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As mulheres de Guernica

Ao longo dos anos, Picasso muda o modo como retrata as mulheres. Ma imagem, "Figuras à beira mar" (1933), Museu Picasso de Paris

Foto Sucesión Picasso. VEGAP, 2017

Já a exaustão visual se apodera de quem chega à última sala da exposição esta semana inaugurada no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, dedicada à celebração dos 80 anos de Guernica, quando o olhar se detém numa tela a partir da qual irradia um poderoso magnetismo. Ali, naquele espaço final intitulado “Meia noite no século”, arrebata-nos a força desconcertante de um óleo sobre tela com 130x97 cm intitulado “Mulher penteando-se”. Data de 1940 e sabe-se ser aquele mais um dos retratos de Dora Maar realizados por Picasso.

Terá sido pintado entre a Primavera e o princípio do Verão de 1940 e pertence agora ao MoMA de Nova Iorque. Apesar da aparente languidez contida na ideia de uma mulher a pentear-se, aquele é um quadro construído num tempo de sombras para a Europa, marcado pela tragédia de uma guerra ainda em progressão acelerada. As tropas nazis estavam já às portas de Paris, Picasso refugiara-se desde setembro de 1939 em Royan, uma zona de praias na costa Atlântica de França.

“Mulher penteando-se” (1940)

“Mulher penteando-se” (1940)

Foto Sucesión Picasso. VEGAP, 2017

O retrato de uma Dora Maar sofrida, atormentada com um problema de infertilidade que havia de marcá-la para a vida, baliza um arco temporal definido por esta exposição denominada “Piedad y terror en Picasso. El caminho a Guernica”, iniciado em 1925 com um outro quadro – decisivo para entender o percurso do pintor até chegar a Guernica – intitulado “As três bailarinas”, cedido pela Tate Modern, de Londres.

São três figuras perturbadoras, marcadas por uma contraditória explosão de energia. Se a figura central tem o poder de captar de imediato todas as atenções, é na figura da esquerda que mais se traduz uma quase macabra ideia de dança da morte, com aquela boca onde sobressaem uns dentes tão ameaçadores, quanto definidores de uma posição, uma atitude nova.

Já não são mais as mulheres amantes, as mulheres estáticas e lastimosas. Algumas leituras sugerem passar por ali um certo estado de alma de Picasso ainda afetado pelo suicídio do seu amigo e poeta Carlos Casagemas, despedaçado pelas dificuldades da sua relação amorosa com Germaine Pichot, uma muito atraente artista e modelo com quem Picasso também se envolvera e acaba por aparecer em várias das suas telas, como a crucial "Les Demoiselles d'Avignon".

“As três bailarinas” (1925)

“As três bailarinas” (1925)

Foto Sucesión Picasso. VEGAP, 2017

Há ali uma conjugação de amor, sexo e morte, mas sobretudo há uma nova abordagem, um novo olhar de Picasso sobre as mulheres. Tantas vezes acusado de misógino, o pintor acabará por construir uma das glorificações maiores do papel da mulher, precisamente no quadro que se tornou um ícone maior do século XX.

“Guernica”, obra prima absoluta, presente no imaginário de quantos denunciam as infinitas tragédias humanas que continuam a dizimar o mundo, símbolo do terror indiscriminado e dos horrores da violência de Estado maquilhada na hipocrisia dos danos colaterais, é um quadro de uma absoluta transcendência, apenas povoado por mulheres, animais e crianças.

“Mãe com menino morto (I)“. Desenho para “Guernica”, (1937)

“Mãe com menino morto (I)“. Desenho para “Guernica”, (1937)

Foto Sucesión Picasso. VEGAP, 2017

Não há homens. Impera o universo feminino. Impera um mundo marcado pela dor, a raiva, o sofrimento dos mais desprotegidos, dos mais débeis, dos mais massacrados. As mulheres são transpostas para o primeiro plano desta denúncia da crueldade absoluta. Mas não são já as mulheres amantes, as mulheres, modelos ou monstros, confinadas ao silêncio do quarto enquanto espaço burguês.

Estas são mulheres mães, mulheres que gritam, mulheres cujos corpos funcionam como armas de arremesso, com seios desnudos que mais parecem balas apontados à indiferença ou ao bárbaro conformismo de um tempo em que ser neutral é tomar partido pela opressão.

“Guernica”, (1937)

“Guernica”, (1937)

Foto Sucesión Picasso. VEGAP, 2017

As mulheres de Guernica impõem-se como arquétipo da urgência da denúncia. São as mulheres que sofrem. São as mulheres que choram, mas não se resignam. São as mães de todas as dores. Elas são as mulheres que amamos e o desespero maior de toda essa paixão, de toda essa entrega, reside na inabalável certeza de que morre tudo quanto amamos.