Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Cláudio Torres: “Foi na prisão que recebi o primeiro abraço do meu pai”

antónio pedro ferreira

O seu nome já não se distingue do de Mértola e de uma profissão por sinal em declínio: a arqueologia. E a ambas chegou para fazer uma revolução. Não seria a primeira e talvez não seja a última. Porque nunca se sabe se uma pedra é apenas isso ou algo mais

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

fotos

Fotojornalista

A arqueologia é suja, suja as mãos. Cláudio Torres não se cansa de o repetir aos alunos e profissionais que, semana após semana, o visitam no Campo Arqueológico de Mértola, o lugar onde começou a sujar as suas há já quase 40 anos. Não foi diferente quando o visitámos. Chegámos a meio de uma “preleção” – a palavra é sua – na antiga mesquita, no exato momento em que explicava que um cântaro mais velho qualifica a água de forma diferente do que um novo e em que exigia atenção para não se esmagar os restos de argamassa, porque até no mais pequeno deles podia estar guardado o segredo de uma escavação. Para quem literalmente começou apanhando cacos do chão e acabou por dele extrair um bairro almóada do século XII, um batistério do século VI (dos mais importantes do Mediterrâneo, em 2016 distinguido com o prémio do Vaticano), um criptopórtico e um palácio episcopal, estas não passam de recomendações básicas.

Caminhar por Mértola é também descobrir sinais do próprio Cláudio Torres, hoje com 78 anos: aqui o restaurante fundado pelo irmão, ali a casa da filha Nádia, além a mulher Manuela a subir a ruazinha ao nosso encontro. Mas apesar de o arqueólogo parecer aqui ter nascido, esta vila, hoje candidata a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, é na verdade a sua última estação. O lugar onde “pousou” depois de anos de exílio em locais tão remotos como Rabat e Bucareste. Foi esta a história que nos contou ao longo de um dia inteiro de conversa, entre cacos, restos, pedras, cerâmicas, livros e tecidos, coisas únicas no mundo aparecidas aqui pelas suas mãos.

Disse uma vez que a arqueologia é uma profissão moribunda. Porquê?
Porque é uma atividade de longo termo, de resultados nunca imediatos. Quanto mais se escava, mais as dúvidas aumentam. Os textos escritos dão-nos informações das elites, de quem sabia ler e escrever. E a arqueologia fala-nos de zonas da sociedade ainda desconhecidas.

Zonas intocadas pela escrita?
Mundos incógnitos nos documentos, em que vigora a passagem de boca em boca, de pai para filho, e para os quais não temos referências. Dou-lhe um exemplo: ao escavar uma casa da época almóada chega-se ao pátio central, às alcovas, às áreas da cozinha ou da latrina. E de repente surge a fossa sética, que está cheia. No início encontrámos dezenas dessas fossas e apanhámos milhões de sementes, grainhas de uva, caroços de azeitona... Ora, as grainhas dizem-nos que espécies de uvas havia na zona e que vinhos se faziam. E os ossos alimentares dizem-nos que espécies de peixes eram consumidos.

É detectivesco, o trabalho do arqueólogo.
E tudo só para saber o que se pescava aqui no rio [Guadiana]! A sopa de cação é um prato típico do Alentejo, mas porquê? Porque neste rio havia um grande peixe, o esturjão, que desapareceu. E o cação, um peixe sem espinhas e menos nobre, substituiu-o.

O que se faz quando a escavação contraria o documento escrito?
Contraria sempre. Há o mundo das elites que sabem escrever e o outro, o subterrâneo. E se numa casa senhorial existe a documentação dos senhores do sobrado, a arqueologia vai dar-nos informação sobre a cozinha, as lojas, o mundo cá de baixo. A criadagem de um palacete não tem nada a ver com os seus senhores.

Fala de sementes, de fundamentos. Quais são os seus? O que o trouxe para aqui?
Vim para Mértola trazido pelo então presidente da Câmara, o Serrão Martins, que era meu aluno. Ambos pertencíamos ao Movimento de Esquerda Socialista [MES] e tínhamos uma identidade comum. O meu trabalho ia ser o levantamento dos arquivos históricos da vila, mas o projeto era fazer a revolução, contribuir para o desenvolvimento da região através da cultura.

E como é que isso se transformou num campo arqueológico?
Por mero acaso. Uma das minhas primeiras visitas a Mértola foi com o [historiador António] Borges Coelho, com quem coordenava um centro de apoio regional e dava aulas em Faro. Íamos no carrito dele, numa viagem venturosa para o Algarve, sem dinheiro – recebíamos uma miséria como assistentes na faculdade –, e parávamos aqui. Foi o Borges Coelho que lá em cima, no castelo, começou a apanhar cacos e a metê-los num saco. Logo nessa primeira viagem juntou uma série de fragmentos cerâmicos que, afinal, era um conjunto de cerâmicas vidradas da época islâmica da máxima importância. Isso abriu-nos a perspetiva de vir aqui trabalhar. Era a primavera de 1976 e no outono já estávamos a escavar.

Como era Mértola nessa altura?
Era um buraco, longe de tudo. Um aglomerado denso e cheio como um ovo. A primeira coisa que chocava era algo cuja memória só recuperei em Portugal depois do exílio: o cheiro a miséria, que você não sabe o que é.

O que é?
É um cheiro a merda misturada com trapos velhos e coisas por lavar. É o indefinível.

Quem cá vivia tinha alguma ideia do passado que a vila escondia?
Não faziam ideia. O castelo era uma ruína onde a criançada ia brincar, onde se ia comer a galinha roubada, onde se dava o primeiro beijo, onde se tinha a primeira experiência sexual. Se alguém lhe viesse tocar, as pessoas reclamavam. Por isso, assumimos que o castelo seria a primeira coisa onde se devia mexer, porque é como mexer na alma.

Começaram, então, por aí.
Era o que estava mais disponível e, ao mesmo tempo, o que continha a identidade da população. Quando começámos a vir para aqui com bandos de jovens, naqueles verões de um calor insuportável, os habitantes ficavam espantadíssimos. Não compreendiam que estivéssemos cá em vez de irmos para a praia.

Quando se dá conta da importância do que estava cá enterrado?
A escavação foi sempre uma atividade secundarizada por outras. Na nossa equipa havia 15 ou 20 alunos meus, os melhores, que vinham especializar-se, mas não vinham necessariamente escavar. A primeira publicação do Campo Arqueológico foi a do levantamento da tecelagem tradicional. Depois veio a da estatuária religiosa, que estava a ser roubada e vendida.

Havia todo um património a devolver às pessoas.
E havia que evitar a destruição dos arquivos municipais do Baixo Alentejo. A maioria estava em buracos indescritíveis, para não falar no de Mértola, que estava em parte petrificado e só conseguimos salvar metade. Havia documentação do século XVI, livros do século XV, quase todos podres. Em Messejana encontrámos o arquivo ainda a fumegar – e o padre felicíssimo por ter matado os bichos todos!

O que o fez ficar cá?
Era para onde queria vir. Foi um processo sistemático, mas estou cá em permanência desde 1986. Tinha entrado em litígio com a faculdade [de Letras da Universidade de Lisboa], porque o Governo, que virara à direita, estava a reintegrar os bonzos que nós tínhamos expulsado dez anos antes. Aquela corja toda de que já nem sei os nomes.

Sentiu-se a mais?
Estava a mais. Como não fiz carreira, eles eram os meus chefes. E o papel de assistente era dar as aulas dos catedráticos. Ora, isso eu nunca faria na vida.

Intercâmbio. O Museu de Arte Islâmica de Mértola é um dos mais importantes do mundo e empresta peças ao Louvre e a outros museus

Intercâmbio. O Museu de Arte Islâmica de Mértola é um dos mais importantes do mundo e empresta peças ao Louvre e a outros museus

antónio pedro ferreira

Ao contrário de Mértola, a universidade tornou-se chão estéril.
Era chão repisado, e eu não tinha compromissos. Mas, repare, há muito que Mértola estava na minha vida. Já tinha uma estrutura, eu só tinha de a continuar. E, como já disse, não era só a escavação: era todo um projeto de recuperação, de devolução destes espaços à comunidade.

E de si, o que recuperou?
Depois de anos a saltitar aos baldões, encontrei um poiso. Um sítio sólido onde pôr os pés. A pouco e pouco, as minhas filhas também começaram a participar nas escavações. Mas só consegui arrastar a minha mulher depois de ela se reformar e criando uma linha de investigação específica, em línguas de fronteira. Tudo isso foram mecanismos, manigâncias, formas de juntar aqui toda a gente. Depois, acordamos e já somos velhotes.

Se me permite, vou descrevê-lo: Cláudio, historiador, filho de Flausino, historiador, neto de Flausino, militar monárquico... Que linhagem é esta?
É uma boa pergunta. Porque venho de vários locais. O meu avô paterno, capitão monárquico, era um personagem de Tondela, o último filho de 12 irmãos, condenado a ir para padre. Claro que fugiu de casa, e aí começou a sua história triste... ou não. Veio para Lisboa, conduziu elétricos, sobreviveu fazendo as mais variadas coisas, até entrar para a tropa e ir para África como primeiro-oficial. Quando regressou, meteu-se em aventuras revoltosas nos tempos da República, casou-se com uma filha de militares de Elvas, teve dois filhos. Ambos formaram-se em Coimbra. O meu tio, médico, morreu cedo num desastre e o meu pai, historiador, foi um dos fundadores do Partido Comunista, escreveu livros, foi professor...

O que herdou dele?
Tudo. Até a militância política, sobre a qual nunca chegámos a falar. Veio de Lisboa para Tondela, perseguido, para dar aulas num colégio onde recebia pouco, mas os filhos dos professores não pagavam – e por isso eu estudei lá. A minha infância foi na miséria, porque tudo o que ele ganhava dava-o ao partido. Não havia dinheiro para comprar sapatos, ia para o colégio descalço. De inverno usava chancas, sabe o que é?, tamancos de madeira. A nossa casa ficava a dois quilómetros da vila, e havia que caminhar.

Mas o que herdou concretamente?
Herdei essa austeridade que foi capital na minha formação. Andarmos, eu e a minha irmã, sempre de tamancos. Éramos os filhos do comunista, diferentes dos outros, temidos por um lado e respeitados por outro. No colégio, ia tudo para a missa e eu ficava cá fora no terreiro à espera.

Não tinha curiosidade?
Nem se punha essa hipótese. Costumava ir à missa com o meu avô aos domingos de manhã – à das sete, porque a das onze era a chique –, ele entrava na igreja e eu ficava cá fora. A essa hora não havia ninguém, por isso a missa era composta pelo meu avô, o padre e o cão. Entre o avô monárquico e o filho comunista havia muito respeito. Ao casarão antigo chegavam os jornais “Debate” e “República”. Cada um lia o seu, por vezes debaixo do mesmo castanheiro.

Consta que o filho do historiador comunista chumbou no 5º ano. Sentiu-se mal?
Foi terrível. Entrei em litígio com o professor de História. Estávamos a estudar o princípio da não contradição, e ao chegar a casa falei disso ao meu pai. Como sempre, ele apenas apontou para a estante, onde encontrei um livro de Engels que no dia seguinte levei para a escola. E o professor gritou: “Mas isso é comunismo!” Sabia eu lá o que isso era. Como perdi o ano, achei que devia trabalhar. Um amigo do meu pai arranjou-me trabalho numa fábrica de cerâmica de Aveiro, a Aleluia, como desenhador, a fazer Santo Antónios. Tinha 17 anos.

Sempre gostou de desenhar?
Sempre. Vem da minha mãe, que desenhava muito bem. Fiz isso durante um ano, enquanto tentava acabar o 7º ano. Mas não consegui, porque entrei numa célula do PC. Vieram buscar-me à fábrica e disseram: “Tu és de boa cepa.”

Uma alusão ao seu pai que na altura não percebeu.
Não percebi, não. Não sabia rigorosamente nada da vida política dele.

Quando é que conversou pela primeira vez com o seu pai sobre o PC?
Na prisão. E não foi só isso. Foi na prisão que recebi o primeiro abraço do meu pai.

Na vida?
Na vida. Nunca me tinha dado um.

Foi preso no Porto?
Estudava em Belas-Artes e foram buscar-me a casa. Depois, como não havia lugar em Caxias ou em Peniche, fomos para Paços de Ferreira, que era uma prisão gigantesca de presos comuns. Esvaziaram uma ala inteira para lá ficarmos o David e eu. O David era o meu companheiro de militância. A partir de certa altura, começaram a dar-nos só sopa e resolvemos entrar em greve de fome. Um médico até tentou meter-nos uma sonda com leite pelo nariz. Mas resistimos e acabou bem, o segundo prato foi devolvido aos três mil presos.

Já namorava com a Manuela?
Já estávamos a namorar, conhecemo-nos na faculdade. E ela também foi presa, embora não pertencesse ao partido. Estive preso sete meses, três dos quais na PIDE do Porto. Puseram-me 19 dias em estátua.

O António Borges Coelho disse que foi das piores coisas que lhe aconteceram na prisão.
É estar em pé sem dormir, dia e noite, com os pides a mudarem de quatro em quatro horas. Uma pessoa não aguenta, cai, obrigam-na a levantar-se. No início estamos calados, mas depois começamos a falar. E assim percebi quem eram esses agentes. Conheci 60, mais de metade ex-seminarista, gente pobre que tinha ido para a religião, para a tropa e depois fora recrutada. Apanhei de tudo, até tipos que mal nos apanhavam a dormir vinham tocar-nos naquelas partes.

E quando saiu tinha a guerra no horizonte.
Logo que saí fui fazer a inspeção a Coimbra. Vir alguém direto da prisão foi um acontecimento anómalo no quartel, que fez alas para me ver. Eu era um puto de 20 anos, e a inspeção foi um espetáculo, cheia de médicos para me observar.

O suficiente para fugir a sete pés? Muitas pessoas fugiram nessa altura, mas poucas terão feito o seu percurso.
Isso é fácil de explicar. Quando saí da prisão, as ordens do PC eram de ir para a tropa, porque só dentro da tropa se podia mudar alguma coisa. Mas uns meses depois dois jovens caíram em Angola, e um deles, que era nosso amigo, foi morto pelas costas. Então o nosso grupo decidiu fugir.

Embarcou para sul. Porquê?
Ia para onde, para Espanha? À França chegava-se atravessando a Espanha e era muito caro. O meu pai ainda tentou arranjar um cargueiro para nos esconder, mas não conseguiu. Então ajudou-nos a comprar um barquito a remos e a recauchutá-lo. Tinha cinco metros, para sete pessoas. Acrescentámos-lhe um motor de 35 cavalos.

Foram até Rabat, e tenho ideia de que a viagem não foi canja.
Foi uma viagem terrível, feita em várias etapas. Primeiro do Porto a Cascais, um recorde para aquele motor. Depois, Sines, Arrifana e o mar alto, insuportável. Um cargueiro grego socorreu-nos e deu-nos leite, água, bolachas e gasolina para chegar a Marrocos. Mas as vagas pioravam, não conseguíamos avançar, e a gasolina acabou-se. Vimos ao longe um petroleiro gigantesco — lembro-me do drama de sermos vistos por ele. Resgataram-nos e levaram-nos até Gibraltar. A polícia inglesa veio interrogar-nos e deu-nos 24 horas para nos irmos embora. Nem sei bem como, mas conseguimos arranjar o barco e pô-lo de novo a flutuar. Entrámos em Tânger perseguidos por uma vedeta espanhola e pedimos logo asilo político. Olharam-nos como se fôssemos loucos: “O que é isso?”

Qual é a recordação mais forte?
No final, estivemos quase a ir ao fundo. E o Hermínio, um dos nossos companheiros, tinha perdido os sentidos. Havia que levantar-lhe a cabeça para não morrer afogado, pois o barco estava cheio de água. A Manuela ia grávida, enfraquecida. E havia a sensação de que aquilo não ia durar muito mais, que eram mais umas horas de vida.

Pensou que ia morrer?
Pensei que era o fim, embora a gente tenha sempre esperança. A luta era despejar água para fora, para não morrer.

No tempo que passou em Rabat, o que aprendeu sobre a cultura árabe?
Quase nada. Vivíamos no desespero do dia a dia e só pensávamos em aguentar. Depois de chegarmos veio um período duríssimo, em que com sorte partilhávamos uma lata de sardinhas. A Manuela já se mexia mal, por causa do barrigão. Íamos para o mercado de Rabat, ela com aquela fome das grávidas, e davam-lhe sempre alguma coisa. Sabe quem? Os marroquinos mais pobres, os mais miseráveis. Nunca recebeu nada de um europeu. E nós, os homens, andávamos à cata de beatas, que disputávamos com os miúdos da rua. Mais tarde, a situação começou a melhorar. Chegámos a concorrer para o Ministério do Urbanismo como desenhadores, e a Manuela e eu fomos escolhidos entre 40 candidatos. Mas decidimos ir embora.

Para um sítio nada óbvio. Porquê Bucareste?
Na altura, o Amílcar Cabral estava em Rabat e conseguiu pôr-nos de novo em contacto com o PC. E fomos chamados a Praga, eu, a Manuela e a Nádia [a filha mais velha, nascida em Rabat]. Lá propuseram-nos ir para Berlim. Como torci o nariz, sugeriram Bucareste. Chegámos com muita curiosidade a uma cidade que era um fim de mundo, onde acabámos por ficar 12 anos, boa parte deles na Rádio, a emitir para as colónias e para o Brasil. Ao fim de meses já falávamos o romeno, hoje a minha segunda língua. A Manuela meteu-se logo nas linguísticas, que era a área dela.

E o que aconteceu às Belas-Artes?
Na Roménia imperava o realismo socialista mais sinistro, e eu aterrei cheio de vícios da arte moderna... Tinha a mania de que era escultor, até tinha exposto em Rabat. Paguei o nascimento da Nádia com a venda de quatro ou cinco peças em ferro soldado.

Que fim de mundo era esse?
Cheguei em 1961 a um país que vinha da miséria absoluta. Com aldeias a viverem na fome mais total, que eram restos de zonas feudais onde ainda havia palácios com o pavimento forrado a moedas de ouro. As casas eram feitas debaixo da terra, para aguentarem o frio, e no inverno ficavam cobertas pela neve. Daí vem o ‘imposto de fumo’, que se pagava aos senhores, em alusão às chaminés, que era a única coisa que se via.

Mesmo assim, construiu lá uma vida.
Foi lá que nasceu a minha filha Rossana. Meti-me a sério na Rádio: três emissões diárias para a África portuguesa, o Brasil e Portugal. Durante anos fiz os artigos políticos, tomando conhecimento do que cá se passava através da imprensa e da escuta de outras rádios. Mas em 1968, quando foi a invasão de Praga, saí do PC. E isso deu-nos a possibilidade de iniciar outras coisas. Fui estudar História da Arte para o Instituto de Arte Bizantina, com professores muito bons que eram segregados pelo regime. E comecei a investigar aquele mundo misterioso ligado à Igreja Ortodoxa.

Origens Foi no castelo que, há 40 anos, Cláudio Torres começou as suas escavações

Origens Foi no castelo que, há 40 anos, Cláudio Torres começou as suas escavações

antónio pedro ferreira

Não é uma escolha estranha para alguém que não pisava uma igreja?
Sabe, fui muito amigo do metropolita, uma espécie de Papa, um velhinho fabuloso que nos levou a visitar aqueles mosteiros do interior, do século XV e XVI. Não sendo perseguidas, estas pessoas eram ignoradas e muito pobres. A sua vida era próxima daquilo que apregoavam. Depois interessei-me pela arquitetura em madeira da Roménia e de Vukovina, no sul da Polónia. E estava a fazer o doutoramento em Paris quando chegou o 25 de Abril. Apanhei o primeiro avião que entrou em Portugal, onde também vinham o José Mário Branco e o Álvaro Cunhal.

Conte-me melhor porque saiu do PC.
Era inadmissível que o meu partido apoiasse a invasão de Praga. Essa invasão foi o canto do cisne daqueles regimes todos, que se transformam numa opressão sem precedentes. Sabe que em Praga, onde o meu pai estava a dar aulas de História na universidade, havia alunos que vinham tocar-lhe, diziam que nunca tinham tocado num português. Era gente culta que conhecia a história da nossa expansão e que depois olhava para o mapa e via uma merdinha, um país tão pequenino. Para eles, era um feito admirável. A partir de 68, isto também me aconteceu na Roménia. Antes não, porque antes disso eu era brasileiro chamava-me José Ramos, e a Manuela era a Teresa.

Teresa e José Ramos. Era assim que as vossas filhas vos chamavam?
Claro! Nem podia ser de outra maneira. A questão de voltarmos a ser portugueses tem a ver com o fim de uma etapa no PC, mas também com a universidade, porque nenhum de nós queria ficar com nomes falsos nos diplomas. Mas mudar de nome implica processos jurídicos muito complicados, além de envolver igualmente os nomes dos filhos.

Como explicou às suas filhas que o pai, afinal, era Cláudio e não José?
Foi terrível. Mas, para elas, nós éramos tão esquisitos que já não fazia grande diferença. Não éramos bem dali, éramos de outro lado. Em casa, elas falavam romeno e protestavam quando respondíamos em português.

Desde que começámos esta conversa que fala sempre em “nós”...
Era mesmo “nós”. Fomos presos juntos. A prisão foi terrível, porque não estávamos casados e era muito difícil comunicar. Depois queríamos casar para poder fugir. Fui de comboio a Mirandela pedir a Manuela em casamento, e o pai, um bancário muito sério, impenetrável, não aprovou, não cedeu. Casámos à mesma no Porto, e ao casamento só veio a mãe.

O exílio une?
Nunca pensei nisso, pois sempre estivemos juntos. É verdade que estar juntos todo o tempo pode ser um bocado violento. Mas já lá vão 56 anos – estamos velhotes. Só estivemos separados uma vez, quando a Manuela veio para Portugal e eu fiquei mais um ano em Bucareste e em Paris. Ao chegar cá, ela esteve presa um mês e meio. Não há dúvida de que a nossa coragem passa pelas mulheres, elas é que vão à frente.

Na vinda para Mértola, porém, aconteceu o contrário. O que sabemos hoje da civilização árabe graças ao que descobriu cá?
Sabemos mais. Ao fim de 30 anos descobrimos que a ideia de que a islamização da península decorreu de uma invasão é cada vez mais uma mitologia. Pode até ter havido várias invasões, mas o que islamizou a Península Ibérica foi a grande conversão do cristianismo não católico, que era dominante. É isso que nos dizem as lápides encontradas neste cemitério, de pessoas ligadas ao mundo monofisita, não católico, precisamente a minoria que se converte ao Islão. Outra grande descoberta é o povoamento: graças à arqueologia, hoje sabemos que o povoamento do Sul da Península Ibérica é o mesmo que o do Norte de África. São as mesmas pessoas, a mesma civilização, a mesma língua.

Isso contraria a noção, em voga no Estado Novo, de o mouro ser o outro.
É o que está ainda presente em todos os manuais! Continua a ser dito que os árabes invadiram a península.

“Os mouros serviam para que os heróis pudessem ser heróis.” A frase é sua.
O fenómeno da reconquista é o fenómeno criador ibérico. Defende que os heróis cristãos vieram do Norte expulsar os mouros pela espada. Criou-se uma mitologia que diz: os que cá estavam eram cristãos, vieram os árabes, invadiram tudo e implantaram o Islão. Não é nada demais, a gente também vive de mitologias.

E o que pensa da relação que a Europa tem hoje com o Islão?
A Europa colonizou o Norte de África. E para isso, em muitos casos, apagou a história do Islão. Repare que as camadas histórico-arqueológicas do Islão estão por cima do romano. E se em todo o Magrebe encontramos vestígios romanos fabulosos, isso quer dizer que as camadas da época islâmica foram destruídas. Não é por acaso que hoje não há um único museu de arte islâmica em todo o Magrebe. Este centro arqueológico trabalha com várias universidades norte-africanas. E quando os jovens magrebinos querem estudar o Islão, têm de vir aqui, a este museu.

Houve um apagamento do passado?
Arabização implica islamização. E, nesse processo, tudo ficou misturado com a religião. É um erro que estão a pagar caro, porque se eles quiserem estudar o seu país sem ser através do fenómeno religioso cada vez mais vão necessitar de nós. Na minha opinião, a nossa arma fundamental contra o Daesh é justamente este relacionamento com o passado. O Daesh vem com a ignorância, é daí que extrai a sua força. Quem quiser resistir não tem como perceber que aquilo não é o Islão. A única arma é que o seu próprio povo se lhes oponha.

Após todos estes anos a estudá-lo, admira o Islão?
Em termos civilizacionais, é impossível escapar à importância do Islão medieval. Que, ao contrário do que se diz nos livros, não veio através dos militares, mas chegou pela navegação, pelo mar, pelo comércio, como sempre foi. Tudo o que temos aqui são ligações ao Oriente, à Pérsia, à China. E tudo isso chega na época islâmica. Nessa altura entra mais de metade do que hoje são os nossos alimentos, vegetais como as beringelas ou frutas como as laranjas. Essa entrada do Oriente é o que explica e justifica as civilizações do Mediterrâneo.

E não podemos compreender Portugal sem compreender isto.
Claro que não. Por isso, não se percebe que o poder político queira promover Mértola como a terra da caça – não é pela caça que é candidata a Património Mundial da Humanidade! É por ser o elo de ligação a um mundo mediterrânico que temos urgentemente de salvar. Do Norte nunca veio nada de especial. Agora é de onde vêm as ordens, pois são eles que mandam. Tudo o resto, toda a história, a lógica das coisas grandes e pequenas veio do Sul. Os países do Norte não nos suportam. Não suportam a nossa conceção do tempo, sem ser para trabalho útil. Nós vivemos o tempo de outra maneira. Vivemos a casa de outra maneira.

Pensa que eles invejam isso?
Com certeza. E invejam a mulher que trata desse espaço. Ela é que manda na casa, que comanda, repara e organiza.

Na sua também?
A gente resiste como pode. Mas ela é que manda.

Ao longo do dia, ouvi-o várias vezes dizer a palavra “velhote”. É assim que se sente?
Cada vez mais. Trôpego, velhote e com o chamado peso da história, que dói nos calos.

Da sua história?
E da que nos rodeia, do ar, das pedras, da areia... Tudo isso pesa. Mas é um peso agradável. Ficamos com a sensação de que controlamos melhor as coisas. Deixamos de sentir as frustrações de não ter feito ou de ter feito mal.

É um “já está”?
É, digamos, um silêncio sábio que acaba por envolver tudo. É ter conquistado o silêncio.