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A arquitetura em 70 perguntas

A Torre Eiffel é o monumento com entrada paga mais visitado do mundo. Contudo, os seus primeiros anos estiveram longe de ser pacíficos. Um pesadelo ou um símbolo da alta finança?

d.r.

Como sete dezenas de obras arquitetónicas foram mudando a sua perceção pública ao longo do tempo

Às vezes, há obras arquitetónicas que se confundem com a assinatura do seu criador — e que chegam a carregar, com elas, o seu nome: vigilante, segura, a torre Eiffel é uma das estruturas mais visitadas e admiradas no mundo (recebe praticamente 7 milhões de visitantes todos os anos), enquanto o nome de Gustave Eiffel desperta rapidamente a lembrança de que, sim, é ele o construtor daquela torre de 324 metros de altura que domina o horizonte de Paris. Noutras vezes, a obra esmaga completamente o seu criador. Alguém sabe, por exemplo, quem projetou o arranha-céus mais famoso de Nova Iorque? O arquiteto William Lamb of Shreve, arquiteto do Empire State Building, é praticamente uma figura anónima, apesar de ter sido o mentor que tornou possíveis os 443 metros de altura do edifício.

d.r.

Todas as obras têm uma história para contar. E quase todas encerram um dilema. A Torre Eiffel, construída para inaugurar a Exposição Universal de 1889, foi, no início, altamente criticada e a elite da cultura francesa opôs-se veementemente à sua edificação. Também o início de “vida” do Empire State Building, inagurado nos anos depressivos que se seguiram ao 'crash' bolsista de 1929, foi tudo menos auspicioso: construído a velocidade recorde e encomendado por John J. Raskob, um financeiro de Wall Street e antigo executivo da General Motors, esteve praticamente às moscas durante a primeira década de vida, apesar de ter sido imortalizado para o mundo com o filme de 1933, “King Kong”. Só durante o período da Segunda Guerra Mundial, com a instalação de vários gabinetes da administração norte-americana, é que o arranha-céus ganhou vida.

d.r.

Ainda que temporários e erodidos pelo tempo (mais uns do que outros), as obras arquitetónicas são um produto da sua época, das interrogações que provocaram e encerram, mas a sua perceção pública vai mudando à medida que o tempo corre. Aquilo que provocou ondas de indignação pode tornar-se numa obra mundialmente aclamada (acontece com a Torre Eiffel e também com o Empire State Building). O que foi construído como pagão pode ter-se tornado cristão. E o que se edificou para servir um tirano e uma determinada ideia política pode, com o tempo, ser transformado pelo quotidiano popular.

São estas aparentes contradições que levaram o jornalista e crítico Jonathan Glancey, especialista em arquitetura, analisa no seu mais recente livro, “What's So Great About the Eiffel Tower? 70 Questions That Will Change the Way You Think About Arquitecture”. Cada capítulo é dedicado a uma obra arquitetónica (são sete dezenas), contando a história que está por detrás de cada edificação e como esta foi vista ao longo dos tempos.

d.r.

Glancey, que foi durante mais de uma década editor de Arquitetura no “The Guardian”, outra no “The Independent” e é hoje um profícuo autor de livros e de documentários sobre o tema para a BBC, conta como estas obras foram forjadas sob o signo da ganância, do poder e do conflito. Como alguns famosos arquitetos conviveram com os regimes mais sanguinários. Como pôde, por exemplo, Albert Kahn ter projetado fábricas para o capitalista Henry Ford ao mesmo tempo que desenhava a planta da Fábrica de Tratores de Volvogrado, para o regime soviético?

Sendo uma obra curta e não se distinguindo pela sua profunda investigação, este é um “livro de 'snacks'”, que explora as origens de cada obra arquitetónica, expondo as suas contradições, diz o “The Guardian”. Afinal, a Sagrada Família é um trabalho de um génio ou um edifício 'kitsch'?. Certamente que esta interrogação se coloca a quem já tenha visitado a monumental obra de Gaudí. Glancey tem mais 69 questões para colocar ao leitor, além desta.

What's So Great About the Eiffel Tower? 70 Questions That Will Change the Way You Think About Arquitecture; Jonathan Glancey, Editora: Laurence King Publishing; Páginas: 176 páginas; Preço: €12,40 (Amazon)

What's So Great About the Eiffel Tower? 70 Questions That Will Change the Way You Think About Arquitecture; Jonathan Glancey, Editora: Laurence King Publishing; Páginas: 176 páginas; Preço: €12,40 (Amazon)

“Não é uma má introdução a uma disciplina que, por vezes, sofre de autoarrogância e é uma lembrança útil de que as coisas não são, geralmente, aquilo que parecem”, continua o “The Guardian”. Uma sugestão de leitura para quem considera quase impossível imaginar que, há 2 mil anos, as colunas do templo grego Partenon estavam pintadas em tons brilhantes de vermelho, azul e verde.