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Gisela João: “O meu trabalho é partilha”

rita carmo

A fadista de Barcelos regressa aos Coliseus de Porto e Lisboa e leva consigo “Nua”, segundo álbum editado em novembro passado

Pouco mais de dois anos após a estreia nas salas nobres dos Coliseus, Gisela João regressa para apresentar o segundo álbum, “Nua”, ao público de Porto (na última sexta-feira) e Lisboa (7 de abril, 21h30). Os espetáculos voltam a contar com a colaboração do encenador André e. Teodósio, do Teatro Praga, e estão preparadas algumas surpresas. A fadista de Barcelos não levantou a ponta do véu ao Expresso mas garante: “Não esperem ouvir-me cantar uma coisa que não me diz nada ou que me diz pouco”.

Passados dois anos da sua primeira vez nos Coliseus, que significado ganharam estas salas? Continuam a ser míticas ou desapareceu alguma 
da magia?
Têm um peso grande... Não é ainda maior do que era, mas é grande. Para mim, todos os concertos e todos os palcos têm muita importância, trato todos de igual forma, porque acho que assim é que tem de ser, mas gosto de olhar para os Coliseus como quando comemos uma fatia de bolo e deixamos para o fim a cerejinha que está ali no canto... Ou como quando guardamos para o fim aquela batata frita que está bem mais tostadinha.

O aproximar dos concertos deixa-a ansiosa? Mais entusiasmada ou mais nervosa?
É um misto das duas coisas. Deixa-me muito assustada... Hoje fui a um programa de rádio e quando ouvi a outra pessoa dizer “daqui a 15 dias, no Coliseu do Porto” pensei “15 dias... 15 dias passa a correr”. 15 dias é quase amanhã. Fico sem respirar.

Estes concertos estão a ser preparados há algum tempo. Está tudo a ficar como tinha imaginado?
Vai-se construindo, sim.

Volta a trabalhar com André e. Teodósio, do Teatro Praga. Como se iniciou esta parceria?
Há uns anos, não nos conhecíamos ainda, o André entrou em contacto comigo e convidou-me para fazer parte de um espetáculo do Teatro Praga. Não foi possível porque não consegui coordenar a agenda, mas ficámos ligados desde então. Depois, quando fiz os primeiros Coliseus, lembrei-me dele. Pensei: “Espera lá, gosto tanto do trabalho deles, das coisas que ele faz, do encaixe que tenho com ele” e então convidei-o para trabalhar comigo. Ele ficou muito contente, eu também fiquei toda contente, e, a meu ver, correu muito bem. Como nos entendemos mesmo muito bem — um diz mata, o outro diz esfola — decidi chamar por ele de novo. Cresço muito com ele. Acrescenta-me muito, torna-me uma pessoa melhor e as minhas ideias melhores. Tem muitas ideias também... E é como eu dizia no outro dia, nós conseguimos estar a discutir e, de repente, estamos os dois a pôr makeup. Tudo isso faz parte da construção daquilo que conseguimos fazer juntos. De certa forma, é muito reconfortante encontrar alguém que vê a coisa da mesma forma que eu, que tem o mesmo entendimento das situações, que olha para elas da mesma maneira. Não tem preço, isso, para mim.

Estreou alguns temas que depois incluiria neste álbum, “Nua”, 
nos Coliseus em 2015…
Acidentalmente, o que é muito engraçado.

Essas canções ganharam outra vida desde então?
Sim, se calhar um pouquinho. Até porque, quando fiz os primeiros Coliseus, a minha ideia era mostrar um bocado o meu percurso. Então, apresentei os primeiros fados que aprendi, os fados que cantava quando era miúda, os fados de que gostava mais, sem pensar no que ia gravar. Ainda não estava a alinhar essas ideias, na altura. Depois, quando comecei a juntar a lista de músicas, de facto houve um momento em que pensei “espera lá, mas isto foi do alinhamento do Coliseu”. Já estava em mim a vontade de cantar essas músicas. E é claro que depois, com os arranjos que foram feitos, com letras novas ou letras trocadas de uma música para outra, e o facto de as cantar agora muitas vezes, ganharam outra dimensão.

Há algum concerto a que tenha assistido num Coliseu que tenha conquistado um lugar especial na sua memória?
Tenho alguns... o da Maria Bethânia. E não foi há muito tempo, por acaso.

Tem algum ritual que não dispensa antes de entrar em palco?
Tento criar o máximo de bom ambiente e boa energia na equipa toda. 
É imprescindível para mim, isso.

Basta abrir o seu perfil no Facebook para perceber que gosta de cultivar uma relação de proximidade grande com os fãs. As pessoas respeitam 
os limites quando a reconhecem na rua?
Respeitam. Respeitam muito a linha que não devem passar, a linha 
da privacidade. Sou-lhes muito agradecida por isso.

Se não fosse artista e não tivesse um trabalho tão público, imagina-se 
a utilizar as redes sociais com tanta frequência?
Tem mais que ver com o meu trabalho, porque quem está na minha página pessoal repara que não sou assim tão ativa. Sou muito mais ativa no lado profissional porque penso que as pessoas merecem e isso faz parte do meu trabalho. O meu trabalho é partilha e isso é essencial.

Quando lê elogios no “New York Times”, por exemplo, e se referem a si como Ms. João... É fácil identificar-se com o retrato que ali vê ou é como se estivesse a ler sobre outra pessoa?
É um bocado como se estivesse a ler sobre outra pessoa... Seja no “New York Times”, no Expresso, no “Público”, na “Visão”, na “Sábado”, no “Diário de Notícias”, no “Jornal de Notícias”. Todos têm um peso muito importante e olho para todos da mesma forma.

Quando volta das viagens e concertos no estrangeiro, os seus gatos colocam-na de castigo?
A “Mimi” castiga-me. Percebe que estou a chamar por ela, caminha em direção a mim e para perto, mas sem me dar hipótese de lhe tocar, e fica a olhar para mim e a lamber-se, naquela de “querias, não querias?”.

Recitou textos com o Samuel Úria em Paredes de Coura, cantou António Variações com os Linda Martini, leu excertos do livro de Luaty Beirão em público... Há alguma coisa que gostasse muito de experimentar mas ainda ninguém a convidou ou não teve tempo para fazer?
Há algumas, mas aquela por que anseio mais, desde sempre, é trabalhar com crianças. Gostava muito de conversar com crianças, fazê-las sonhar, fazê-las acreditar que é possível, falar-lhes sobre poesia, pô-las a ouvir música, mostrar-lhes muitos géneros diferentes. Fazê-las sonhar, no fundo. Acho que são coisas que nos fazem acreditar que é possível, que podem ser e fazer o que quiserem.

Calculo que ainda seja cedo para começar a pensar num novo álbum…
Porra!

Mas vai apontando ideias de coisas que gostaria de fazer no futuro 
ou é mais do género “quando chegar o momento, logo se vê”?
Vou apontando uma coisinha ou outra. Faço isso naturalmente, inconscientemente até. “Olha, deixa-me anotar isto de que agora me lembrei”... Mas deixo ficar ali. Só depois é que, quando chega a altura, gosto de pensar “agora sim, vou focar-me”. E, então, lembro-me de que tenho aquelas coisinhas ali apontadas.