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O crepúsculo de um autor cai no Rivoli em “Noite de Outono”

Jose Caldeira

Os dias de primavera chegaram mas no Teatro Rivoli, no Porto, há uma longa e introspetiva “Noite de Outono”, que cavalga entre memórias, pesadelos e um desencanto que se assume como protagonista

André Manuel Correia

Um escritório desorganizado, com livros empilhados por toda a parte e no qual a solidão é companheira inevitável. Uma antiga máquina de escrever a aguardar um impulso criativo. Fotografias por toda a parte, como fragmentos de um quotidiano vetusto e despojado de cor. Um autor, agastado e apartado de tudo, conversa com uma jovem mulher, testemunha inesperada da redoma e do buraco negro em que se encontra. Dialogam. Deambulam mentalmente, como se as palavras fossem o único refúgio nesta “Noite de Outono”. O espetáculo é a mais recente criação do dramaturgo e encenador Luís Mestre e estreia esta quinta-feira no Teatro Municipal Rivoli, no Porto.

A primavera chegou, os dias estão mais longos, mas no Rivoli abate-se, até sábado, uma longa e melancólica noite outonal. Assiste-se ao crepúsculo de um autor, nesta que é a primeira parte da “Tetralogia das Estações”. A peça conduz-nos até ao reduto de um homem do teatro – interpretado por António Durães –, desiludido com um meio artístico no qual parece já não caber. Os críticos são “gentalha”, diz, num discurso entrecortado com momentos de perturbação e desfasamento.

Tudo parece distante daquele escritório – reflexo de uma profunda desarrumação psíquica – onde duas pessoas tão distintas se encontram e se conhecem, numa tentativa de expurgarem as suas próprias perdições pessoais. “Conta-me qualquer coisa verdadeira sobre ti”, pede o autor àquela jovem mulher, faminta mas com densas camadas psicológicas, personificada em palco pela atriz Ana Moreira. “Eu já não sinto nada. Nada. Ninguém”, responde-lhe.

Este é o mote para uma viagem até universos interiores ofuscados por uma névoa obscura, pontuados por buracos negros e sonhos tão sombrios como a rotina que os envolve. A “Noite de Outono” cavalga enquanto as duas personagens divagam mentalmente, num tom confessional, perdidas algures num passado em que pensaram estar no trilho correto.

Jose Caldeira

Uma “peça-posfácio”

No final de mais um dos ensaios, o encenador Luís Mestre explica que esta é como uma “peça-posfácio”, na qual assistimos à decadência de um autor de teatro, impotente enquanto vê cair as últimas folhas da sua árvore criativa. “Este homem vê-se encurralado depois de uma vida artística. Não o contratam ou possivelmente a última encenação dele não correu muito bem”, desvenda Luís, diretor artístico do Teatro Nova Europa.

Numa diegese onde impera um realismo cru e pungente, existe também no espetáculo um paralelismo com a realidade virtual, na qual a sociedade contemporânea habita quase permanentemente. “No mundo de hoje, cada vez mais as pessoas precisam de validação e de ser testemunhadas. Quando as pessoas colocam fotografias nas redes sociais, estão à espera que alguém testemunhe isso. Se isso não acontecer, é como se não tivesse existido […] Este homem precisa que alguém testemunhe a fase final da sua vida”, frisa o encenador.

Começar pelo outono foi uma escolha fácil, conta Luís Mestre. “De todas as estações, a que me agrada mais é o outono. Tem a ver com uma fase complicada da vida, em que as pessoas estão em perda e numa fase descendente”, refere. “Lembrei-me que esta personagem [interpretada por António Durães] estaria nessa fase. Tem a ver com o término da vida e com a perda de faculdades criativas, físicas e mentais”, acrescenta o encenador e dramaturgo, admitindo que em 2019 gostaria de estrear a “Noite de Primavera”, espetáculo subsequente desta tetralogia. “Não terá qualquer seguimento, mas quando penso na primavera penso em jovens”, adianta o responsável artístico.

Também à conversa com a comunicação social, o ator António Durães admite várias semelhanças e características partilhadas com a personagem a que dá corpo. “É, na verdade, aquilo que eu sou nesta altura”, revelando-se “cansado e às vezes um pouco desiludido” com a falta de condições para fazer teatro em Portugal.

“Noite de Outono” estreia-se esta quinta-feira, pelas 21h30, com outra apresentação agendada para o dia seguinte, no mesmo horário. No sábado, despede-se do Teatro Rivoli com uma récita às 19h. O espetáculo tem a duração aproximada de uma hora.