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O cantor Olavo Bilac tem 49 anos. Mas Olavo Bilac foi aplaudido em Lisboa há 101 anos. Saiba como

Olavo Bilac, príncipe dos poetas brasileiros, esteve em Lisboa em 1916

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Esta é a história de uma viagem que começa no Rio de Janeiro, passa por Cabo Verde, Lisboa, Paris, Moçambique e Macau. Uma história sobre a força dos jornais, poemas, prosas, crónicas que “foram sempre páginas de arte”, escritas pelo ‘príncipe dos poetas brasileiros”... e de palavras cantadas por outro homem. Entre os dois, um nome: Olavo Bilac

Não sabemos se Cristina Lima chegou a falar com Olavo Bilac quando o paquete da companhia holandesa Zeeland aportou em Cabo Verde em 1916. O príncipe dos poetas brasileiros – como era então conhecido – embarcou em Lisboa na primeira semana de abril, depois de ter sido homenageado e aclamado na capital portuguesa.

Eram longas as viagens da Europa para a América do Sul, com paragens em vários portos para entrada e saída de mercadorias e passageiros. É provável que o autor do Hino à Bandeira [do Brasil] tenha aportado em Cabo Verde e que Cristina o tenha visto. O neto sabe apenas que ela batizou o filho com esse nome. E que por sua vez, o cabo-verdiano que cresceu em Macau e foi funcionário do Banco Nacional Ultramarino em Moçambique, transmitiu o nome que recebera de Cristina [sua mãe] ao filho, nascido em 1967 e que viria a ser cantor.

Na sua passagem por Lisboa em 1916, Olavo Bilac disputou o espaço dedicado à Grande Guerra nas primeiras páginas dos jornais

Na sua passagem por Lisboa em 1916, Olavo Bilac disputou o espaço dedicado à Grande Guerra nas primeiras páginas dos jornais

BIBLIOTECA NACIONAL

Certo é que a edição de “O Século” de 2 de abril de 1916 informa na primeira página que “o illustre poeta brazileiro” regressaria ao Rio de Janeiro a bordo de um paquete holandês que deveria passar por Lisboa nos dias “7 ou 8”.

Viviam-se tempos de grande tensão desde que a Alemanha declarara guerra a Portugal a 9 de março. As primeiras páginas dos jornais destacavam as notícias sobre o evoluir da “conflagração” – expressão em voga na imprensa portuguesa para noticiar a Grande Guerra. Uma semana depois, a 15, toma posse o governo da ‘União Sagrada’ chefiado por António José de Almeida. No dia 16, nasce o ministério do Trabalho e Previdência Social que alargou os serviços de assistências prestados pelo Estudo.

A Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de março de 1916. 18 dias depois a guerra enchia os jornais, mas “O Século” colocou uma foto de Olavo Bilac à varanda do hotel Avenida Palace nos Restauradores, na 1ª página. Bilac saudava os seus admiradores lisboetas que planearam ir esperá-lo à estação; o poeta antecipou-se e chegou um dia antes do previsto

A Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de março de 1916. 18 dias depois a guerra enchia os jornais, mas “O Século” colocou uma foto de Olavo Bilac à varanda do hotel Avenida Palace nos Restauradores, na 1ª página. Bilac saudava os seus admiradores lisboetas que planearam ir esperá-lo à estação; o poeta antecipou-se e chegou um dia antes do previsto

BIBLIOTECA NACIONAL

A 25 de março, nove dias depois da declaração de guerra alemã, Olavo Bilac, vindo de Paris, chega à estação do Rossio um dia antes do previsto. Os muitos admiradores da sua obra e do seu pensamento político-social tinham planeado uma homenagem na estação que deveria ter acontecido no domingo, 26. A concentração haveria de se realizar realizar no dia seguinte, junto ao hotel Avenida Palace onde Bilac se hospedou.

À varanda do hotel Avenida Palace nos Restauradores, Olavo Bilac saúda os seus admiradores lisboetas que planeavam ir esperá-lo à estação. Mas o poeta antecipou-se e chegou um dia antes. 1ª página de O Século, 27 de março de 1916

À varanda do hotel Avenida Palace nos Restauradores, Olavo Bilac saúda os seus admiradores lisboetas que planeavam ir esperá-lo à estação. Mas o poeta antecipou-se e chegou um dia antes. 1ª página de O Século, 27 de março de 1916

BIBLIOTECA NACIONAL

Em 1916, os jornais de Lisboa imprimiam “cerca de 300 mil exemplares por dia. Se se pensar que o país tinha, nesta altura, cerca de cinco milhões de habitantes dos quais apenas um quarto sabia ler, que em Lisboa vivia meio milhão de pessoas, e considerando que cada exemplar de jornal era presumivelmente lido por mais de um leitor, pode concluir-se, sem exagero, que a imprensa fazia parte do quotidiano de praticamente todas as pessoas que sabiam ler”, escreveu Luís Trindade num capítulo de “A crise do Liberalismo”, editado pela Objetiva.

Os jornais eram também a “instituição organizadora da vida literária”, o que não é despiciendo para que o leitor – cem anos depois – possa entender a enorme popularidade que o “príncipe dos poetas brasileiros” tinha entre os portugueses. O ano de 1915 foi pródigo no aparecimento de revistas culturais que reuniram colaboradores portugueses e brasileiros.

“Orpheu”, a mais conhecida, chegou aos nossos com a força do furacão criativo que identificamos num grupo de homens nascidos entre o último quinquénio da década de 1880 e o primeiro da década de 1890, e se espelha nas palavras de Fernando Pessoa: "Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais”.

Com apoios institucionais, a “Atlantida” foi feita por homens da mesma geração, e resistiu cinco anos com uma direção bi-nacional: João de Barros, pedagogo e ministro da I República, era o responsável em Lisboa, e João do Rio [pseudónimo de João Barreto], o responsável no Rio de Janeiro.

A revista era impressa em Lisboa, e Olavo Bilac colaborador desde o primeiro número. Na fotogaleria que se segue mostramos-lhe algumas páginas do número 6, que assinala a passagem por Lisboa do brasileiro que defendeu o serviço militar obrigatório no seu país.

FOTOGALERIA de parte do nº 6 da Atlandida. Este número assinala a passagem por Lisboa de Olavo Bilac, colaborador desta publicação dirigida por João de Barros e João do Rio
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FOTOGALERIA de parte do nº 6 da Atlandida. Este número assinala a passagem por Lisboa de Olavo Bilac, colaborador desta publicação dirigida por João de Barros e João do Rio

ATLANDIDA - HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Sumário do número 6 da Atlandida. Este número do mensário foi publicado a 15 de abril de 1916. No final da página, destaque para o preço das assinaturas para Portugal, ilhas e colónia ser o mesmo, sendo apenas diferente (e superior) para todos os outros países da União Postal uma agremiação fundada em finais do século XIX que foi aglutinando países em sucessivas etapas
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Sumário do número 6 da Atlandida. Este número do mensário foi publicado a 15 de abril de 1916. No final da página, destaque para o preço das assinaturas para Portugal, ilhas e colónia ser o mesmo, sendo apenas diferente (e superior) para todos os outros países da União Postal uma agremiação fundada em finais do século XIX que foi aglutinando países em sucessivas etapas

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Folha de rosto da revista Atlandida, mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil que se publicou entre 1915 e 1920
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Folha de rosto da revista Atlandida, mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil que se publicou entre 1915 e 1920

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Nota de abertura do número 6 da Atlandida; este número foi publicado 15 de abril de 1916, uma semana depois das últimas grandes manifestações de homenagem à passagem por Lisboa do poeta brasileiro Olavo Bilac
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Nota de abertura do número 6 da Atlandida; este número foi publicado 15 de abril de 1916, uma semana depois das últimas grandes manifestações de homenagem à passagem por Lisboa do poeta brasileiro Olavo Bilac

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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916
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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916

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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916
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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916

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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916
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A conferência de Olavo Bilac no teatro da República em 3 de Abril de 1916

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Número 6 da Atlandida. O número 1 desta revista mensal para Portugal e Brasil saiu em novembro de 1915 e o último em 1920. Foram publicados 48 números. Nesta página, discurso de boas vindas do presidente da Academia das Ciências na recepção em honra de Olavo Bilac
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Número 6 da Atlandida. O número 1 desta revista mensal para Portugal e Brasil saiu em novembro de 1915 e o último em 1920. Foram publicados 48 números. Nesta página, discurso de boas vindas do presidente da Academia das Ciências na recepção em honra de Olavo Bilac

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Número 6 da Atlandida. O númmero 1 desta revista mensal para Portugal e Brasil saiu em novembro de 1915 e o último em 1920. Foram publicados 48 números
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Número 6 da Atlandida. O númmero 1 desta revista mensal para Portugal e Brasil saiu em novembro de 1915 e o último em 1920. Foram publicados 48 números

ATLANDIDA - HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

O preço da assinatura para Cabo Verde era igual ao da metrópole – como então também era uso designar o território continental. Podemos por isso pensar que Cristina Lima, a avó do cantor Olavo Bilac, se tenha encantado com a poesia lírica do “Príncipe dos Poetas Brasileiros”.

O poeta que lutou pelos negros

Mas também é possível que tenha sido o combate ao racismo travado por Bilac que tenha encantado a então jovem cabo-verdiana [em 1906 Bilac colocou-se ao lado de um grupo de negros paulistas que lutavam contra a tentativa de proibir a admissão de negros e mestiços na guarda civil de S. Paulo].

Olavo Bilac foi conhecido como o ‘príncipe dos poetas brasileiros’

Olavo Bilac foi conhecido como o ‘príncipe dos poetas brasileiros’

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Em 1907, no auge da popularidade na sua terra natal, Bilac venceu o concurso promovido pela revista “Fon-Fon” para eleger o o eleito o primeiro “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Em 1914, viajou pelo Brasil, em campanha cívica para defender a alfabetização e o serviço militar obrigatório. E em 1915 fundou a Liga de Defesa Nacional.

Recorte da 1º página do vespertino republicano “A Capital”, 27 de março de 1916

Recorte da 1º página do vespertino republicano “A Capital”, 27 de março de 1916

A CAPITAL (27 de março de 1916) / HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Um ano depois de ter percorrido o Brasil em campanha cívica, Lisboa acolheu-o como um herói. Ninguém quis ficar longe dos festejos: quem não conseguiu lugar na sala da Academia das Ciências para assistir à sessão extraordinária “para receber o lyrïco admíravel”, tentou inscrever-se para participar no jantar de homenagem; as inscrições decorreram na livraria Bertrand na rua Garrett, mas o local onde iria realizar-se o jantar foi alterado e transferido para o Hotel Central — porque a sala do Avenida Palace era pequena para acolher tanta gente.

O poema “Profissão de Fé” foi considerado um exemplo do parnasianismo no Brasil, corrente literária que louvava a natureza e a perfeição da forma. Na crónica jornalística, o estilo era outro: “O nosso mal tem sido este: quisemos ter estátuas, academias, ciência e arte, antes de ter cidades, esgotos, higiene, conforto”, escreveu Bilac na “Gazeta de Notícias” de 19 de abril de 1903.

Bilac conhecia o poder do “jornal leve e barato, verdadeiro espelho da alma popular, síntese e análise das suas opiniões, das suas aspirações e do seu progresso”.

Olavo Bilac é o 4º em pé, da esquerda para a direita, nesta foto de grupo de membros da Academia Brasileira de Letras. Bilac foi um dos fundadores desta instituição cultural, em 1897

Olavo Bilac é o 4º em pé, da esquerda para a direita, nesta foto de grupo de membros da Academia Brasileira de Letras. Bilac foi um dos fundadores desta instituição cultural, em 1897

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Foi um dos muitos escritores e poetas que – na viragem do século XIX para o XX – recorreu a este suporte para levar a literatura a um público mais alargado: “O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal (...) nós adquirimos a possibilidade de falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade” [cf. artigo assinado por Elias Saliba no volume 3 da História do Brasil - ed. Objetiva].

A 3 de abril de 1916 Olavo Bilac discursou no Teatro da República. Na assistência, o Presidente Bernardino Machado e o chefe de Governo, António José de Almeida. Guerra Junqueiro faz a oratória de boas vindas ao amigo brasileiro. 1ª página do diário “Republica” 4 de abril de 1916

A 3 de abril de 1916 Olavo Bilac discursou no Teatro da República. Na assistência, o Presidente Bernardino Machado e o chefe de Governo, António José de Almeida. Guerra Junqueiro faz a oratória de boas vindas ao amigo brasileiro. 1ª página do diário “Republica” 4 de abril de 1916

Biblioteca Nacional

A circulação de jornais e revistas entre Portugal e Brasil, contribuiu decisivamente para que os lisboetas leitores de jornais estivessem atentos aos escritos de Bilac. E isso explica a forma como foi acolhido na capital portuguesa em pé de guerra.

“A população de Lisboa – desde o Presidente da Republica até ao, povo humilde, desde as individualidades mais celebres até aos mais ignorados admiradores do seu nome e da sua obra – fez-lhe uma recepção enthusiastica, dignas do grande Poeta da Nação que elle, aos olhos de todos, representa com supremo brilho”, lê-se no número 6 da revista mensal “Atlandida”, publicada a 15 de abril de 1916 [nestas primeiras citações optámos por manter a grafia da época, para o leitor ver como se escrevia português em Portugal há 101 anos].

Na coletânea de José Régio “Os mais belos poemas de Olavo Bilac” não poderia faltar o soneto XIII do poema Via Láctea – “Ouvir Estrelas”. Ou não fosse Bilac, um dos expoentes do Parnasianismo no Brasil

Na coletânea de José Régio “Os mais belos poemas de Olavo Bilac” não poderia faltar o soneto XIII do poema Via Láctea – “Ouvir Estrelas”. Ou não fosse Bilac, um dos expoentes do Parnasianismo no Brasil

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Três dias depois do comboio que trazia Olavo Bilac de Paris, ter chegado à estação do 28 de março, o governo liderado por António José de Almeida fez publicar a lei 495 no Diário do Governo: “Enquanto durar o estado de guerra ficam sujeitos à censura preventiva os periódicos e outros impressos e os escritos ou desenhos de qualquer modo publicados. A censura eliminará tudo o que importa a divulgação de boato ou informação capaz de alarmar o espírito público, ou de causar prejuízo ao Estado (...)”.

Com a opinião pública portuguesa a precisar de quem lhe alimentasse e exaltasse o orgulho nacionalista como de pão para a boca, Lisboa recebeu o poeta com todas as honras. Bilac era um nacionalista, um defensor do serviço militar obrigatório, dos direitos dos negros... e um poeta lírico que louvava as mulheres e cantava as estrelas.. O governo apresentou-lhe cumprimentos e o Presidente Bernardino Machado fez questão de assistir à conferência do poeta no Teatro República, que outrora se chamara D.Amélia e hoje São Luiz.

Rubrica assinada pelo escritor Júlio Dantas na revista Ilustração Portugesa de de 3 de abril de 1916, onde, entre outros assuntos, assinala a visita a Lisboa do poeta, jornalista e ativista anti-esclavagista brasileiro, Olavo Bilac

Rubrica assinada pelo escritor Júlio Dantas na revista Ilustração Portugesa de de 3 de abril de 1916, onde, entre outros assuntos, assinala a visita a Lisboa do poeta, jornalista e ativista anti-esclavagista brasileiro, Olavo Bilac

ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA / HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

“Em qualquer oportunidade, a vinda do poeta de ‘Panóplias’ a Lisboa constituíria um acontecimento literário; nas circunstâncias atuais, porém, e precisamente quando a consciencia brasileira se levanta, num admirável movimento de solidariedade moral, a favor da pátria irmã, — a presença de Olavo Bilac não tem apenas o valor de um acontecimento literário: constitui um verdadeiro acontecimento político”, escreve o poeta e escritor Júlio Dantas na coluna que assinava na revista “Ilustração Portuguesa” [atualizámos a grafia].

O país estava mobilizado em duas frentes de guerra, a africana e a europeia, as mulheres republicanas e monárquicas organizaram-se para ajudar ao esforço de guerra. Muitas delas fizeram questão de marcar presença nas conferências de Bilac que... no final estava exausto. O banho de multidão com que Lisboa o presenteou deixou-o exausto, obrigando-o a uma pausa no Estoril, para recuperar a energia necessária para enfrentar a agitação do mar na travessia atlântica. A ida a Coimbra foi cancelada.

Olavo Bilac morreu no Rio de Janeiro onde quase sempre viveu a 28 de dezembro de 1918. O jornal “O Estado de S.Paulo” dedica toda a primeira página da edição especial dessa noite a esse inigualável “agitador de ideias”

Olavo Bilac morreu no Rio de Janeiro onde quase sempre viveu a 28 de dezembro de 1918. O jornal “O Estado de S.Paulo” dedica toda a primeira página da edição especial dessa noite a esse inigualável “agitador de ideias”

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Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac morreu na cidade onde nasceu (Rio de Janeiro), a 28 de dezembro de 1918, dois anos depois de ter sido homenageado em Lisboa. A Grande Guerra tinha terminado a 11 de novembro: morreram nove milhões de combatentes e milhares de civis por toda a Europa.

O esforço de Portugal foi brutal: partiram para França 55.165 militares portugueses, e aí morreram 1935 homens. Para a frente africana, onde Moçambique foi o principal cenário de combate, partiram 19.438, a que se juntaram mais 20 mil destacados das colónias. Na frente colonial, perderam a vida 2007 soldados portugueses, três mil soldados africanos, e um número por contabilizar de carregadores.

A imprensa foi uma vítima colateral: as publicações foram reduzindo o número de páginas e deixaram de se publicar regularmente como aconteceu com dois títulos aqui citados — a revista “Atlandida” e o vespertino “A Capital”. “A crise do papel e do zinco para a fotogravura, sem falar dos produtos químicos indispensáveis para este trabalho” ditam este destino, explica a “Ilustração Portuguesa”: O preço do papel ‘couché’ triplicou passando de 150$00 a tonelada, antes da guerra, para 428$00. E o preço do zinco quadriplicou.

José Régio, poeta, escritor, ensaísta, fundador da revista “Presença” entre outros ofícios, foi o organizador da coletânea “Os mais belos poemas de Olavo Bilac”

José Régio, poeta, escritor, ensaísta, fundador da revista “Presença” entre outros ofícios, foi o organizador da coletânea “Os mais belos poemas de Olavo Bilac”

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Em 1966, para assinalar o 50º aniversário da passagem do poeta brasileiro por Lisboa, José Régio, escritor, poeta, dramaturgo, e fundador da revista literária “Presença”, selecionou “As mais belas poesias de Olavo Bilac” que fez publicar em livro,com a chancela da Artis, numa edição cuidada em que a marca de água que pode ver na foto acima é o esboço do perfil de Bilac.

Um século depois as crianças e adolescentes brasileiros ainda fazem trabalhos sobre os poemas de Olavo Bilac como testemunha o youtube .

Ao Expresso, o cantor português cuja avó Cristina gostava do nome de Olavo Bilac a ponto de assim ter batizado o filho, confessou nunca ter lido o poeta. Mas ainda o pode vir a cantar...

Ao leitor deixamos também um trecho de uma entrevista com o escritor e jornalista brasileiro, Fernando Jorge, autor de uma das biografias de Bilac – e das de Santos Dumont e de o Aleijadinho, entre outras.

  • Furacão Orpheu. Fernando Pessoa e a revista que abanou Portugal

    Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro foram os grandes impulsionadores desta revista literária em dois números. Custava 30 centavos quando um jornal diário valia um. O país ficou virado do avesso quando viu o primeiro número de Orpheu a 24 de março de 1915. Faz esta terça-feira 100 anos.

  • Quando as nossas avós marcharam para a guerra

    “Pela Pátria” era grito, frase de jornal, ordem para resistir ao inimigo. Na retaguarda, as mulheres republicanas e monárquicas criaram verdadeiros batalhões de ajuda à população, disputando terreno e capacidade de influência. De um lado, a aristocracia católica com a Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra, do outro, as republicanas laicas, com a Cruzada das Mulheres Portuguesas . É “Madame Bernardino Machado”, a mulher do Presidente, quem lidera este movimento, inspirado nas cruzadas de outros países que entraram na Grande Guerra