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Em casa de Paula Rego

Batemos-lhe à porta, em Londres, a uma semana da estreia portuguesa do documentário “Paula Rego: Histórias & Segredos”, com assinatura de Nick Willing, o seu filho mais novo. Encontrámos uma mulher serena, sempre mais artista do que mãe, e generosa no desvendar de uma vida que sempre guardou para si. Este sábado na Revista E

Nick Willing

Foi preciso chegar aos 80 anos para Paula Rego aceder a falar sobre si própria a pedido do filho. Fê-lo por ele e porque o ama muito, mas também não resistiu a respirar de alívio por deitar cá para fora fantasmas que sempre a atormentaram e que nunca deixou de colocar em cada quadro que pintou. Não é, por isso, por acaso que a mulher é o tema central da sua obra. A mulher e a sua sexualidade, a mulher e a sua submissão, a mulher criança ou a criança rebelde.

"Sou eu. Sou eu que estou em todos os meus desenhos e histórias", diz-nos com aquele sorriso desconcertante no rosto. Este é o ponto de partida para uma viagem à sua intimidade, aos momentos de solidão, fechada num mundo chamado depressão quase uma vida inteira, à crueldade de um ou mil abortos que a magoaram fisicamente, ao seu ser e ao seu parecer, menina bem-educada e obediente perante todos mas de uma rebeldia grandiosa. "Há sempre o lado perverso dos seres humanos nos meus quadros. O lado perverso e o lado mau. O lado grotesco da vida, que ao mesmo tempo é bonito."

Animada por uma duplicidade extraordinária, a pintora nascida em Lisboa a 26 de janeiro de 1935, lança assim um novo olhar sobre a sua obra. Uma autobiografia perfeita tingida pelas cores e pelas narrativas das histórias que, afinal, sempre lhe interessaram apenas como porta de entrada nesses seus mundos tão secretos.

"O segredo dá-nos poder e força. Devemos sempre guardar segredos de toda a gente", sempre ensinou os filhos. É Nick Willing quem o diz depois de, durante dois anos, ter conversado com a mãe mais do que em toda uma vida. A aproximação entre os dois, tão bem vincada pelo documentário do cineasta que abandonou Los Angeles para se dedicar aos 'negócios' da mãe já lá vão quase quatro anos, começou quando Paula lhe pediu para vir até Lisboa tratar do contrato com a Casa das Histórias, o museu que a autarquia lhe 'ofereceu' em setembro de 2009. Para o convencer, a mãe explicou-lhe que em Portugal ainda era preciso um homem para tratar de coisas sérias.

Esse Portugal distante e tão próximo de uma mulher que se diz "portuguesa londrina" e que acredita que não teria sido possível pintar os seus quadros se não tivesse viajado para Londres. Um país de loucuras e de fantasmas, como nos diz, onde os "corações são pretos" e que a assusta e a impede de trabalhar. Curioso é perceber que é desse país, porém, que lhe chegam as grandes motivações para criar, mesmo que a criação seja para ela a maior das necessidades.

"Quando estou triste ou contente com qualquer coisa exprimo tudo isso nos quadros." E vinga-se, vinga-se das pessoas de quem não gosta, faz troça delas, "mas elas não sabem quem são", e sente um alívio.

Obra biográfica mais do que tudo, o trabalho de Paula Rego não deixa, contudo, de viver de um imaginário extremamente incomum, povoado por traços fortes, personagens cruéis, animais humanos. Mas contém uma insaciável procura de um eu e do que esse eu sente e por que o sente.

Aquele mesmo imaginário que o seu ateliê reflete. Bonecos de brincar, bonecos de pano de todos os tamanhos com cabeças a baloiçar, feitas de gesso e de argamassa, cabeleiras de todas as cores, sereias voadoras, ratos, águias, triciclos e carrinhos de roda, espelhos, candeeiros, manequins de montra de loja e muita, muita roupa.

E aqui deixamos o aperitivo para chá de hortelã e duas horas de conversa numa viagem aleatória pelo passado e pelo presente da maior artista portuguesa além-fronteiras.

[Leia a reportagem este sábado na Revista E do Expresso]