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“Estou sempre nos meus desenhos, nas minhas histórias”. As duas faces de Paula Rego.

foto NICK WILLING

A propósito da estreia do documentário “Paula Rego: Histórias & Segredos”, de Nick Willing, o filho mais novo da artista, fomos visitar a mãe ao seu reino de fantasia. Descobrimos não uma, mas duas mulheres

Alexandra Carita

Alexandra Carita

enviada a Londres

Jornalista

Desconcertante. A palavra é a que melhor define a pintora nascida Maria Paula Figueiroa Rego, a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa. Desconcertante no trabalho e na vida, quando conversa e quando se cala, quando ri e quando abre os olhos de espanto. Desconcertante na sua duplicidade constante, nos seus universos fechados. Naquele vocabulário de criança, perfeita na sua crueldade e na sua bondade genuínas. Não é fácil compreendê-la, quando até ela se procura ainda em cada quadro que pinta, em cada história a que se apega.

Toco à campainha à hora marcada. Ainda não estou certa que o ateliê é ali. As velhas portas fechadas das quais a tinta se solta com a humidade e o sol que amiúde bate naquela rua calma, pacata e silenciosa de uma Londres abandonada no tempo. Parece que nada se pode passar do lado de dentro, que a porta nem sequer corre. É Lila quem a abre, o braço direito da artista desde há 30 anos, modelo para as suas obras, assessora para todo o serviço de estúdio, amiga, confidente. “A Dona Paula está lá dentro. Pode entrar”, diz-me amável. Entro e o fim do mundo cai-me em cima.

Bonecos de brincar, bonecos de pano de todos os tamanhos com cabeças a baloiçar, feitas de gesso ou de argamassa, cabeleiras de todas as cores, pássaros voadores, ratos, águias, triciclos e carrinhos de rodas, espelhos, candeeiros, manequins de montra de loja, roupa, muita roupa espalhada, amontoada e arrumada num enorme charriot encostado à parede do fundo da segunda sala do ateliê. Um espaço amplo, onde os quadros, os últimos que Paula realizou, ainda permanecem num mostruário que não é mais do que outra parede bem iluminada pela claraboia que faz entrar o cinzento do céu da capital inglesa naquele estúdio sem janelas, comprado “a bom preço” em 1994.

A série de obras é inspirada no livro “Bastardia”, de Hélia Correia, que uma prima da artista lhe enviou de Portugal. É uma história triste, dramática, telúrica. Há um menino filho do mar que acaba por morrer na praia depois de se ter escondido no pinhal de Leiria e de ser levado às cavalitas por um bandido aí escondido. Há uma menina que é violada por um velho pastor e que se refugia ao lado de um burro. Há os tios do menino que o detestam. Há, há tanta coisa. As telas estão carregadas de detalhes, de violência e de beleza. Assim, o bom e o mau, como em todos os trabalhos da autora.

“Há um lado sádico em mim. Já era assim em criança, sempre fez parte de mim”, assume. “Uma vez”, conta, porque Paula Rego usa sempre a história para ilustrar o que quer dizer, “o meu filho Nick estava doente, tinha sido operado à apendicite e estava no Hospital Britânico, em Lisboa. Eu fui para o pé dele e pusemo-nos os dois a desenhar. Ele diz que eu lhe li ‘O Pequeno Príncipe’ e que se fartou de rir. E depois quando ria doía-lhe a barriga por causa das cicatrizes. Eu gostava de o fazer rir porque doía. Achava piada.”

foto NICK WILLING

foto NICK WILLING

foto NICK WILLING

Atliê. O dia a dia de Paula Rego é passado no seu estúdio em Londres, duas salas iluminadas por uma grande claraboia. É lá que com Lila, seu braço direito há mais de 30 anos, veste e despe os bonecos que pinta, que recebe os seus modelos de carne e osso, cuja posição é meticulosamente pensada para ficar bem na composição dos quadros. Como num guarda-roupa e sala de adereços de um teatro, ali há de tudo. Das tintas às cabeleiras, às roupas, manequins, cavaletes, sofás e poltronas

Atliê. O dia a dia de Paula Rego é passado no seu estúdio em Londres, duas salas iluminadas por uma grande claraboia. É lá que com Lila, seu braço direito há mais de 30 anos, veste e despe os bonecos que pinta, que recebe os seus modelos de carne e osso, cuja posição é meticulosamente pensada para ficar bem na composição dos quadros. Como num guarda-roupa e sala de adereços de um teatro, ali há de tudo. Das tintas às cabeleiras, às roupas, manequins, cavaletes, sofás e poltronas

foto NICK WILLING

Nick Willing, o filho mais novo de Paula e do pintor inglês Victor Willing, nascido depois de duas meninas, Caroline e Victoria, confirma a história da mãe. “A mãe sempre gostou das duas coisas misturadas.” Agora sabe-o melhor do que nunca. É ele o autor do documentário “Paula Rego: Histórias & Segredos”, com estreia marcada para quinta-feira, num cinema perto de si, e tem passado muito tempo com a mãe nestes últimos três anos, depois de ter deixado para trás a vida de cineasta em Los Angeles e de ter abraçado para si os ‘negócios’ de Paula. Foi, de resto, ela quem lho pediu. “Disse-me que em Portugal ainda era preciso que fosse um homem a tratar das coisas. Então, comprei um fato e uma gravata, voltei a falar a língua da minha infância e fui tentar conseguir um bom acordo para a mãe no que respeita à Casa das Histórias.” A nova proximidade com a mãe levou à feitura do filme, uma porta aberta a novas leituras sobre a obra de Paula Rego.

Comovente, mesmo, o documentário desvenda como ‘os bonecos’ são o retrato íntimo da sua vida. “Estou sempre nos meus desenhos, nas minhas histórias. A Lila sou eu, sou sempre eu”, explica a artista. E já não tem medo, muito medo, como me dizia o ano passado em Cascais, numa entrevista de fundo para o Expresso. “Quando estou triste ou contente com qualquer coisa exprimo tudo isso nos quadros. Chego à tela e as coisas começam a nascer e, às vezes, mudam, como se de alguma forma o inconsciente estivesse a falar. A gente faz uma coisa e começa a sentir diferente, vai-se com um sentimento para fazer um boneco e depois esse sentimento muda para outro.” É por isso que a mulher é o grande tema, o maior mesmo, de toda a sua obra. “Sou eu”, frisa. Ela é a mulher.

A mulher que sofre, que ama, que se magoa, que é magoada, que magoa o outro, que tem ciúmes, que se vinga, que faz troça, que aborta, que se fecha, que se abre, que está deprimida, que vive no escuro, que vai ao baile, que joga, que mente, que guarda segredo, que esconde.

Mas essa mulher, Paula Rego, deixou de esconder. Melhor, deixou-se embalar pela verdade dos quadros e revelou-se neles. Fê-lo pelo e para o filho, porque gosta muito dele, e fê-lo diante de todos, embora disso tenha pouca noção. “Fiquei muito emocionada com o filme porque vi o meu marido vivo e a minha mãe. Fiquei exausta. No dia seguinte nem consegui trabalhar, a Lila teve que me ir levar a casa. Venho todos os dias ao ateliê, menos às quartas-feiras, dia em que a minha secretária vai lá a casa. Gosto de ver o Vic a dançar. Ele dançava tão bem, tão bem, tão bem. No verão íamos para o Algarve, para casa da Menez, a minha amiga pintora, convidava-me sempre a mim e ao meu marido para irmos e depois íamos aos clubes que lá havia para dançar toda a noite, até de madrugada. Era tão bom. “É assim que explica o filme, mas sabe que lá estão muitas outras coisas. A sua depressão horrível, as infidelidades, os desgostos, as amantes e os amantes, o sexo, o sofrimento.”

Antes de ir buscar mais chá de hortelã para a D. Paula, Lila explica como segue à risca as indicações da artista. “Faço como ela diz e já fiz de tudo.” A pintora ajusta “até de futebolista já fez, do Benfica, claro está. Sou benfiquista, o meu avô foi sócio fundador do clube.” Ao mesmo tempo, chega a D. Violeta, a boneca que representa a odiada professora da St. Julian’s School, escola que frequentou em miúda, em Carcavelos. “Fui eu que fiz a boneca, depois a D. Paula vestiu-a”, diz Lila. O resultado é uma boneca com uma caveira como rosto, uns cabelos pretos desgrenhados, uma camisola roxa a quase não conseguir esconder dois seios enormes. “Já me vinguei dela tantas vezes, já chega!” Paula só começou a desenhar com modelo quando Lila foi trabalhar com ela. “Eu fazia de cabeça. Mas uma vez estava a fazer ‘A Mulher Cão’ e era eu própria a olhar para mim num espelho, assim com um joelho em baixo e outro em cima. Comecei a ver que não conseguia fazer nada. Chamei a Lila, ela pôs-se na posição que eu queria e eu desenhei-a com o pastel.” A imagem serve para contar que o animal faz parte do ser humano e que aquela mulher a que chama cão é ela própria a dormir sobre as roupas do seu dono, o seu marido, numa atitude de obediência, de submissão e de amor incalculável também.

“Sempre fui deprimida desde que me lembro, de pequenina. É isso que revelo agora neste filme e na exposição que está na Marlborough, aqui em Londres. Estão lá os desenhos todos da depressão que eu fiz um dia (2007) em que estava muito deprimida e pus ali a Lila, que já trabalha comigo há mais de 30 anos, numa cadeira a levantar a saia e umas coisas assim. Depois fiquei mais aliviada mas não muito. Tantos anos de trabalho e a fazer bonecos ajuda sempre. Sabe, o trabalho era a minha forma de fugir ao mal-estar da depressão. De fugir um bocadinho, sim. Então quando se faz alguma vingança... Às vezes há pessoas de quem a gente não gosta, não é?, e faz-se ali um boneco, às vezes corta-se ao meio e isso, depois fica-se melhor”, suspira. “O meu marido foi o homem da minha vida, eu amava-o muito, tenho muitas saudades dele. Era uma pessoa muito esperta, excecional e ajudou-me muito. Ele propunha coisas para eu fazer. Uma vez arranjou uma tigela azul, muito bonita, e pôs laranjas lá dentro e disse-me para pintar aquilo. Eu não sabia o que havia de fazer e disse-lhe que não sabia fazer e perguntei-lhe ‘qual é a história?’ Ele respondeu: ‘Então se queres fazer histórias, lê um livro e faz uma história.’ E assim foi, comecei a ler livros e a fazer histórias dos livros. O que me interessa é a narrativa, narrar uma história através dos bonecos que ponho nos quadros. A minha própria história é muito importante e os meus sentimentos sobre as pessoas. Às vezes castigo-as, quer dizer, faço troça delas e isso, mas as pessoas não sabem quem são.”

“A Paula sempre usou a pintura como forma de dizer coisas que não conseguia verbalizar”, ajuda Nick. “Fui sempre assim. Era muito envergonhada.” A história vem a seguir. A história que justifica o ser e nunca o parecer. Mais uma entre tantas, sempre tantas, histórias que misturam episódios do passado com momentos do presente, quase de forma aleatória, num discurso fragmentado pela memória da pintora. Uma memória onde só ficam guardados os acontecimentos marcantes. Aqueles que de uma forma ou de outra lhe encheram ou esvaziaram a alma.

AUTORRETRATO. Ao espelho, Paula Rego posa com uma máscara de macaco para a câmara do filho, Nick Willing. É uma das cenas do filme que estreia esta quinta-feira

AUTORRETRATO. Ao espelho, Paula Rego posa com uma máscara de macaco para a câmara do filho, Nick Willing. É uma das cenas do filme que estreia esta quinta-feira

foto LILA NUNES

“Eu tinha ido ver todos os filmes do Walt Disney e sabia muito bem as cantigas e cantava, ‘some day my prince will come’, eu cantava em inglês porque desde os quatro anos que falava a língua. Tinha lá uma rapariga que andava na escola e que ia para lá falar comigo em inglês, não eram lições, era divertimento e uma vez ela contou-me que fazia competições com o pai a ver quem é que dava mais puns, veja lá. Um dia estava nas termas com o meus avós, em Castelo de Vide, onde eles iam descansar nas férias e levavam-me a mim e ao meu próprio penico para eu não ter que fazer xixi nem cocó nas sanitas do hotel. O meu avô sabia que eu sabia cantar a cantiga em inglês. Estavam os amigos dele todos à volta e ele pegou em mim, pôs-me em cima de uma mesa e disse-me: ‘Paula, agora canta essa coisa que tu sabes em inglês para os senhores ouvirem.’ E eu cheia de vergonha não consegui cantar e pus-me a chorar. O meu avô pegou em mim e levou-me para outro quarto e disse assim: ‘Olha, tu sabes, tu cantas. É importante.’ E assim foi, pôs-me lá outra vez em cima da mesa e eu cantei. E foi uma boa lição! Depois fui cantar uma cantiga ao meu pai que não devia ter cantado, que era ‘amado mio love me forever’, era uma cantiga de amor, ele ficou tão horrorizado que disse assim: ‘Olha, Maria Paula, tu podes fazer bem os teus bonecos, mas para cantares és um desastre.’ Nunca mais consegui cantar. Ainda hoje me custa. Até na escola não podia cantar. A D. Raquel, que estava ao piano, perguntava sempre quem é que está a fazer esse barulho tão esquisito? ‘É a Paula, não é?’ Era, sim senhor, estava a dar umas notas todas falsas, todas feias.” Mais tarde, muito mais tarde, nos anos 60, gravou um disco numas cabines, onde as pessoas podiam entrar e gravar, e cantou tudo mal de propósito. “Para ser mau mesmo. Brincava com essas coisas como brincava com as pessoas.”

Paula Rego não é diferente aos 82 anos do que era aos quatro ou aos oito, aos 16 ou aos 28. “Há sempre o lado perverso dos seres humanos nos meus quadros. O lado perverso e o lado mau. O lado grotesco da vida, que ao mesmo tempo é bonito. Já eu, não sou boa nem má. Sou obediente. Ensinaram-me a ser assim e sempre fui assim. Não podia ser de outra maneira, a minha mãe ensinou-me sempre a ser obediente, o meu pai não, mas a minha mãe.” Extraordinária duplicidade de uma personalidade que quer ser bem comportada como lhe dizem, uma marca de carácter inabalável, e a criança, mulher livre, livre mesmo, que viaja no tempo como entende, que faz as asneiras que entende, que mergulha nos mundos que quer, onde tudo lhe é permitido.

“Uma vez perguntei ao meu pai para que servia ser pintora. Estava na escola e compreendia bem o significado e a utilidade das profissões dos pais dos meus colegas, médicos, advogados, arquitetos, mas não entendia a pintura. O meu pai disse-me que um artista era como um explorador, é uma pessoa que vai a mundos onde ninguém esteve e volta com um retrato de coisas que nunca vimos mas que todos reconhecemos. Fiquei admirado e esperei pelos quadros que me iam mostrar esses mundos muito especiais. E comecei a olhar para os quadros da minha mãe de uma maneira diferente. Só que esses mundos não são lugares físicos, são lugares que estão na sua mente.” A imagem que Victor Willing dá ao filho para explicar aquele mistério que Paula Rego era e é até para os filhos é encantadora. Tal como ela consegue ser. A tal mulher obediente, que faz tudo o que for preciso para a deixarem fugir para o seu universo escuro e sombrio desses contos de fadas e histórias infantis que transforma a seu belo prazer para falar à vontade, estar à vontade, ser rainha por todos os dias. Ali é ela quem manda. Não há ordens a não ser as dela.

“Eu ao princípio fazia colagens, cortava as coisas que eu gostava e depois deixei de fazer isso. Comecei a utilizar o pastel não há muito tempo. Um dia fiz um desenho que era ‘Mulher Cão’, um desenho muito simples, que ia pôr num quadro grande que agora está na Coleção Berardo, chamado ‘The Barn’ (O Celeiro). E um amigo meu, o João Penalva, disse-me que tinha ali um desenho tão bonito que não devia pôr no quadro grande que já estava cheio de coisas. Porque eu enchia tudo, via um espaço e punha lá qualquer coisa. Então deixei assim, sozinho. Uma vez estava com um grande papel com um macaquinho e muitos macacos desenhados e ia cortá-los todos para ser uma colagem. Mas ele disse que podia deixá-lo assim, que era tão bonito. Eu deixei. Pu-lo numa tela e fiz um boneco.”

foto NICK WILLING

foto NICK WILLING

fotos MANUELA MORAIS

Família. Entre o passado e o presente, tempos opostos por onde Paula Rego viaja a todo o momento, as fotografias do álbum lá de casa. Primeiro na atualidade, a artista começa por desenhar o neto que posa a seu lado depois de ter estado deitado num colchão para ilustrar “Bastardia”, uma história de Hélia Correia. Depois o passado, com Paula Rego e os pais, e com o marido Victor Willing e o filho Nick

Família. Entre o passado e o presente, tempos opostos por onde Paula Rego viaja a todo o momento, as fotografias do álbum lá de casa. Primeiro na atualidade, a artista começa por desenhar o neto que posa a seu lado depois de ter estado deitado num colchão para ilustrar “Bastardia”, uma história de Hélia Correia. Depois o passado, com Paula Rego e os pais, e com o marido Victor Willing e o filho Nick

fotos MANUELA MORAIS

A sua ingenuidade pode ser tocante, de tão genuína, mas há sempre uma segunda ou terceira leitura naquilo que Paula conta. “Fazer arte é uma coisa que eu detesto, fazer arte é repulsivo. Fazer arte mete nojo. Eu faço bonecos.” Para Paula Rego, a pompa e circunstância, a pretensão e a conceção dentro da arte não devem existir. Tudo tem que ser absolutamente genuíno e vir de dentro. Nada pode ser pensado e matutado. “Não se pode fazer arte para impressionar os outros. A pop art, por exemplo, era uma porcaria e eu queria imitar porque estava na moda e fiz uma data de merdas. Eu queria fazer à moda, mas não se pode, tem que se fazer o que se quer e se pode. Fazer só porque é moda não dá nada”, continua, fazendo um recuo no tempo que vai até ao século XVI, XVII e XIX. “Alguns fazem mais arte do que outros e são maravilhosos. Sabem fazer, como o Velázquez, por exemplo, que é o maior pintor do mundo. E o Tiepolo também, adoro. Agora outros não. Até os paisagistas, como o Van Gogh. Ele estava tão deprimido, coitado, não era nada pretensioso.”

Em carne viva, sozinha, na adega da Ericeira, ou no ateliê londrino, onde outrora mandou fazer as suas molduras antes de adquirir o espaço, Paula vive os seus contrastes, as suas inseguranças, a sua vida e os seus segredos. “Os grandes períodos de depressão não sei a que se deviam, ninguém dizia ou sabia nada. Até que um dia, muito, muito mais tarde, já eu tinha mais de 30 anos, o meu médico inglês, muito esperto, disse-me que eu precisava de um psiquiatra. E eu fui, ele arranjou-me um. Era muito simpático. Olhe aquele sofá era dele, que ele me deu, aquele amarelo ali ao canto. Foi esse sofá que foi usado para a Lila posar para os desenhos sobre a depressão. Ele era muito querido e ajudou-me muito, muito mesmo.”
Nada, contudo, pôde algum dia ser mais importante na sua vida do que a pintura. “São assim os verdadeiros artistas”, diz o filho Nick. É a resposta à pergunta que lhe coloco sobre o que se sente mais ser, se mulher, se mãe, se artista. “Gosto muito dos meus filhos. Quando eram pequeninos dava-lhes de mamar e via a televisão, então a minha segunda filha mamava tanto, tanto, tanto que quase me chupava toda. Depois o Nick era muito pequenino e não andava mas corria e estava sempre a cair. Eu sempre gostei muito dos meus filhos, mas está claro que o trabalho era essencial para a minha saúde mental. Era a minha grande âncora. Era e é, portanto, eu tinha que fazer senão pumba!”

Por cima do divã do psiquiatra está a águia que a Lila fez para substituir a ave embalsamada, cujo o aluguer era demasiado caro para os bolsos de Paula Rego. “Tinha uma galeria muito pequena de um homem libanês que me mostrava os quadros, era um playboy mas era bom, e mostrava-me os quadros quando mais ninguém queria fazê-lo. Foi uma amiga minha que me perguntou se eu não queria expor com ela naquela galeria. Vendia-me os quadros e dava-me o dinheiro, que era mais do que me dava aquele senhor da galeria portuguesa. Ele vinha a Londres e levava tudo o que encontrava no estúdio e depois as pessoas diziam-me que os meus bonecos estavam muito caros, mas eu não recebia dinheiro nenhum, às vezes lá vinha um cheque. Os meus filhos ficavam todos contentes: ‘Ai que bom, que bom, agora já podemos fazer compras.’” “E a Paula ia a correr comprar um vestido ou um chapéu, ou fazer o cabelo. E depois desaparecia o dinheiro todo e não podíamos pagar o leite. O leiteiro vinha todos os dias bater-nos à porta porque queria o dinheiro e a mãe dizia para nós lá irmos dizer que não tínhamos dinheiro. Ia a Vitória ou a Carolina, ou até eu”, acrescenta Nick Willing.

“Veio depois o tempo da Marlborough. Fui tomar chá com o John e eles estavam interessados em mim, em tomar conta de mim. Assim foi, eles tomaram conta de mim e eu até agora ainda lá estou. Foi muito, muito bom, porque comecei a vender os quadros muito melhor e foi completamente diferente. É uma galeria muito importante, sabe.” Digo que sei. Estou absorta naquela dicotomia fantasiosa de uma artista que se refugia num tempo intemporal ou numa infância que se prolonga ad eternum numa vida separada por instintos e razões, por aquele ser e aquele parecer que existem em cada homem mas que aqui coexistem num único espaço. Paula Rego, qual menina adulta ou qual adulta mulher dividida entre a educação quase aristocrática e a vontade de liberdade tão mais criativa, arriscada, apetecível e saborosa. “Fui feliz. Acho que sim.” Ali sentada junto à mesa de trabalho e de descanso conta-me então como tudo funciona no ateliê. Assim, aos ziguezagues como se a conversa não tivesse princípio, meio e fim. “Pego nestas roupas, visto um manequim ou peço à Lila que as vista, mas tem que se vestir como deve ser para poder fazer parte da história. Estas roupas todas algumas são minhas, outras eram da minha avó ou da minha mãe e outras ainda são de uma senhora da América que me manda regularmente pacotes de roupa porque tem uma irmã que tem lojas em segunda mão. Tudo o que está aqui é usado para fazer a história...”

A história ficcional e a história verdadeira ou o segredo posto à vista. “Quando cheguei a Inglaterra fui para Kent, para uma escola de debutantes, onde até se tinha que andar com um livro na cabeça para andar direita, e onde não havia homens, nem rapazes. Mas nessa escola havia um professor que ensinava pintura. Foi ele quem me disse que eu tinha bastante talento e que me conseguia arranjar um lugar na escola de artes em Chelsea. Ele levou um portefólio com os meus trabalhos e o professor de Chelsea gostou e disse que sim, que eu podia ir para lá. Mas o senhor que tomava conta de mim em Londres, que era amigo do meu pai, sabia de uma menina que tinha ido para Chelsea e que tinha ficado grávida, tinha sido um desastre. E disseram-me que não podia ir para lá. Perguntaram qual era a melhor escola e responderam-lhes que era a Slade School of Arts. Eu fui para a Slade e fiquei grávida. Daí a série sobre o aborto. Toda a gente fazia abortos nessa altura. Não era fácil arranjar alguém que fizesse o aborto até ser legalizado cá em Inglaterra, e não era fácil também porque doía. Já em Portugal, apesar de ser proibido, não era difícil arranjar quem fizesse. Todas as mulheres lá da Ericeira tinham alguém onde iam fazer. Ouvia essas histórias e pediam-me dinheiro para irem fazer um aborto, eu dava sempre, está claro. E também abortei em Lisboa.”

A confissão é um alívio da culpa que aquele segredo parece ter carregado toda a vida. “A condição da mulher era uma crueldade horrível em Portugal. Mas cá era a mesma coisa, os homens também batiam nas mulheres. É por isso que costumo dizer que sou uma portuguesa londrina.” Mas há mais nesse segredo. “Não falei dos meus abortos porque não queria a atenção virada para mim, queria-a virada para todas as mulheres. Decidi fazer os quadros com a Lila e com outras meninas porque fiquei mais do que irritada com o facto de ninguém ter ido votar no primeiro referendo sobre o aborto em Portugal. Consegui que no segundo as pessoas já tivessem mais consciência da situação e que fossem votar.”

Há sempre esse segredo pessoal na narrativa da obra ou de séries inteiras. É a necessidade insaciável que Paula sente em perceber o que sente e porque se sente assim. Aquela mulher que odeia e ama ao mesmo tempo e que disso só fala a si mesma debaixo da máscara da artista. “Sempre me disse que os segredos eram bons. Que era bom ter segredos, que eles nos dão força e poder. Às vezes falava sobre tudo menos sobre o que era verdade, porque essa verdade era um segredo que lhe dava força, uma força perversa. Escondia coisas de toda a gente. E sempre disse que era preciso ter segredos sobre todas as pessoas. Guardar os segredos, não os revelar. Não os guardar só do pai e da mãe, também do marido e dos filhos, de todos. Nunca ninguém soube tudo sobre a minha mãe”, diz agora Nick Willing, a narrativa do documentário na cabeça e a vontade de mostrar a mãe mais verdadeira que já conheceu. Aquela que agora conversa com ele, mais do que alguma vez fez.

Nick não tem dúvidas de que é uma crueldade o que Paula mostra nos desenhos, “mas ela faz com que pareça uma brincadeira”, e isso os ingleses percebem muito melhor do que os portugueses. “Os ingleses sabem muito bem que os contos de fadas são coisas muito escuras”, continua. A artista descobriu em Inglaterra uma ilha de segurança, onde os temas tabu relacionados com a mulher eram falados e debatidos em público sem preconceitos. “Nos anos 70, em Portugal ainda os movimentos feministas não existiam.” Talvez por isso toda a vida tenha dito ao filho que tinha medo de voltar a Portugal, porque não conseguiria pintar lá, não podia pintar lá. Porquê? “Porque lá estão os fantasmas, os fantasmas são muito cruéis. Em Inglaterra não há nada disso. Inglaterra é um país de lei, de justiça e de coisas normais. Portugal é um país de loucuras, de contos escuros, de vinganças de pessoas com corações pretos. E fico com medo lá”, o filho repete os seus argumentos. “Se não tivesse ido para Londres, Paula não teria pintado estes quadros todos. Não poderia ter explorado o seu lado português sem ter vindo para Londres. Aqui, ela tem a força para fazer o que lá não poderia fazer.”

Paula sorri, Lila tem a lágrima no olho, Nick também. Os três parecem olhar aquela “mulher bonita com quem todos se queriam meter” e que dançava alegremente no terraço da quinta na Ericeira, antes de entrar para a adega. Aquela mulher que fez sonhar e que sempre sonhou fantasia e pesadelo. “Gostava de ver que a minha mãe era linda e que toda a gente se interessava por ela. Imaginava-a uma estrela de cinema”, diz Nick Willing misturando o passado e o presente que o filme que fez mostra. Bem, respondo-lhe, estrela de cinema agora ela também já é!