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Sal nascente

Reinaldo Serrano

Um samurai e um reformado entram num bar. Podia ser uma anedota, mas não é. É antes uma forma sumária de reverenciar uma série sobre comida e descoberta interior com que um autor de manga japonesa nos brinda e nos enche a barriga

A televisão, à escala planetária e agora mais do que nunca, vai dando cada vez mais espaço (mas nem sempre melhor espaço) à gastronomia, à culinária e aos derivados que, de uma e de outra, deram a conhecer alguns nomes que se tornaram presenças assíduas nos monitores caseiros e de demais plataformas um pouco por todo o mundo. Tornaram-se “amigos lá de casa” as figuras e as personalidades de Jamie Oliver, Gordon Ramsay, Anthony Bourdain ou Nigella Lawson, entre muitos outros. À popularidade no pequeno ecrã suceder-se-ia o sucesso livresco e a constância nos escaparates que adornam tanto as livrarias de elite como as mais populares, sem esquecer as grandes superfícies comerciais onde, a par da fruta importada, é possível levar para casa a última obra de quaisquer dos nomes supracitados.

Claro que as redes sociais e a blogosfera ampliaram ainda mais os segredos dos profissionais e (como cogumelos, diga-se com o devido propósito) as receitas que cada qual achou por bem partilhar com o mundo. Numa sociedade que nos apresenta sem reserva os mestres iogurteiros, a que se juntam os mestres cervejeiros e as batatas fritas “caseiras” e as sobremesas “da avó” mais as que seguem a receita tradicional, eis que os chefes de cozinha se assumem sem retrocesso como figuras de proa entre os mais referenciados na net e os mais (re)conhecidos no planeta.

Procurando, com relutância, acompanhar a tendência, ousa o humilde escriba dar conta de um mui curioso produto televisivo oriundo do Japão e que, desde o recente março, consta do menu da Netflix. Chama-se “Samurai Gourmet” e adapta para o universo televisivo a manga original de Masayuki Kusumi, o quase sexagenário que, além de escrever também compõe, e que se tornou conhecido justamente pelas histórias onde a comida nipónica tem um papel central, a par de uma ou outra reflexão sobre a própria sociedade do país do Sol Nascente.

A dúzia de episódios agora disponíveis constitui um agradável “amuse-bouche” mesmo para os que desdenham à partida qualquer aproximação ao mundo da culinária. A verdade é a personagem em torno da qual giram os episódios é um achado: Takeshi Kasumi, um homem que dedicou a vida ao trabalho, reforma-se com a redonda idade de 60 anos (isto é no Japão, caro leitor) e, confrontado com um facto novo ao fim de décadas de rotina sem imprevistos de maior, descobre esse enorme “puzzle” chamado tempo. Como lidar com ele?

A resposta surge na pacatez de um passeio e, com ele, na descoberta de uma liberdade inaudita e até interdita até início daquela tarde. Kasumi entra, receoso e quase fascinado, num pequeno restaurante que alberga poucas unidades de comensais; não é de luxo, não é “trending”, não tem aparentemente nada que o distinga dos milhares de restaurantes que devem povoar o Japão. Senta-se na timidez própria dos que recuperam um ritual longínquo e observa, encantado, a profusão de ofertas simples que o espaço ostenta. Cada um dos pratos que os demais presentes consome é, para ele, uma redescoberta. Um misto de hesitação e ponderação faz com que a sua escolha não seja imediata, antes resulta de um mecanismo interior que a passagem do tempo se encarregou de enferrujar. Superado o teste da opção, outro mais difícil emerge, quando questionado sobre o que quer beber; água é a resposta canónica mas, adormecida nos recônditos da intimidade, uma memória ressurge e ousa interferir na passiva previsibilidade: está reformado, é dono do seu próprio tempo, das suas próprias escolhas; são elas que recaem sobre uma cerveja, e à hora de almoço, meu Deus!

Com esta decisão surge igualmente a figura de um samurai sem mestre, que percorre as estradas do Império, dono de si próprio e das sua escolhas. É esta espécie de alter-ego que sustenta e completa este “Samurai Gourmet”, uma figura que vai aparecendo para ajudar o protagonista na resolução dos inúmeros conflitos internos que vai encontrando ao mesmo tempo que mergulha mais e mais no seu novo quotidiano. Esta solução, que parece absurda ou, pelo menos, bizarra é, na verdade uma mais valia nesta série peculiar e alternativa e que constitui uma excelente opção para os que queiram assistir a narrações perfeitas de pequenos contos que, ao longo de uma vintena de minutos cada, merecem todo o tempo que lhes queiramos consagrar.

Há algo de onírico e melancólico neste trabalho produzido pela Netflix, onde a fotografia e a música são um complemento perfeito ao trabalho de realização e do elenco. Naoto Takenaki é excelente no seu desempenho como protagonista de uma série que é uma vastíssima montra sobre as muitas iguarias que o Japão oferece, ao mesmo tempo que nos aproxima da cultura milenar de um país que tem, justamente por desconhecimento, muitos rótulos que escondem a sua verdadeira essência.

Espero sinceramente que “Samurai Gourmet”venha a ter outras temporadas, mas enquanto tal não acontece, que pelo menos se recorde o episódio em que Kasumi é contratado para figurante num filme ou aquele em que vai jantar com a sobrinha que não vê há muito. E, por uma vez que seja, façamos um despudorado manguito para os que acham que a manga japonesa não traz nada de novo às artes.