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MNAA recusa exames a quadro suspeito

Autor flamengo desconhecido, “vista da Rua Nova dos Mercadores 1570-1619”, óleo sobre tela, Londres, Kelmscott Manor Collection, The Society of Antiquaries of London

Cortesia The Society of Antiquaries of London, Kelmscott Manor

Museu de Lisboa impede análises de laboratório independente

O Museu Nacional de Arte Antiga não vai fazer qualquer exame às controversas pinturas da “Rua Nova dos Mercadores”, cartaz da exposição “A Cidade Global”. Apesar dos seus proprietários, a Society of Antiquaries de Londres, terem ontem reforçado a sua disponibilidade para se realizar um estudo “de acordo com os padrões aceites para as obras que fazem parte dos Museus Acreditados do Reino Unido”, o MNAA voltou atrás na intenção de examinar o quadro.

“As análises teriam de ser realizadas numa instituição de conservação certificada e inteiramente supervisionadas por um representante qualificado da Society of Antiquaries of London e totalmente financiadas pelo MNAA”, lê-se no comunicado do museu português que, sem adiantar mais razões, decidiu não efectuar qualquer estudo. Referindo-se aos quadros suspeitos, o MNAA apenas diz que se “confirma a justeza da sua integração na exposição”, apesar de “Rua Nova dos Mercadores” nunca ter sido analisado material e tecnicamente. António Filipe Pimentel, diretor do museu, não se mostrou disponível para qualquer comentário.

O Expresso Diário divulgou em primeira mão o relatório dos exames efetuados ao “Chafariz d’El Rei”, o outro painel na origem da controvérsia. Os mesmos concluem que a pintura terá sido produzida no final do século XVI por um artista flamengo ou nórdico. Assim sendo, não seriam sustentáveis as dúvidas levantadas por historiadores como Diogo Ramada Curto e João Alves Dias. Ao Expresso, Vítor Serrão — um dos historiadores de arte que defenderam a autenticidade de “Chafariz d’El Rei” — foi perentório: estes “exames laboratoriais, cruzados com a análise histórico-artística, são conclusivos a respeito da ancianidade dos quadros”.

Os exames divulgados na quinta-feira, e que visam colocar um ponto final na polémica, estão, porém, a ser alvo de críticas de Diogo Ramada Curto. Ora porque a independência do laboratório está em causa — o Laboratório José de Figueiredo funciona em terrenos anexos ao MNAA e integra a estrutura da Direção-Geral do Património Cultural que foi quem encomendou os exames — ora devido à metodologia e âmbito do estudo. De fora dos exames realizados ficou aquele que pode ser considerado mais concludente e que foi exigido por Vítor Serrão: o exame dendrocronológico que permite aferir a idade da madeira em que o quadro foi pintado.

Diogo Ramada Curto, no Expresso online, relembrou que de forma algo inexplicável não existe “exame dendrocronológico”, tal como havia sido proposto por Vítor Serrão, que “a definição das imagens no relatório é muito baixa” e, sobretudo, que a madeira foi identificada como pinho nórdico quando num relatório anterior havia sido identificada como madeira de castanho. “Como foi possível confundir duas madeiras tão diferentes?”, questiona. E acaba a concluir que “a investigação factual, crítica e analítica, não se compadece com os ritmos das agendas políticas, nem das agendas publicitárias. Tão-pouco me parece possível precipitar as coisas tendo em vista os foguetórios ou as finissages. Estou contra qualquer tipo de entendimento festivaleiro da cultura.”

“A Cidade Global” encerra amanhã no Museu das Janelas Verdes e segue para o Museu Soares dos Reis, no Porto, a partir de 17 de maio.