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Father John Misty: “A fama é o narcisismo materializado”

foto Guy Lowndes

É atípico o percurso de Josh Tillman na música. Quando tinha 30 anos, e depois de um discreto percurso como cantautor solitário, reinventou-se como Father John Misty, uma personagem que fascina e intriga na mesma medida. A música — desde a estreia abençoada, com “Fear Fun”, em 2012, até “Pure Comedy”, nas lojas na sexta-feira dia 7 — é matéria de sonho para qualquer amante de folk rock (categoria lata na qual se resignou em ser incluído — “The oldest man in folk rock speaks”, troça na nova, e épica, ‘Leaving LA’). Em Paris, um dos letristas e performers mais brilhantes da sua geração tentou explicar-nos o que é viver na sua cabeça (pista: não parece ser fácil).

Escreveu as canções deste disco quando andava em digressão com o anterior. Como conseguiu escrever letras tão complexas entre concertos?
Este álbum foi, em boa parte, escrito ao piano. E eu não faço ideia de como se toca piano — estava a ensinar-me a mim mesmo a tocar. E isso traz uma alegria meio infantil, que se prende com a alegria de estar a aprender a tocar um novo instrumento, o que é muito inspirador. É como andar em digressão — pode ser complicado escrever, mas conseguimos sempre encontrar pequenos momentos de inspiração. Sinto que, quando me afasto de algo, isso ajuda-me. Não fazer nada é uma grande parte do meu processo criativo. Quando estou mais tempo em casa, não faço nenhum, até dar em doido e pensar: tenho de trabalhar. Não sou muito disciplinado. Mas desta vez passei mais tempo com um bloco de notas, a escrever, porque era muito importante fazer tudo bem. A última deixa na ‘Pure Comedy’, “I hate to say it but each other’s all we’ve got’, foi reescrita várias vezes, porque era muito importante. Há mais esperança neste álbum do que em qualquer outro dos meus discos. É o disco mais otimista que já fiz.

É importante terminar o disco com a frase “there’s nothing to fear”?
Sem dúvida! A ideia é essa. Se a vida é uma piada, há duas formas de a encarar: ou pensas “que deprimente” ou “se é uma piada, isso liberta-te”. Quando nos tornamos adultos, é suposto tudo ser importante: a religião, a política... A música pode dar-nos a perspetiva de que as respostas não são assim tão sofisticadas. E também nos esquecemos de que a política e a religião nasceram da criatividade humana — o problema é que já nos esquecemos de que estas coisas foram criadas por nós e que podemos fazer delas o que quisermos. Em vez disso, deixamos que nos controlem e governem, o que é absurdo, uma comédia. O controlo é nosso.

Escreveu uma canção de 15 minutos chamada ‘Leaving LA’, que divide o álbum em imaginários lado A e lado B...
Pensei: não posso escrever um álbum sobre humanidade sem haver um humano lá dentro. Acredito que ‘Leaving LA’ é a coisa mais vulnerável e despida que já escrevi. Todos os meus medos, as minhas dúvidas sobre mim mesmo, a minha ambição, a minha insanidade, a minha infância... quis incluir tudo. E a minha vida amorosa também é uma grande parte da canção. Se tirares o primeiro e o último verso, tens uma história muito simples, de duas pessoas que estão a sair da cidade, mas não sabem bem porquê — essa é a história literal. Mas, pelo meio, quis dar às pessoas a oportunidade de estarem na minha cabeça durante 15 minutos. Este é o tipo de merda que eu penso entre a garagem e a estrada. É uma meditação sobre a fama, o sucesso e todas as questões que advêm daí.

Quão famoso sente ser?
O suficiente. Mesmo que sejas só um bocadinho famoso, chega para mudar as coisas. Creio que, para uma pessoa que pensa, a fama é um adversário interessante. É algo que entra na tua vida e que tens de combater, o que é bom para um escritor. Porque há algo na fama que te desafia, que desafia aquilo de que és feito. De certa forma, tu convidas a fama a entrar na tua vida. E quando as pessoas dizem: se a odeias assim tanto, porque a procuras? Porque precisas de um espelho. E a fama é um espelho distorcido que acentua partes nossas de que não gostamos. Mas temos de examinar-nos. E a fama é o narcisismo materializado. Temos de ser fortes. E é isso que um escritor quer: saber do que é feito.

Em 2015 dizia sentir uma atração mórbida por dar às pessoas aquilo que não esperam. E a si mesmo, ainda se surpreende?
Sim, quando escrevi “there’s nothing to fear” [na canção ‘In Twenty Years or So’] surpreendi-me por querer ser tão generoso e gracioso. Além de todos os jogos de sombras que faço na minha música, em última análise o que quero é dar esperança às pessoas. Uma das minhas citações favoritas do Alejandro Jodorowsky é: “As pessoas vão ao cinema para se esquecerem das suas vidas durante umas horas, eu faço filmes para lembrar as pessoas das suas vidas durante umas horas.” Entretenimento é esqueceres a tua vida por umas horas, arte é lembrares-te.

Afirmou conhecer quem esteja “traumatizado” após a eleição de Trump. Custa-lhe ver as notícias?
O mais perturbante é que as notícias me divertem. Porque são quase construídas para nos entreter. Como disse, o entretenimento tem a ver com esquecer, e quando olhamos para as notícias e somos entretidos por elas esquecemo-nos das nossas vidas, dos nossos vizinhos, das nossas responsabilidades, e presumimos que o que se passa nas notícias é a realidade. Sinto que chegámos a um ponto em que ignoramos a realidade da nossa vida por estarmos tão embrenhados [nas notícias], e isso é que permite que o psicopata continue. Se todos ignorassem o Presidente e fizessem o que querem, não haveria forma de os parar. Há coisas que são ingovernáveis. Por exemplo, os direitos civis: a narrativa é que surgiram graças aos políticos ou que se concretizaram graças à legislação e ao Governo. Não é por isso que as pessoas os conquistaram. Conquistaram-nos porque decidiram que os queriam. E o Governo teve de acompanhá-los — na verdade, até atrasou o processo. O ser humano não é estúpido. Podemos olhar para outra pessoa, diferente de nós, e reconhecer que somos iguais. Está na nossa natureza. Mas a política perverte a nossa natureza. Até o liberalismo, que diz que “somos todos diferentes, a tua experiência é completamente diferente da minha, nunca poderia compreendê-la”. Nós chegamos todos ao mundo da mesma maneira, somos iguais. Mesmo que, com boas intenções, o liberalismo defenda que somos todos flocos de neve únicos, somos todos iguais. O objetivo deste disco é dizer: estamos todos no mesmo calhau, a ter a mesma experiência. Estamos todos a viver, a morrer, a apaixonarmo-nos, a viver tragédias, a passar pelas mesmas coisas. E é tolo sobrevalorizar as nossas diferenças. Claro que temos de ser sensíveis e ouvir as pessoas, mas somos todos iguais.

Antes de criar o Father John Misty, lançou oito álbuns como J. Tillman. Que pensaria ele desta sua persona?
Não é uma persona. Simplesmente cresci, enquanto escritor. Fui ficando cada vez mais honesto. O J. Tillman ficaria horrorizado, porque não queria que ninguém visse o seu sentido de humor; vivia obcecado com a ideia de ser levado a sério. Assim era eu, enquanto jovem rapaz: não valorizava aquilo em que era bom. A música de Father John Misty é como ter uma conversa comigo mesmo. É isto que penso sobre o mundo e sobre mim, e é muito vulnerável. E não é a cena típica de singer-songwriter. Não me defendo bem, exponho-me às críticas. Olhas para o Bon Iver, por exemplo, e ele tem uma máscara de poesia e sons bonitos. Ele não diz: acordei esta manhã, estava aborrecido e não sabia se era um bom songwriter, mas, ainda assim, tentei escrever uma canção... o que podia ser uma letra minha. Todos os meus álbuns começam com uma pergunta demasiado grande. No primeiro disco era: quem sou eu? No segundo era: o que é o amor? Neste é: o que é que isto tudo significa? Tudo perguntas demasiado grandes para mim. Mas é desse tipo de artista que gosto. Como Terrence Malick, ou David Lynch, ou Charlie Kaufman, ou Kurt Vonnegut — pessoas que se atiram a grandes perguntas. Mas tens de ter sentido de humor, tens de ter noção: milhões já tentaram, não vou ser eu a encontrar a resposta. Por isso é que chamam “pretensiosos” a artistas que tentam. Porque de facto é pretensioso. A humanidade reside no humor.

Tentou contrariar a aridez da mensagem com arranjos ora sonhadores ora épicos?
O “I Love You, Honeybear” [2015] era muito vulnerável, e eu estava com medo. Por isso, tapei esse medo com todo o tipo de instrumentos. Neste nem sequer há reverb nas vozes. É muito direto. As letras são tão densas que quis dar às pessoas algum conforto, alguma beleza.

O Expresso viajou a convite da PIAS