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Histórias do ouro branco e do chá

Uma exposição no Palácio da Ajuda e uma loja que vende chá conduzem-nos numa viagem ao mundo dos segredos das porcelanas e do chá

Vitrina com coleção de chávenas de porcelana no Palácio da Ajuda

Vitrina com coleção de chávenas de porcelana no Palácio da Ajuda

marcos borga

Foi a perdição dos grandes homens de Estado das cortes europeias, essa cerâmica impermeável e translúcida que se distingue na pureza do branco e na delicadeza com que deixa passar a luz. O brilho, o som, a suavidade do tato... Em tudo é diferente, a porcelana. Preparada a partir de uma massa feita da mistura de argila, quartzo, caulim e feldspato, cozida em fornos a altíssimas temperaturas, a porcelana foi durante séculos e séculos um dos tesouros mais bem guardados dos homens do Império do Meio. Só eles sabiam a composição da sua matéria e as técnicas da sua manufatura.

No final do século XVII, quando os holandeses dominavam o negócio de exportação da porcelana da China e do Japão, através da Companhia das Índias Orientais, colecionar estes objetos de desejo tornou-se de tal modo uma obsessão que foi inventada a designação “doença da porcelana”. Augusto, o Forte, rei da Polónia e da Lituânia, príncipe da Saxónia e senhor de Dresden, a maior cidade barroca da Europa daquele tempo, além da sua ‘doença’ de possuir tudo o que conseguisse possuir — joias, amantes, castelos, cavalos, exércitos —, sucumbiu à perdição da porcelana. Chegou a trocar com Frederico da Prússia, que sofria da mesma doença, 151 jarrões de porcelana da China por 600 soldados dos seus exércitos. Na corte de Augusto da Saxónia chamavam à porcelana “ouro branco”, e só por um acaso da sua tremenda obstinação é que o segredo da cerâmica mais cobiçada entre os reinos da Europa lhe foi parar às mãos.

A nova loja da Companhia Portugueza do Chá

A nova loja da Companhia Portugueza do Chá

marcos borga

Esta é a era dos alquimistas, dos matemáticos e dos físicos, perdidos nas fórmulas da ótica e da luz. Spinoza, Isaac Newton, Tschirnhaus... Foi este último, com a ajuda de Botteger — um jovem e fanfarrão aprendiz de farmácia que se gabava de conhecer a fórmula do ouro, aprisionado por Augusto II até conseguir provar os seus dotes de alquimista —, que finalmente chegou às primeiras fórmulas da porcelana explorada na Europa. Foi em Meissen, no ano de 1706.

Maria Pia e os serviços de chá

Esta história fabulosa está contada no livro do artista oleiro Edmund de Wall “A Rota da Porcelana” — o mesmo autor do bestseller “A Lebre com os Olhos de Âmbar” —, e toda esta conversa em torno da porcelana vem a propósito de uma pequeníssima e preciosa coleção de chávenas de chá, exposta em duas vitrinas no Palácio Nacional da Ajuda. Cristina Neiva Correia, conservadora da Coleção de Cerâmica do palácio e nossa cicerone, aponta-nos a mais antiga taça. Verificamos que vem de Meissen e data de 1725. É uma peça rara, uma chinoiserie, “desenhada por Haroldt, que naquele tempo ilustra louças com motivos daquilo que os europeus imaginam ser o quotidiano dos chineses”, diz a conservadora. Olhamos para dentro da vitrina e descobrimos nuances de brilhos e cor, técnicas de desenhos e de fábricas diferentes: da Boémia, de Stoke-upon-Trent, em Inglaterra, do Japão... Ali está uma taça com pires da Dinastia Qing, com as armas de Maria Ana da Áustria, a única peça que resta do serviço que D. João V encomendou para a soberana, e outra chávena rendilhada que quase parece bordada à mão, confecionada em Sèvres.

Chávena com pires do século XIX, serviço de Limoges, da coleção do PNA

Chávena com pires do século XIX, serviço de Limoges, da coleção do PNA

marcos borga

A grande maioria das chávenas desta coleção pertence aos serviços adquiridos pela rainha Maria Pia (talvez mais de trinta), que tomava chá verde e adorava porcelanas. Chegava a comprar em antiquários chávenas que expunha como peças de arte e sempre que viajava pela Europa adquiria serviços completos, alguns dos quais não chegaram a ser usados. Entre 1895 e 1901, a rainha, residente no Palácio da Ajuda, comprou cinco serviços completos de Limoges/Haviland (EUA); o último foi adquirido em Paris, durante a Feira Internacional de 1900, para mostrar que era moderna e estava bem informada do gosto da época.

“Um serviço individual chama-se ‘egoiste’, um serviço para duas já é um ‘tête-à-tête’, uma almoçadeira servia para tomar o primeiro caldo da manhã enquanto decorria a toilette”, explica Neiva Correria. “Na linguagem da mesa, o ritual do chá é sinónimo de educação”, continua a conservadora, apontando um conjunto de chávenas minúsculas, os primeiros brinquedos educativos dos príncipes, que logo em crianças eram introduzidos à bebida, que chegava às toneladas nos barcos carregados de coisas exóticas da China.

Na Rota do chá

“A primeira vez que aparece uma informação sobre uma bebida maravilhosa chamada chá é no livro de Gaspar Cruz, publicado no século XVI, chamado ‘Coisas da China’”, informa Sasha Lima, bióloga, especialista em alimentação e tradições ligadas à nutrição, grande conhecedora de histórias de chá. Estamos agora na loja de Sebastião Filgueiras, a Companhia Portugueza do Chá, um lugar único em Lisboa, onde se vende e aprende tudo o que quisermos saber sobre esta bebida.

A história é conhecida. Os portugueses descobrem o chá quando chegam a Malaca, no século XVI, e são os primeiros intermediários no Ocidente das maravilhas trazidas da China. Dois anos depois de Catarina de Bragança casar com Charles II, em 1662, o rei faz uma enorme encomenda a Macau para a rainha, que transporta o hábito de beber chá para a corte inglesa.

“Por volta de 1650 começaram a abrir em Londres e em Amesterdão as coffee shops , para servir as primeiras grandes bebidas que chegavam do exterior: cacau, café, chá. Mas a grande democratização desta bebida só vai acontecer em Inglaterra, não acontece em nenhum outro sítio do mundo. A visão de que a folha de chá pode ser reutilizada e continuamente reaquecida é importantíssima numa economia de gente pobre que trabalha nas fábricas e precisa de uma bebida quente. Neste sentido, temos de ver a chávena do ponto de vista inglês. São eles que vão criar os tamanhos e pouco a pouco fazer todo esse trabalho de criar uma porcelana de interesse burguês e democrático”, conta Sasha Lima.

Na origem do chá está a camellia sinensis, uma florzinha branca e delicada, a única planta de onde se podem colher as seis famílias de chá e que nos dá centenas de blends diferentes. Este foi outro dos segredos bem guardado dos chineses, que os ingleses só descobrem no século XIX, em espionagem ao serviço de Sua Majestade a Rainha Vitória. É então que os ingleses começam a plantar os arbustos de chá no Nordeste da Índia, com mão de obra de chineses arrebatados nos portos e levados literalmente como escravos, e constroem os fantásticos jardins em socalcos de Darjeeling, tornando-se os maiores produtores de chá. Mais do que uma bebida, o chá transforma-se em símbolo do império.

EXPOSIÇÃO

Palácio Nacional da Ajuda
“Chávenas de Chá — A Mesa e as Artes”, 
até dia 28; visita guiada dia 31, 15h30

Workshops
Companhia Portugueza do Chá
Rua do Poço dos Negros, 105. Tel. 213 951 614. “Iniciação ao Mundo do Chá”, 12 e 19 de abril, 17h; “Uma Bebida Milenar”, 15 e 22 de abril, 10h30