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Alice Vieira e Ana Maria Magalhães dão 20 sugestões para o dia do livro infantil

JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images

Este domingo, 2 de abril, celebra-se o dia internacional do livro infantil e, a mote disso, desafiámos Alice Vieira e Ana Maria Magalhães a partilharem os seus dez livros preferidos para crianças, ou aqueles que nunca se cansam de oferecer. Eis uma lista de livros com emoção, poesia e muita aventura onde se encontram piratas apaixonantes, princesinhas, rapazes aventureiros, meninas insolentes, detetives de bicicleta, burros que falam, bruxas na neve e inesquecíveis viagens no tempo. Tudo isto e muito mais para o menino e para a menina lerem

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Recolha de depoimentos

Jornalista

As escolhas de Alice Vieira

1 - “A Princesinha”, de Francis Hodgson Burnett

Este livro li em criança, com 7 ou 8 anos, e fez-me muito bem. Esta é a história extraordinária de uma criança muito rica que vai para um colégio interno, depois morre-lhe o pai e fica muito pobre e acaba por ficar a criada desse colégio. Eu era muito pequenina e lembro-me de repetir uma frase que a princesinha dizia quando já era pobrezinha que era: “Mesmo nas situações mais difíceis nunca se deve perder a dignidade e o requinte.” É uma obra extraordinária.

2- “Os Desastres de Sofia”, da Condessa de Ségur

Isto passa-se no século XIX e a Sofia é uma menina com muitos primos e é vista pela família como sendo malcriada e um mau exemplo para os primos. E porquê? Porque não calça meias, porque responde torto, porque faz as coisas pela cabeça dela. É muito engraçado. E sugiro este como outro qualquer da Condessa de Ségur, que é uma das autoras da minha vida sobre a qual, de resto, estou a escrever uma biografia.

3 – “Coração”, de Edmondo D´Amicis

É o diário de um miúdo na escola italiana na altura das grandes revoluções e narra a sua passagem da infância para a adolescência. É muito bom de ler porque é um diário e depois é aliciante porque começamos a perceber o que os miúdos fazem, como é que vibram com a independência do país. É um grande livro. E das coisas que gosto muito é a enorme ligação de afeto que ele tem com os professores. O professor primário é ali enaltecido como o professor que tem mais importância na nossa vida. Contam-se as ligações entre ele, os professores e os antigos colegas que são de um afeto extraordinário.

4- “Clarissa”, de Erico Veríssimo

Foi escrito em 1939 e sempre que dou este livro a adolescentes elas adoram e dizem ‘eu sou esta!’. Esta é a história de uma adolescente que vive numa pensão dos tios e a sua descoberta do mundo, dos cheiros, das pessoas que ela vê na rua, do menino a quem ela diz adeus na varanda, das fitas no cabelo. É dos livros mais extraordinários que eu tenho lido. E lembro-me de quando o li de pensar, ‘caramba, pode-se escrever um livro sem ter uma grande história’. Porque o livro praticamente não tem história nenhuma e é maravilhoso pelas sensações que desperta. Ofereço-o a todas as adolescentes que me passam pelas mãos, já foi a minha filha, a minha neta. E todas se identificam com a Clarissa. Tal como eu quando tinha a idade dela. Gosto de quase todos os livros do Veríssimo mas este é o que me toca mais.

5- “Ronia, filha do ladrão”, de Astrid Lindgren

Não é todos os dias que nós temos o dia a dia de uma criança que vive com uma quadrilha de ladrões. Ronia é filha do chefe de uma quadrilha, portanto tem que fazer as coisas que eles fazem. Percebe-se como a rapariga consegue viver no meio daquilo tudo, é a vida dela. É muito bem divertido e bem escrito, tem um grande sentido de humor, como todos os livros da Astrid.

6 –“A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga Nunes

É a história de uma miúda que vive uma vida de repressão em casa com os pais, os primos. Porque o menino não tem querer, não faz isto, não faz aquilo. E ela então arranja uma bolsa onde vai enfiar aquilo que ela chama as suas grandes vontades. E as suas três grandes vontades são: A vontade de crescer, a vontade de ser rapaz e a vontade de ser escritor. E ela inventa personagens, uma família que não existe, os animais são todos pessoas. Quando lemos os livros da Lygia temos a sensação de que o brasileiro é outra língua. Não tem nada a ver connosco. E ela escreve com um português que é realmente outra coisa. E está muito atenta ao social e à história do Brasil. Os seus livros não são suaves, porque ilustra os miúdos da classe média baixa do Rio de Janeiro.

7 – “Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez

É um texto muito poético da relação de um homem com o seu burro, o “Platero”. E é com o burro que ele vai conversando, é o seu interlocutor. É uma espécie de diário. Tudo o que ele vai vendo e vai pensando é com o burro que ele fala. É das coisas mais lindas que li.

8 – “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll

É o livro da minha vida. Na semana passada estive numa escola e falei na “Alice”. E como eles já eram crescidinhos disse-lhe que quando lessem a “Alice no País das Maravilhas” tinham de ler o original. O verdadeiro do Lewis Carroll. Porque toda a gente achava que o livro era da Disney. Imaginem. E há traduções extraordinárias. A Alice, aquele ‘nonsense’ dela, ajudou-me muito quando eu era criança a ultrapassar as coisas. Todas as pessoas que me conhecem sabem que eu tenho a mania das festas e tudo o que há para festejar eu festejo. E digo sempre que aprendi isso na “Alice no País das Maravilhas” porque ela não só festejava os aniversários como festejava os desaniversários. Aquele ‘nonsense’ é enriquecedor e abre-nos muito a cabeça, dá-nos imaginação para pensarmos noutras coisas. De resto, eu tenho uma grande colecção de obras da ‘Alice’ em várias línguas e edições. É um clássico para toda a gente. Fazia bem que as pessoas de vez em quando (re)lessem o livro.

9 – “Emílio e os Detectives”, de Erich Kästner

Foi com esta obra que percebi que a literatura policial podia ser muito boa. E eu sou apaixonada por este género. É um grupo de miúdos amigos que faz uma caça a um homem suspeito, de forma muito divertida, de bicicleta. As coisas que eles fazem para que o homem não note que eles andam atrás dele é divertidíssimo. E está muito bem escrito. Eu quando faço os meus cursos de escrita criativa é sempre daqueles que eu ponho para as pessoas lerem.

10 – “A Manta”, de Isabel Minhós Martins

Amo este livro de paixão. Dou este livro a todas as crianças que eu conheço. Tem muito mais ilustração do que texto, mas é extraordinário para os mais pequenos. É sobre uma herança que a avó deixa aos seus netos que é uma manta. As netas vão encontrando retalhos da manta, depois juntam-na toda, depois a avó vai contando a sua importância, as suas histórias. É lindíssimo.

As escolhas de Ana Maria Magalhães

1 - “As Memórias de um Burro”, da Condessa de Ségur

A primeira escritora que me encantou foi a Condessa de Ségur, que era a mais famosa em todo o mundo na minha infância. Há vários livros dela dirigidos para a infância. Mas alguns estão muito marcados pela época porque ela ainda escreveu no século XIX e nós já estamos no século XXI. “As Memórias de um Burro” é uma história muito engraçada e tem menos essa carga. Li-a com cerca de 8 anos. E sou uma leitora furiosa desde os 7. Este livro pode ser mais facilmente lido por crianças desta época do que talvez os outros desta época que a Condessa escreveu escreveu que se passam em casas de gente muito rica, aristocratas, cheios de criados. Esta é uma história mais próxima. É um animal que pensa e fala e que tem uma dona com quem tem uma relação muito profunda. E própria mãe da criança tem ciúmes do burro. A relação com este burro pode ser entendida como a relação que se tem muitas vezes com um cão ou gato ou pássaro ou hamster. A minha neta mais nova que gosta muito de histórias antigas gostou muito desta.

2- “Mulherzinhas”, de Louise May Alcott

É uma referência e é um livro cheio de afetos profundos. Embora tenha alguns valores e normas de conduta que estão completamente ultrapassadas, há ali uma corrente de amores, famílias, interesse pelos outros e pelos valores universais que não se perdem. É um livro muito interessante. Li-o com 10 anos, talvez.

3 – 'Cosette', “Os Miseráveis”, de Victor Hugo

Cosette (Euphrasie Fauchelevent) é uma personagem inspirada no romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Uma menina pobre, maltratada, que vive uma miséria que não existe hoje no Ocidente, no século XXI. Acho também interessante que as pessoas, neste caso as crianças, possam mergulhar em textos que nos dão uma realidade muito distinta. Até para verificarem como o mundo mudou. Em muitos casos para pior, mas em tantos casos para melhor. Porque já não há miséria como naquele tempo.

4 – “O Grande Voo do Pardal”, de Lídia Jorge

É uma história de amizade, compaixão, do valor da liberdade, contada pela relação de um velho e um pardal. Uma obra que tem desenhos também muito bonitos (de Inês de Oliveira) e que pode ser lido por crianças mais pequenas.

5 – “Canta o Galo Gordo”, de Inês Pupo

É um livro de poemas muito engraçado para crianças pequenas, e que tem um CD com os poemas musicados. Portanto além dos pequenos poderem ouvir a leitura do poema podem ouvi-lo cantado, aprendendo a canção. São poemas de vários temas sobre os avós, a mãe, a primavera e o verão, assuntos diversos para ler e cantar. O que é ótimo para ir a cantar no carro quando as viagens são longas e já não sabemos o que lhes havemos de fazer.

6 – “Fora de Serviço”, de António Mota

Este é para ser lido por pré-adolescentes. Tudo começa quando a mãe de uma família decide fazer greve aos trabalhos caseiros, ficar fora de serviço, para que o marido e filhos percebam que ela não é uma criada para todo o serviço. E eles têm de se desembrulhar sem a sua ajuda, sem contar que ela faça tudo. É uma lição para crianças de 10 ou 11 anos.

7 – “O Pirata das Ilhas da Bruma”, de Mariana Bradford, Mariana Magalhães e Joana Medeiros

Este livro conta a lenda da Ilha Graciosa, nos Açores. O que toda a gente conhece dos Açores é a lenda das Sete Cidades, apenas. E esta é uma lenda engraçada. Há um pirata que anda por ali. E há um problema que se pôs ali nos primeiros tempos da colonização, porque não havia rapazes suficientes para casar com as raparigas da terra. E as raparigas que não estavam dispostas de maneira nenhuma a ficar para tias estavam dispostas a casar com o pirata que aparece. É uma lenda com piada.

8 – “Uma aventura em Conímbriga”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

É um livro com as características da coleção “Uma Aventura”, com muita acção, do agrado das crianças, mas ao mesmo tempo passa-se num cenário especialíssimo como são as ruínas romanas de Conímbriga que vale muito a pena conhecer e ficar com vontade de visitar. Tudo começa com uma festa romana nas ruínas. Uma das personagens é contratada para fazer de gladiador, num ambiente de animação, alegria, máscaras e barraquinhas de época. Os amigos vão assistir e a partir desenrola-se uma aventura inesperada que os obriga a esconderem-se num museu e a tropeçarem em peças que nunca viram. Tentámos fazer sentir até que ponto nestas ruínas, onde viveu muita gente, ficaram mensagens a pairar no ar para nós que lhes sucedemos.

9 – “Uma Viagem ao Tempo dos Castelos”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

É um livro em que um cientista tem uma máquina de viajar no tempo que seria o sonho de qualquer professor de história. E leva duas crianças, um rapaz estouvado e uma rapariga sensata, de quem ele gosta muito como se fossem netos. E leva-os a viajar ao tempo do condado Portucalense, à época em que D. Afonso Henriques luta contra a mãe e fica a governar o condado. Isto tudo porque há brecha no tempo que permite a passagem na Serra do Marão. Nesta viagem vão conhecer imensa gente, assistir a uma caçada, vão fugir, vão assistir à chegada de D. Afonso Henriques e seus companheiros da batalha de São Mamede. Mas tudo isto procurando dar o século XXII de forma divertida, sem se perceber que é uma lição de história.

10 - “A Bruxa Cartuxa nas pistas da neve”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

É um livro divertido com dois níveis de leitura. Esta bruxa vai passar férias na neve com um primo que tem o poder mágico de transformar todas as frases idiomáticas em situações reais. Portanto se disser que alguém que “está de trombas” essa pessoa fica imediatamente com a tromba de um elefante, se disser “fazes figura de urso” essa pessoa transforma-se em urso e aquilo vai gerar uma série de equívocos e de atrapalhações nas suas férias.