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Regresso ao paraíso perdido

Carlos Alberto Vidal com a reedição do LP “Changri-Lá” feita pela Babilónia

nuno botelho

Há 35 anos que o Avô Cantigas é o Avô Cantigas, mas há muito, muito tempo chamava-se Carlos Alberto Vidal, tinha um guru indiano e gravou um LP de rock progressivo chamado “Changri-Lá”. Agora, 40 anos depois, foi pela primeira vez reeditado

Carlos Alberto Vidal tem 62 anos e desde 1982 que só escreve música para o Avô Cantigas. Há 35 anos que não tem outra identidade artística, contudo não pode estar mais satisfeito com o 25º disco do Avô Cantigas que acabou de gravar e para o qual procura editora. Mas hoje tem nas mãos um objeto especial, o ‘disco perdido’ da sua carreira, “Changri-Lá”, um álbum com laivos de ‘rock progressivo’ que lançou em 1976 e que foi agora reeditado pela primeira vez, pela nova editora Babilónia. ‘O disco prog do Avô Cantigas’ tornou-se um produto tão obscuro (António Duarte, em 1984, na “Arte Eléctrica de Ser Português”, afirma que introduziu “no rock de expressão portuguesa a temática da meditação via guru”) quanto raro e colecionável (em 2014, um exemplar foi vendido no eBay por 192 euros, e no Discogs o mais caro que está à venda custa 600 euros), pelo que esta edição, saída no final de 2016, a tempo ainda do 40º aniversário, é um serviço público à história do rock português. “Vejo que o disco provoca mais interesse do que aquele que eu, de uma forma honesta e sem querer mostrar uma falsa humildade, penso que ele mereceria.” Mas merece.

Em 1971 não foi a Vilar de Mouros, em 1975 não foi ver os Genesis a Cascais nem partilhava palcos com músicos de rock, mas em 1976, com 22 anos, Carlos Alberto Vidal tinha barba e cabelo comprido, seguia o guru indiano Maharaj Ji, sonhava com um paraíso na Terra e deu-lhe forma em “Changri-Lá”, um cometa propulsionado a órgão à la Procol Harum, que pede uma reavaliação no contexto da história do rock — nasce um ano depois do grande disco prog do Quarteto 1111, “Onde, Quando, Como, Porquê Cantamos Pessoas Vivas”, e no mesmo ano de “Homo Sapiens”, dos Saga, de José Luís Tinoco. Os outros seus pares, em 1976, ou não chegaram a editar (como os Beatniks, já com Lena D’Água, que tocavam ao vivo o épico prog ‘Cosmonicação’) ou apenas editaram singles: Very Nice (‘Brothers of the Sun’), os Tantra (‘Novos Tempos’) ou os Grandsom (‘Take My Heart’). Esta nova edição em vinil, que inaugura o catálogo da editora portuense Babilónia, inclui dois folhetos (um com as letras e comentários do autor e outro com textos atuais do editor André Azevedo C. Gomes e de Carlos Vidal) e foi feita a partir de um LP original devido à degradação do master, mas tem um som irrepreensível masterizado por Pedro Augusto (Ghuna X).

Carlos nasceu na Lousã e subiu pela primeira vez a um palco com 6 anos, na festa de Natal da Companhia do Papel do Prado, onde trabalhavam a mãe e o avô, para cantar ‘Procissão’, de João Villaret e António Lopes Ribeiro, para uma plateia de 500 pessoas. “A coisa foi estrondosa. Cantei aquilo com uma tal vivacidade que pediram bis.” Com 11 ou 12 anos foi viver para Cascais e estudar para os Salesianos do Estoril. Os pais dão-lhe a primeira guitarra, começa a escrever canções e, aos 17 anos, por intermédio da sua amiga Rita Ribeiro (a futura atriz), mostra algumas a uma pessoa com ligações ao Rádio Clube Português, que detinha a editora Imavox. “É aí que vai começar a minha carreira, em 1973, com o single ‘As Filhas da Tia Anica / Maria — Noite e Dia’, uma cantiga de sátira social com arranjos do José Calvário e que foi um sucesso.” Isso abriu caminho ao segundo single: “Em 74 saiu o ‘Bom Dia, Senhor Alberto! / Teu Corpo de Mulher’, e fiquei popular numa altura em que estou a acabar o curso dos liceus e decido ir para o Conservatório de Música. Não terminei, mas os três anos que passei por lá deram-me bases que depois me ajudaram a ser um profissional da música, um compositor (tenho centenas e centenas de canções compostas).”

Os dois singles conquistam-lhe espaço dentro da Imavox para poder pedir um primeiro álbum. Quando esse momento chegou, já uma revolução tinha mudado Portugal e o impacto dos primeiros grandes concertos de grupos estrangeiros deixara marcas. “Quando chega o momento do próximo disco, não estou virado para fazer canções parafolclóricas na linha do ‘Bom Dia, Senhor Alberto!’ ou das ‘Filhas da Tia Anica’. As canções que compõem o ‘Changri-Lá’, mesmo que algumas sejam simples baladas, em termos de arranjos vêm com uma estética que tinha influências da música que ouvia na altura, parte da qual se designava por rock sinfónico. Os músicos de que me rodeei eram muito próximos dessa onda, e o disco acaba por surgir com uma estética musical que me traz para um mundo completamente novo.”

Carlos Vidal convence a Imavox com maquetas das canções na guitarra e reúne músicos para as gravações. “O meu amigo Mané (que é um grande pianista e que depois virou o meu otorrinolaringologista, doutor João Olias) foi o meu braço direito que, em termos de produção, tornou o projeto viável. Os arranjos foram feitos por cada um dos músicos.” No disco tocam o baterista Necas (que é dos Ananga-Ranga e irá passar pelos Beatnicks e pela Banda Atlântida de Lena D’Água), o baixista angolano Rakar, Zé Alberto na harmónica, Fernando Correia Martins em guitarra e violino (que teria uma famosa carreira como maestro e orquestrador no teatro de revista, na televisão e na rádio e que faleceu em 2009), Rui Cardoso em saxofone e flauta (ligado ao Hot Clube de Portugal, onde lecionou, e ao teatro de revista, também falecido em 2009), o pianista Nuno Pimentel (que se tornaria técnico de som), que compôs e tocou o tema que fecha o disco, ‘Nascer’, e três participantes nos coros: Maria Luísa (“Era a minha namorada. Entrou no disco de uma maneira romântica, como musa inspiradora”, conta Carlos Vidal), Rui Pedroso e Rogério Barroso (“Isto tudo também acontece porque, quando levo o projeto para a Imavox, tenho lá como A&R o Rogério Barroso, um homem de janelas abertas para o mundo, que abraça o projeto”).

Seguiram-se três meses de trabalho, já em 1976. “Gravámos nuns estúdios em Campolide [Polysom, que nos anos 80 passarão a chamar-se Xangrilá], mas ensaiávamos em Carcavelos. Alguém tinha ali uma grande garagem.” O álbum, com uma duração de 38 minutos, começa com ‘Corpo de Mulher sem Mal (Changri-Lá)’ — seis minutos, a duração mais prog de todas —, uma canção de amor, tal como ‘Bárbara’ e ‘Mariazita’ (esta mais neorrealista). Há duas canções onde as crianças são protagonistas, ‘Luísa Vai para a Escola’ e ‘Era Uma Vez Uma Flor’; duas de inspiração cristã, ‘Venho por Cristo Dizer’ e ‘Emanuel’; e uma dedicada ao guru indiano Maharaj Ji, ‘O Meu Nome Somos Nós (Maharaj-Ji)’, “que se tornou um tema muito querido para muita gente e é o exemplo do rock mais agressivo, mais ‘ruidoso’. Mas para a mim a pérola é a ‘Luísa Vai para a Escola’, é a minha preferida”.

O guru Maharaj Ji, que na altura tinha 18 anos, era muito popular, contando com vários músicos entre os seus seguidores, entre os quais António José de Almeida, que irá ser baterista dos Tantra e dos Heróis do Mar. O mais entusiástico era Manuel Cardoso, líder dos Tantra, que lhe dedicou o segundo álbum da banda, “Holocausto”, de 1978 (um tema chama-se ‘Ji’). Seguia o Maharaj Ji? “Sim”, responde Carlos Vidal. “Na altura existiam vários movimentos de procura da verdade e de libertação interior, dando resposta a perguntas sobre o que é mais profundo em nós. Era um guru que vivia nos EUA, com técnicas de meditação próximas do ioga. Não fui aos EUA, mas ele veio a Portugal e assisti à conferência. Deixei-me tocar por esse movimento, por essa filosofia, e acabei por fazer uma canção dedicada a essa matéria.”

Atualmente com 58 anos, Maharaj Ji dá pelo nome de batismo Prem Rawat, é um orador motivacional e tem uma fundação dedicada a promover a paz no mundo. Continua com muitas ligações a Portugal e ainda no ano passado deu palestras em Cascais e Lisboa e lançou pela Casa das Letras o livro “Quando o Deserto Floresce e Outras Histórias”. “E eu não me apercebi... Que pena! Ainda há pouco tempo tive o gosto de assistir a conferências desse tipo, que me ajudam a perceber melhor certas questões da minha vida espiritual, o que me leva a dizer que sou agnóstico, sou uma pessoa que anda sempre à procura, mas sinto que me é útil ter uma fé.”

Outro elemento essencial nesta história é a capa do disco, na qual Carlos Vidal surge em tronco nu a emergir do mar. “O conceito da capa foi meu. Mergulhar nesse mar que é o interior de cada ser humano. Estar num ambiente de perfeita paz, harmonia, sossego. Estou mergulhado neste mar de algodão que pode ser ar ou água. A capa tenta trazer para quem a vê a ideia de que o disco contém uma música que vem de dentro.”

O lançamento do álbum gerou alguns concertos, nos quais participou pelo menos o teclista Mané. “Fiz as primeiras partes do Art Sullivan, que teve um sucesso estrondoso. Ele estava numa área mais ligeira, mais romântica”, recorda Carlos Vidal. Depois surge um hiato de um a dois anos, “durante o qual me voltei para mim e vivi um bocadinho fora do meio [do rock]. Não estabeleci aí os meus amigos. Não passei a frequentar os sítios onde essa malta estava, o que levou a que quando voltei a gravar estivesse afastado daquela estética do ‘Changri-Lá’. O ‘Changri-Lá’ é uma espécie de ilha rodeada de outras músicas por todos os lados, distintas daquela música sonhadora, com aquele espírito dos anos 70, que consegui que existisse nesse trabalho. Foi uma piscina onde mergulhei, fiquei molhado daquela água, mas depois saí, tomei um duche, limpei-me, vesti-me e nunca mais voltei a 100% a uma trajetória que me pudesse fazer vencer nesta linha”.

Carlos Vidal só regressa aos discos em 1978, na Orfeu, com o single ‘Em Mangas de Camisa / Laranja Quente’, produzido por Shegundo Galarza, que resulta da sua ida ao 1º Festival da Canção do Tâmega. Segue-se o Festival da Canção (totaliza quatro) e a entrada para a Polygram, em 1980, onde tem no ano seguinte o êxito ‘A Cantiga do Chouriço’ (“brincadeira satírica com características quase folclóricas”) e onde trabalha com António Avelar de Pinho. Juntos criam em 1982 a figura do Avô Cantigas para o segmento infantil no programa de TV “O Passeio dos Alegres”, de Júlio Isidro (uma forma de aproveitar o talento que Carlos Vidal demonstrara com as canções para “Palhaços à Solta”, o programa de Croquete & Batatinha). “O Avô Cantigas é uma figura abençoada, porque nasce num programa que faz dele uma superstar.”

“Há 35 anos que visto a pele de Avô Cantigas. Deixei completamente de gravar outras canções. Perdi a identidade enquanto músico pop, rock, mas houve algo que não perdi, a elasticidade de poder ser o músico que me apeteça ser. O Avô Cantigas tem músicas de rock bem pesado, mas é um rock para crianças, e tem baladas que considero pérolas e que me fazem sentir realizado. O Avô Cantigas é o todo, o mais importante da minha vida, mas é nesse meio, nesse mar, que sou o músico que muito bem quero e me apetece.”