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Notas pessoais

Uma espécie de desabafo sobre a espuma dos dias e a passagem dos mesmos, ou de como um modesto cronista chega aos 50 sem ter definido sobre o que há de escrever sobre si e muito menos se deve escrever sobre os outros

Reinaldo Serrano

d.r.

Num súbito assomo de condenável mas irresistível nostalgia decidi, neste dia em que completo meio século de vida, ousar partilhar alguns dos meus gostos pessoais em matéria de literatura, cinema e música com os eventuais leitores que, com generosa complacência, tiverem ainda a necessária dose de paciência e bonomia para ler as linhas do ancião. Não se trata, naturalmente, de um exercício narcísico ou de estilo, muito menos de qualquer tentativa de imposição de caminhos; trata-se, isso sim, de mostrar um pouco mais as bases do escriba para que, desse modo, se poderem entender melhor os seus mecanismos de escolha, concordando-se ou não com o resultado desses mecanismos, amplamente visível na crónica que semanalmente ocupa espaço e um tempo que leva quase três anos

Feito o prólogo, que comece o caminho em direção ao epílogo. Na literatura, aqui se assume o fascínio de há anos intermináveis pela obra de Agatha Mary Clarissa Christie; e ela está de tal modo disseminada no nosso mercado (ainda por cima com preços que não fazem estremecer as sempre sobressaltadas bolsas) que seria... criminoso, não a referir e dela destacar as histórias protagonizadas por Poirot, Miss Marple ou pela dupla Tommy e Tuppence, bem como as inúmeras e largamente satisfatórias adaptações feitas para televisão e cinema, nelas merecendo destaque os Poirots de Albert Finney, Peter Ustinov e, sobretudo, David Suchet, o mais recente e mais marcante no pequeno écrã.

No que a Miss Marple diz respeito, há quatro atrizes incontornáveis que chamaram a si a personagem colocada na aldeia de St. Mary Mead: Margaret Rutherford (truculenta e caricatural), Joan Hickson (irritante e pouco empática), Geraldine McEwan (genuína e expedita) e Julia McKenzie (mais sofisticada e discreta), provavelmente a melhor Marple da televisão.

Ainda no domínio da chamada literatura policial, invoco com respeito e admiração (e por isso a sugiro) a obra de Frank Gruber, Mickey Spillane, Raymond Chandler, Rex Stout, Simenon, Edgar Wallace ou Henning Mankell, toda disponível entre nós e entre as muitas novidades que vão surgindo entre os autores nórdicos e grandes clássicos dos Estados Unidos entretanto reeditados. E por falar em clássicos, aqui vêm eles nos nomes de Dostoiévski, Tolstoi, Faulkner, Hemingway, Dickens ou Joyce. Querem mais modernos? Ok: Martin Amis, Paul Auster, Kingsley Amis, Salinger, Camilo José Cela, Borges ou Jorge Amado. Portugueses? Segundo OK: Vergílio Ferreira, Fernando Namora, José Gomes Ferreira, Ferreira de Castro, Maria Ondina Braga, Cardoso Pires, Dinis Machado.

d.r.

Bem sei que neste rol sentido e espontâneo faltará aquilo a que abundantemente se chama “modernidade”, mas quem normalmente a invoca raramente sabe o que significa. Pessoa nunca deixou de ser moderno, Verne será sempre um visionário, Sterne foi um modelo, como o foi (repare-se na subtileza com que se muda de tema) Eisenstein no cinema e, no entanto, é hoje olhado como um “antigo”, superado pela tecnologia e pelas novas ideias que revolucionaram a Sétima Arte. Terá sido mesmo assim? A resposta é não, não foi assim.

d.r.

Pois que “Ivan Grozny” (“Ivan, o Terrível”) é, ainda hoje e na modéstia subjacente à opinião, a obra maior que o cinema já concebeu. Mais ainda: não, nos últimos 30 anos (para ser generoso e benevolente) nenhuma obra cinematográfica digna de figurar nos anais da história do Cinema (exceção feita, talvez, a “Born To Kill” (“Nascido para Matar”) de Kubrick) e, no entanto, recuar ainda mais no tempo é lembrar e pereceber quão grande já foi a arte de (saber) filmar.

O que a passagem do tempo nos diz é o contrário do que esperaríamos: os realizadores de hoje esqueceram o que aprenderam ontem: John Carpenter tornou-se uma sombra do que foi, Tim Burton encontrou uma fórmula que ele próprio se encarregou de esgotar, Spielberg é muito menos do que foi em “A Lista de Schindler” (1993) e até o irrequieto Martin Scorcese parece ter adormecido à sombra de um êxito justamente alcançado e injustamente nem sempre reconhecido.

Este raciocínio (válido para uns, absurdo para outros) aplica-se sem dificuldade ao universo da música. Lembro-me de, na segunda metade dos anos 80, passar na minha rádio universitária House Sound of Chicago, House Sound of Philadelphia e outros derivados de um género que praticamente ninguém ouvia e que o tempo se encarregou de tornar uma influência de peso na música que alegadamente terá evoluído desde então.
O que mais me desgosta é a sociedade de hoje ser pouco mais que isso: desdenhosa do ontem e pouco ávida do amanhã, no sentido de querer apenas mais futuro e dispensar o que pode e deve ser melhor futuro. Afinal de contas, quem se lembra de Van Morrison, Brel, Annette Peackock, Patxi Andion ou Barclay James Harvest quando tem, a toda a hora e em qualquer lugar Beyoncé, Rihanna ou Justin Bieber, além de repetidas e indigentes cerimónias que premeiam muito mais um negócio do que uma arte?

Estou ciente que haverá (consciente ou inconscientemente) uma grande dose de ingenuidade nas linhas acima escritas. Mas tal facto não diminui a vontade de ver alguma coisa mudar, pese embora atenuada pela certeza plena que os efeitos positivos da globalização foram há muito superados pelos seus efeitos negativos.
Enquanto as redes sociais mandarem nas consciências coletivas e assim ditarem os seus comportamentos, mergulharemos cada vez mais num mundo sem filtro de espécie alguma, onde, ao invés de se privilegiar a identidade da cada um, se dará ainda e sempre primazia à uniformidade ditada por muitos, mesmo que nenhum deles tenha razão.

Não existe nesta crónica nenhum tipo de desencanto nem, obviamente, nenhum tipo de encantamento. Chegado aos 50 anos não tenho sequer apetência para fazer qualquer tipo de balanço. Às vezes basta constatar uma série de factos para sobre eles se tirarem conclusões. Que elas não sejam necessariamente positivas não significa que tenhamos de caminhar por um qualquer trilho de descrença, muito pelo contrário. Até porque, como se pode ler no canto de praia do meu bom amigo Gigi... “enquanto houver gelo, haverá esperança”. Bebamos a isso e lembremos as palavras de Baudelaire: “Be drunk, always.”