, tornaram-se a banda sensação do momento, com a atuação apaixonada de Herring a conquistar os espectadores.

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Apesar de o sucesso ser uma sensação relativamente nova para os Future Islands – a noite que mudou tudo foi a de 3 de março de 2014, quando foram convidados musicais no programa de Letterman -, os três músicos não são novos nestas andanças. O primeiro disco da banda que é descrita de todas as formas da electro-pop à indie alternativa, “Wave Like Home”, data de 2008; os cinco anos seguintes foram passados em caravanas a viajar, a tocar, conformados no estatuto de banda pequena e talentosa, sem a atenção do mainstream.

Nesses anos, tudo lhes serviu de plataforma para tocar e viver – a primeira caravana, que custou 500 dólares e rendeu 80 mil quilómetros de estrada, ou a que tinha antes pertencido a uma empresa de cuidados a cães e gatos e levava quem passava por eles ao engano. “Todas as caravanas dos Future Islands foram compradas pelo meu pai”, conta Herring ao “Times”. “Todas eram muito baratas e todas cumpriram a sua função”.

Foi nessa espécie de digressão quase infinita que gravaram o primeiro, o segundo, o terceiro álbum, com os recursos que arranjavam – microfones improvisados, programas de gravação amadores – mas com a paixão que se lhes exigia. E por ali podiam ter continuado, não fosse a noite em que tocaram para Letterman e o seu público – depois disso, estiveram na estrada até dezembro de 2015, mas no início de 2016 deitaram mãos à obra para escrever o disco que seria a confirmação ou a deceção, depois de chegados à fama: “The Far Field”, acabadinho de editar.

Tudo o que é preciso: amor

Para escrever este “The Far Field”, a estratégia foi simples e, como sempre, ligada à natureza: os três arranjaram uma casa na costa da Carolina do Norte, em Outer Banks – onde viviam antes de se estabelecerem em Baltimore para passarem a ser vistos como uma banda “séria” e “emocional” que tocava música eletrónica – e ali se instalaram no mês de janeiro, prontos para compor rapidamente, como sempre (a banda explica que costuma escrever cada instrumental numa tarde ou num dia, terminando a letra no dia a seguir).

Foi ali, por entre o assobio dos ventos frios e o mar em frente, que Herring se concentrou para escrever os versos que nos traz em “The Far Field”, lançado esta sexta-feira. Quase conseguimos visualizá-lo: enquanto pomos a tocar “Time on her side”, a segunda faixa do disco, lá está ele a contar-nos (provavelmente, acompanhado de uns movimentos de dança expressivos): “O mar estava vasto hoje / Como em qualquer outro dia / Mas algo se quebrou em mim”.

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Logo nos versos de “Time on her side” (“Ainda se eu tivesse a força de ir / Como ela vai / Mas ela tem o tempo do seu lado / E é livre de decidir / Ser jovem é divino”), identificamos dois dos temas principais que nos acompanharão ao longo das 12 canções novas dos Future Islands: a natureza e o amor. A natureza porque se fala do mar, do orvalho, da neve e dos campos; o amor porque na verdade não se fala de mais nada (e será mesmo preciso falar de algo mais?), mesmo que as batidas alegres disfarcem o desgosto e Herring tenha o raro dom de cantar sobre o amor e a sua memória sem trazer para os versos a amargura e o rancor.

Exemplo disso mesmo é a canção de abertura, “Aladdin”, com o estranho pormenor de, sendo a primeira canção do disco, começar por um fade in, o que dá a sensação de que as notas se vão aproximando até nos envolverem por completo. O som a recordar os anos 80, a voz jovial e enérgica de Herring e a declaração: “Cheguei ao auge dos ‘obrigado’ e ‘por favor’ / Vi os meus traços envelhecer / No orvalho dos campos crescemos / E eu construí um barco para os dois”. A dúvida evolui e instala-se, da pergunta inicial (“É real?”) à conclusão que encerra as memórias (“O nosso amor é real / É uma mão / Uma segurança / Um escudo / O nosso amor foi real / Foi esperar / Foi sonhar / Foi curar”).

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Aqui também se sofreu

É refrescante a boa lembrança, a energia ainda latente, mas não estamos a querer dizer que Herring não sofreu; aliás, é o próprio que explica que boa parte deste disco foi inspirado numa ex-namorada, ou num “breve caso amoroso”, como refere. Por isso, claro que também há espaço para as canções de rutura e dor: é o caso de “Time on her side”, que acaba com uma sensação de desgosto que no entanto se mistura com os restos da devoção, ou de “Ran”, em que declara, numa faixa estranhamente dependente também do baixo e da bateria além dos elementos eletrónicos, que “não aguenta” sem a pessoa que deixou para trás quando se meteu na estrada para tocar (“E o que é uma canção sem ti? Quando todas as que escrevo são sobre ti”).

“Beauty of the Road” prossegue no mesmo tema, retomando a reflexão para chegar a concluir que talvez não valha a pena deixá-la para trás, sem pensar que ela “fosse mesmo” embora, e prometendo: “E se eu soubesse então que te estava mesmo a perder / Eu mudaria o meu jeito e a minha mente antes de perder o controlo”. Por esta altura já nos tornámos verdadeiros companheiros de viagem e de caravana de Herring e companhia, por isso estamos prontos para ouvir os seus desabafos – e também alguns dos seus mais delicados versos: “A beleza da estrada perde-se nos teus olhos, desvia-me suavemente de quando éramos jovens e estávamos apaixonados”. O cenário pode ser a estrada, a caravana e as guitarras, mas as palavras soam universais.

Em “The Far Field”, há espaço para momentos de escuridão – em “Cave”, que Herring apresenta como uma “desesperada necessidade de largar ideais e crenças”, declara já não “acreditar”, porque “tudo o que conhecemos está ausente e frio”, interrompido pelo som da distorção que anuncia um caos até aqui imprevisto. “Será este um desejo desesperado de morrer? Ou um desejo de que a morte finde?”

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“Through the Roses” volta a cantar sobre a morte, sobre pensamentos suicidas e sobre como “as luzes e o fumo e o ecrã” não ajudam: “Beija-me, mãe / Beija-me, pai / Antes de ir / Não quero deixar-vos / Mas lamento, não me consigo agarrar”. No entanto, a batida num crescendo otimista anuncia há muito um final condizente: “Mas nós podemos ultrapassá-lo, juntos”, repete, numa nota mais alegre.

Os exemplos de canções orelhudas e que dificilmente não nos põem a imitar os movimentos dançantes de Herring cobrem quase todo o disco, da contagiante “North Star” à melodiosa “Day Glow Fire”. O dueto com Debbie Harry, presente em “Shadows” para nos trazer uma leveza e uma espécie de refresco bem-vindo da omnipresente voz característica de Herring, transporta-nos de novo ao som familiar dos sintetizadores dos anos 80, enquanto os dois cantam sobre um amor perseguido pelos fantasmas do passado: “São só sombras (Estas sombras velhas) / Não me deixam aproximar-me de ti”.

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Que Herring e os colegas têm muito a cantar sobre o amor, e que nós temos muito para dançar com eles, compreende-se assim que se põe “The Far Field” a tocar. Mas quanto à tal ex-namorada que o inspirou - quando o deixou - a escrever este disco, Herring parece, como quando canta, bem resolvido e com as prioridades em ordem: “Muito do romance e da tristeza neste álbum vem dela”, explica ao “The Times”. “Mas com isso consegui algumas grandes canções, por isso a vida continua.” Não diríamos melhor.