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A peça maldita e “artivismo” cubano agitam o Teatro de São João

D.R.

A peça maldita de Shakespeare, “artivismo” social, encontros entre Zeca Afonso e Vinicius de Moraes, badminton com Gonçalo Waddington, um festival de literatura digital e muito mais no Teatro Nacional São João

André Manuel Correia

O clássico “Macbeth” (1606), de William Shakespeare, é o grande destaque da programação do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, para o próximo quadrimestre, entre abril e julho. Esta tragédia de ambição, considerada amaldiçoada na sua época, é agora levada a palco pela mão de Nuno Carinhas e protagonizada pelo ator João Reis, com a estreia a 1 de junho, a marcar o reencontro criativo entre os dois artistas volvidos 20 anos. Além desta estreia, há mais cinco para ver, num total de 21 espetáculos distribuídos pelo Teatro São João, Teatro Carlos Alberto (TeCA) e Mosteiro de São Bento da Vitória (MSBV).

A equipa artística de “Macbeth” já se encontra em fase de preparação, havendo lugar a dois ensaios abertos ao público no Mosteiro de São Bento da Vitória, a 5 de abril, com comentários de Pedro Mexia e, a 18 de abril, com considerações da poetisa Ana Luísa Amaral. Esta é a primeira incursão de Nuno Carinhas, encenador e diretor artístico do TNSJ, pelo universo “shakespeariano”. O espetáculo, produzido pelo Teatro Nacional São João, estará em cena entre 1 e 22 de junho.

Sobre esta peça, o crítico norte-americano, Harold Bloom escreveu: “Não sei se Deus criou Shakespeare, mas sei que Shakespeare nos criou a nós, num grau verdadeiramente aterrador”. Nuno Carinhas, por sua vez, frisa que “antes de Shakespeare não éramos totalmente humanos”. O elenco faz jus à grandeza da obra e no elenco figuram atores como João Reis, Emília Silvestre, Joana Carvalho, Paulo Calatré, João Cardoso, a jovem Sara Barros Leitão, entre outros.

O ator João Reis regressa ao TNSJ e volta a trabalhar com Nuno Carinhas 20 anos depois

O ator João Reis regressa ao TNSJ e volta a trabalhar com Nuno Carinhas 20 anos depois

José Carlos Carvalho

Em estreia mundial estará “Endgame” (Fim da Partida, 1957), com direção artística da cubana Tania Bruguera a partir do texto do escritor irlandês Samuel Beckett. O espetáculo inserido na programação do “BoCA – Biennial of Contemporary Arts” pode ser visto a 20 e 21 de abril no MSBV. “Sou uma artivista”, assume-se a criadora latino-americana, conhecida mundialmente pelas suas provocatórias instalações e ‘performances’. A peça é tida como um clássico da dramaturgia contemporânea e, nesta versão arrojada, o público estará colocado numa enorme estrutura cilíndrica, como no interior de uma bolha, de onde contempla, de cima para baixo, um cenário devastado.

Pelo Teatro Nacional São João passa também o festival transumante “Dias da Dança”, organizado pelo Teatro Municipal do Porto, com destaque para os “Muros” da coreógrafa Né Barros, erguidos entre 27 e 29 de abril. “Perturbantes ressonâncias no nosso presente, marcado pelas figuras do refugiado, do exilado e do deslocado, e pela crescente ânsia política em deter e expulsar o estrangeiro”, são alguns dos temas em foco neste espetáculo, com a colaboração dos músicos Alexandre Soares e Ana Deus (Osso Vaidoso e Três Tristes Tigres).

Zeca Afonso e Vinicius de Moraes encontram-se na “Estrada Branca”

A 26 e 27 de maio chegamos à “Estrada Branca”, outro dos espetáculos a debutar, e onde se encontram e entrecruzam as sonoridades de Zeca Afonso e Vinicius de Moraes. A direção artística fica a cargo de Ricardo Pais, num projeto musical a cargo de Carlos Tê, José Pedro Gil, Emanuel de Andrade, Mónica Salmaso, Teco Cardoso e Nelson Aires. “Sobre as espumas oceânicas e as linhas de fronteiras, desalfandegam-se bagagens, ritmos, vozes, melodias, danças, lágrimas, almas”, escreve Carlos Tê no texto de apresentação do espetáculo a ser exibido no Mosteiro de São Bento da Vitória.

As outras duas estreias do próximo quadrimestre são “E-nxada”, um espetáculo de circo contemporâneo com direção artística de Vasco Gomes e Julieta Guimarães, em palco no TeCA entre 19 e 23 de abril, e ainda “O Homem da Guitarra”, com encenação e interpretação de Manuel Wiborg, a partir do monólogo escrito por Jon Fosse, onde o público é levado, entre 6 e 16 de julho, até aos sonhos desfeitos, o reconhecimento do fracasso e a reconciliação existencial possível de um músico de rua.

Do “Inferno” de Dante à literatura eletrónica

A completar 40 anos está o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica – FITEI e leva até aos espaços geridos pelo TNSJ cinco espetáculos: “Como se chamavam os filhos de Medeia”, de Luísa Pinto (3 e 4 de junho); “No Limite da Dor”, de Ana Aranha e Carlos Ademar, com direção cénica de Julio César Ramirez (7 de junho); “Campo Minado”, de Lola Arias (8 e 9 de junho); “Inferno”, obra canônica de Dante encenada por João Brites (14 a 18 de junho); e, por fim, “Pasta e Basta – um mambo italiano”, de Giacomo Scalisi e com textos de Afonso Cruz, para ver entre 15 e 18 de junho.

Outros espetáculos a não perder ao longo dos próximos quatro meses são: “al mada nada” (6 a 9 de abril), com textos de Almada Negreiros e encenado por Ricardo Pais, de regresso ao TNSJ depois de ter estreado em março de 2014; “Boca Muralha” traz danças obsessivas e vigilantes de Catarina Miranda, entre 6 e 8 de abril no TeCA; e “Música Pobre” (8 de abril, TNSJ), com direção artística de Filipa Francisco e Pedro Tudela, apresenta um objeto experimental que cruza diferentes territórios artísticos e conceptuais.

Merecedor de especial atenção é também “O Nosso Desporto Preferido – Futuro Distante”, com texto e encenação do sempre desconcertante Gonçalo Waddington, para ver no TeCA entre 18 e 28 de maio. Ao longo da peça – quase de ficção científica – especula-se de forma acutilante sobre o futuro, daqui a 100 mil anos, de uma espécie evoluidíssima e refinada, o Homo Sapiens Sapiens Sapiens Sapiens Sapiens Sapiens de uma Civilização Tipo 3. Seis atores, em palco, esperam pela morte, enquanto discutem filosofia, arte, religião, ciências humanas e políticas, tudo isto enquanto jogam badminton. Entre pontos ganhos e perdidos, o tédio existencial bate sempre numa rede de linguagem bem rendilhada.

Só no mês de julho, entre 13 e 23 no TNSJ, se dá “O Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind e com encenação de Pedro Penim, uma tragédia sobre um grupo de adolescentes em conflito com uma sociedade conservadora e moralista, escrita em 1891.

Entre 19 e 22 de julho realiza-se no Mosteiro de São Bento da Vitória o “Festival de Literatura Eletrónica”, comissariado por Sandy Baldwin e Rui Torres, docente na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e um dos mais importantes investigadores e criadores portugueses de literatura digital.

O Mosteiro de S. Bento da Vitória serve de altar ao Festival de Literatura Eletrónica

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Miguel Azguime

Poderá um poema ser concebido através de codificação HTML? Pode a realidade virtual abrir novos horizontes criativos e aumentar a imersão do público numa obra literária? Através de diálogos, debates, ‘performances’, apresentações e exposições, este festival promete desmistificar dogmas literários instituídos e levar o público até um universo de possibilidades e combinações quase infinitas.

Durante a conferência de imprensa dos conteúdos programáticos, a presidente do conselho de administração do TNSJ, Francisca Carneiro Fernandes, divulgou alguns dados relativos ao ano de 2016. “Apesar de alguns percalços”, começou por dizer a responsável, o Teatro Nacional São João recebeu 49 espetáculos, com uma taxa de 77% de ocupação de sala, o que representa um aumento de 5% face a 2015. O crescimento anual de bilheteira, entre portas, foi de 22%, frisou ainda a responsável.