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JFK, mais uma vez (e sempre...)

Kennedy nos seus últimos minutos de vida

Foto Walt Cisco/The Dallas Morning News

Sobre a morte do 35.º Presidente dos Estados Unidos há muitas teses mas só uma parece ter aceitação geral: a de que a versão oficial é mentira. Chega de Espanha a mais recente tentativa de desvendar o mistério

“Lee Harvey Oswald pode ter sido um herói”. É com esta frase polémica que Javier García Sánchez regressa a um dos crimes mais apaixonantes do século XX: o assassínio de John Fitzgerald Kennedy, ocorrido quando o autor tinha seis anos. Com o apropriado título “Teoria da Conspiração”, o espanhol vem recordar que as mentiras na política não são coisa recente, enquanto nos apresenta nova iteração sobre o magnicídio.

O autor, que tem cerca de 30 livros publicados, sobretudo de ficção, explica ao diário “El Mundo” que começou por pensar num romance sobre a morte do 35.º Presidente dos Estados Unidos da América. Já tinha título: “El francês”, referência a um de cinco atiradores que, na sua visão da história, participaram na eliminação do jovem chefe de Estado. Por alturas do 50.º aniversário do dia fatídico em Dallas, e face à avalancha de textos que então se publicaram, García mudou de agulha e decidiu escrever um ensaio. O seu currículo inclui, ainda, biografia, poesia e crítica literária.

Com o subtítulo “Desconstruyendo un magnicidio: Dallas 22/11/63”, a obra espraia-se por mais de 600 páginas que o jornal espanhol considera “demolidoras” para a já de si contestada versão oficial. Exaustivo, García mostra “tanta paixão como rigor”, escreve o periódico, “ordenando e expondo tudo o que existe de escrito, investigado e desclassificado (a conta-gotas) sobre o assunto”. “Uma história de sangue tem de ser contada com sangue”, diz o autor acerca da que considera ser “a mãe de todas as conspirações”.

Algumas afirmações do livro são conhecidas, da inverosimilhança do atirador solitário Oswald (que García admite que estivesse convencido de que o seu papel era proteger Kennedy, de onde o elogio com que abre este texto) à fraca qualidade da espingarda que teria usado para matar o Presidente, da janela de um armazém de livros. Também não surpreende nem é inédita a motivação indicada: golpe de Estado ao serviço do lóbi das armas e de setores da direita americana, ligado à guerra do Vietname e ao conflito com Cuba, com colaboração da CIA, do FBI e da Máfia.

O momento em que Ruby dispara contra Oswald

O momento em que Ruby dispara contra Oswald

Foto Ira Jefferson ‘Jack’ Beers Jr./The Dallas Morning News

O autor lembra que meia centena de testemunhas que estiveram na Praça Dealey de Dallas naquela tarde soalheira, e a quem chama “vítimas colaterais”, morreram de forma estranha. Numa espécie de regresso ao filme “JFK” de Oliver Stone (1991), ataca o relatório Warren, com que o regime americano tentou, em vão, encerrar a questão, e a teoria da “bala mágica” que entra e sai várias vezes dos corpos de Kennedy e do então governador do Texas, John Connally.

Vários Oswalds preparados

García garantiu recentemente, em entrevista à rádio COPE, que “12 agentes da CIA já desmentiram a versão oficial” sobre os factos. Um deles terá sido Howard Hunt, mais tarde condenado pelo escândalo Watergate, que levou à demissão do Presidente Richard Nixon (1968-74), que por sua vez fora derrotado por Kennedy nas eleições de 1960. “Nixon sabia que JFK não ia sair vivo de Dallas, porque até já tinham tentado uns meses antes em Chicago”, afirma o escritor, para quem também Lyndon Johnson, sucessor de Kennedy, terá estado envolvido no atentado.

“Teoría de la conspiración”, de Javier García Sánchez, Editora: Navona; Páginas: 640 páginas; Preço: €32 (Editora)

“Teoría de la conspiración”, de Javier García Sánchez, Editora: Navona; Páginas: 640 páginas; Preço: €32 (Editora)

Oswald foi morto por Jack Ruby, com um disparo à queima-roupa, 48 horas depois do assassínio de JFK, “rodeado de 70 polícias”. O seu é um fantasma que ainda hoje atemoriza a América, diz García a “El País”. “A CIA tinha vários Oswalds preparados três anos antes do magnicídio”, afirma numa entrevista. Mas Lee Harvey parece-lhe uma personagem fora de sítio: “Era um péssimo atirador nos marines, nunca disparava e até tinha medo de armas”, assegura.

Para García, o crime de Dallas insere-se numa série de assassínios e golpes de Estado que Washington terá patrocinado. E teme que a arte da mentira tenha feito escola, em tempos de Trump e fake news. “Aprendemos todos. Os meios de comunicação. Os políticos. Dallas foi uma conspiração. Liquidaram gente e mexeram-se com muita habilidade para dizer, inclusive Norman Mailer, que Oswald foi ‘o assassino solitário’. Mentira.”