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Westway Lab: o festival que transforma a cidade-berço numa incubadora musical

D.R

Guimarães transformou-se durante quatro dias num autêntico tubo de ensaio e incubadora musical com o festival “Westway Lab”. Conheça por dentro este singular evento com muito mais para oferecer para lá dos concertos

Chegou ao fim a quarta edição do “Westway Lab”, que entre esta quarta-feira e sábado transformou a cidade de Guimarães numa autêntica incubadora musical. É uma espécie de festival, mas não é bem isso. Ou melhor, é mais do que isso. Com várias residências artísticas, conferências, ‘showcases’ e concertos, o Centro Cultural Vila Flor (CCVF) fez confluir na cidade-berço artistas, agentes culturais, programadores e promotores oriundos de todo o mundo, proporcionando a oportunidade de ouvir e pensar a música num ambiente descontraído e intimista.

Os desconcertantes norte-americanos “XIXA” e os projetos nacionais “You Can’t Win Charlie Brown”, “Lince”, “:papercutz” e o duo “Quest” (acompanhado pela Orquestra de Guimarães) foram alguns dos pontos altos, com lugar ainda para uma agradável surpresa chegada da Polónia: Buslav. Mas lá chegaremos.

Longe de ser um evento cultural voltado para as grandes massas ou repleto de nomes sonantes, o “Westway Lab” está inserido no “European Talent Exchange Programme” (ETEP) e assume-se como um fórum informal; uma ágora dos tempos modernos, onde se instiga a necessidade de criar sinergias no meio musical. A partilha e a troca de experiências, de um modo coloquial e quase familiar, fazem parte da imagem de marca do certame.

Ali cabem todos, sem a necessidade de mediatismo ou campanhas de comunicação megalómanas. A qualidade fala por si e é mais do que suficiente para levar até Guimarães ilustres figuras do panorama musical, como Tom Silverman, o diretor executivo da editora “Tommy Boy”, ou representantes do festival “South By Southwest” (SXSW).

Em entrevista ao Expresso, o diretor artístico do CCVF, Rui Torrinha, frisa que o evento não é apenas mais um festival em que se contratam grandes bandas, com o objetivo de alcançar um grande êxito de bilheteira. “É um caminho muito mais longo, mas é muito mais diferenciador do que aquilo que podemos encontrar num festival convencional”, considera o responsável, alguém que prefere apostar na motricidade criativa ao invés de conferir ao certame um cariz mais massificado. “Não é um festival óbvio na sua configuração, mas tem um enorme potencial. Primeiro porque gera momentos únicos e depois porque é transformador, no sentido em que junta pessoas e gera oportunidades”, explica Torrinha.

Não se pense, no entanto, que no “Westway Lab” tudo se resume a conversa e produção de massa crítica sobre o meio musical. Durante os quatro dias do evento a programação foi bastante eclética, servindo para dar a conhecer novos talentos nacionais e também para trazer até Portugal alguns artistas em estreia nacional, todos eles com valor acrescentado, num cartaz pensado de forma minuciosa. O festival afirma-se, assim, como uma ordenada e singular torre de babel, onde várias nacionalidades, idiomas, géneros e perspetivas musicais se encontram e conseguem dialogar harmoniosamente.

Do concerto do desassossego dos Quest ao frenético ‘western’ sonoro de XIXA

No que aos concertos diz respeito, conferir destaques é uma tarefa hercúlea, muito por força da elevada qualidade a que assistimos. Ainda assim, algumas atuações ficam na retina, como é o caso do espetáculo do duo bracarense “Quest”, composto pelo encontro improvável das notas intervaladas e minimais da pianista Joana Gama e as texturas eletrónicas e ambientais de Luís Fernandes, a quem se juntou a Orquestra de Guimarães, com Vítor Matos a dirigir a ensemble composta por 13 músicos.

Intitulado “At the still point of the turning world” – um verso do poema “Burnt Norton, de T. S. Eliot –, este trabalho colaborativo traduz-se em sete temas originais que nos conduzem até paisagens sonoras com tanto de caóticas como de introspetivas. O resultado é um espetáculo desconcertante e desafiante, até para os próprios intérpretes, obrigando-os a sair das suas zonas de conforto.

É uma odisseia pelo incerto. Um concerto do desassossego, com ritmos que nos remetem para uma marcha militar, entrelaçados com momentos onde a tensão se apazigua e mergulhamos numa poética exploratória. Uma autêntica guerra e paz levadas até ao Grande Auditório do CCVF.

E como descrever o concerto dos norte-americanos “XIXA”? Tentem imaginar um ‘western’ realizado por David Lynch. Pode parecer absurdo, mas é extraordinariamente bom. Há indie rock, folk, ritmos latinos, psicadelismo, riffs progressivos, tudo homogeneizado de uma forma inebriante e que não permite ao público ficar parado. Todos aqueles que este sábado se deslocaram até ao Grande Auditório do CCVF ficaram completamente rendidos ao som e à intensidade que a banda coloca nas atuações ao vivo. A pontuar um dos momentos mais desconcertantes de todo o festival, o espetáculo terminou em clima festivo, com o público já em palco num ambiente descomprometido e feérico.

O fantástico universo de Sofia e aprender a dizer amor em polaco

Depois de termos assistido a uma das suas primeiras atuações em nome próprio no espaço cultural portuense “Maus Hábitos”, reencontrar “Lince” em palco foi também um dos momentos mais especiais. O projeto a solo ainda recente de Sofia Ribeiro (que alguns já podem conhecer dos “We Trust”) transporta o público para ambientes etéreos, tal como acontece nas músicas “Earth Space” ou “Call Me Home”.

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A voz, acompanhada pelas teclas, fica cravada no ouvido pela beleza rara e, também por isso, o nome “Lince” assenta-lhe como uma luva. Tudo é simples. Tudo é mágico, sideral e leve na atmosfera musical de Sofia, algures entre a Terra e o espaço. Aos 31 anos, a artista vimaranense está a ultimar um EP – composto por cinco tema, a ser editado brevemente – e é e um dos exemplos mais refrescantes no panorama recente da música alternativa em Portugal. Fiquem atentos, porque este “Lince” não está em fuga. Chegou e tem tudo o que é necessário para se estabelecer.

Como se diz amor em polaco? Buslav chegou a Guimarães como um ilustre desconhecido, mas saiu acarinhado e com o reconhecimento do público. Na sexta-feira à noite, após o denso concerto dos “Quest”, o artista que esteve em residência artística no “Westway Lab” conquistou a plateia do café-concerto no CCVF com a sua sonoridade onde se entrecruzam melodias de um universo “dream pop” e elementos marcadamente mais acústicos. Com várias músicas cantadas em inglês (como “Searching for You”), Buslav apresentou também alguns temas com letras em polaco, mas nem nessas ocasiões a ligação com o público se perdeu, num concerto em que houve sempre uma intensa e recíproca procura.

Um dos objetivos do “Westway Lab” passa igualmente por estabelecer uma ligação com a cidade e os espaços culturais do município. Como prova disso mesmo, durante a tarde de sábado realizou-se um autêntico “rally-paper” por várias geografias musicais, com oito concertos apresentados em quatro espaços vimaranenses (All Guimarães, Associação Convívio, CAAA e Bar da Ramada). Serushiô, Adée, Ohrn, Joel Sarakula, Cristóvam, Maybe Canada, The Jooles e Vienna Ditto foram os artistas que atuaram nesta maratona de quatro horas. Uma prova de que num festival onde se sente o pulso ao panorama musical é mesmo necessário estar em plena forma.