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Quando o passado soa terrivelmente atual

O Judaica – Mostra de Cinema e Cultura já vai na 5ª edição e, tal como o ano passado, divide-se entre Lisboa, Cascais, Belmonte e Castelo de Vide. É porém na capital que começa, esta terça-feira, com o filme “Negação”, o primeiro de 22 a serem exibidos

Não é por mero acaso que, este ano, a 5ª edição da Judaica — Mostra de Cinema e Cultura começa com o tema do negacionismo. Porque hoje, em tempos de ‘pós-verdade’, em que existem dirigentes mundiais a defender a construção de factos alternativos ao que realmente se passa no mundo, o tema ressurge como Fénix das cinzas. Esta terça-feira, quando às 21h o filme “Negação”, de Mick Jackson, for exibido no São Jorge, estará dado o mote de uma programação centrada não no passado, mas nos desafios que o presente nos coloca. Entre 28 de março e 10 de junho, são 22 filmes, oito sessões especiais em torno destes e três eventos paralelos — duas visitas guiadas e uma exposição — que o corroboram. Levando, à semelhança do que aconteceu o ano passado, a inquietação a quatro localizações: Lisboa, Cascais, Belmonte e Castelo de Vide.

“Negação” não ia, de início, ser a abertura do festival. Mas impôs-se, ou melhor, foi o estado do mundo que o impôs. O filme relata o complexo processo judicial em que o negacionista do Holocausto David Irving acusou a historiadora americana Deborah Lipstadt de difamação, obrigando-a a lutar pela reposição da verdade histórica. “Ouvir o que Irving disse há 20 anos em tribunal é assustador e soa terrivelmente atual”, diz Elena Piatok, fundadora e diretora executiva do Judaica, que este ano teve a colaboração de Rui Pedro Tendinha na escolha dos filmes a serem mostrados. Sem a intenção de que houvesse um tema, um fio condutor, este acabou por surgir naturalmente: “A maioria dos filmes são histórias baseadas em personagens reais e em coisas que aconteceram”, revela Elena, para quem, como sempre, era essencial que a programação “tivesse um significado o mais amplo possível”.

“Lou-Andreas Salomé — A Vida de uma Filósofa”, de Cordula Kablitz-Post, responde certamente a esse desígnio. Porque toca vários assuntos de uma só penada: feminismo, amor, preconceito, segregação. “É a história extraordinária de uma mulher amada por Rilke e por Nietzsche, e admirada por Freud, que não sendo judia foi igualmente perseguida pelos nazis e os seus livros foram queimados”, adianta Elena Piatok. “O Último a Rir”, de Ferne Pearlstein, questiona os limites da liberdade de expressão perguntando até que ponto se pode fazer humor com o Holocausto. E “O Jovem Karl Marx”, de Raoul Peck, exibido na Berlinale Special, conta o revolucionário encontro, em 1844, de Marx com Friedrich Engels em Paris.

Entre estreias e debates, perseverança

A possibilidade única de ver “Indignação”, de James Schamus, numa sala portuguesa — onde não está previsto estrear — não deixa de ser um acontecimento. A adaptação do livro homónimo de Philip Roth constitui “um exemplo claro dos valores conservadores contraditórios que prevaleciam nos Estados Unidos dos anos 50”, comenta a diretora executiva. Por sua vez, a “Operação Antropoide”, de Sean Ellis, também sem estreia comercial, narra em jeito de thriller o episódio que levou ao assassinato do nazi Reinhard Heydrich. E há também a ligação a Portugal pela mão de “A Guerra dos 90 Minutos”, de Eyal Halfon: um falso-documentário filmado no estádio de Leiria, onde supostamente o conflito israelo-árabe se resolver com um simples jogo de futebol.

Entre longas, curtas metragens e documentários, os debates/conversas propostos iluminam, polemizando, alguns dos filmes visionados. É o caso do debate em torno de “Negação”, intitulado “Negacionismo, pós-verdade: defender o indefensável?”, que tem lugar a 29 de março e em que participam Esther Mucznik, Pedro Aires Oliveira e Renato Barroso moderados pela historiadora Cláudia Ninhos. É também o caso da presença do rabino William Wolff a responder às perguntas do público após a projeção do documentário “O Rabino Wolff”, de Britta Wauer (30 de março às 19h), ou as do realizador de “A Guerra dos 90 Minutos”, Eyal Halfon, e do seu produtor, Assaf Amir (2 de abril às 19h30) com idêntico propósito. Ou ainda da discussão, em Cascais (Cinema da Vila às 18h), que sob o título “Três autores em Portugal, três romances no tempo do Holocausto”, junta Cristina Norton, João Pinto Coelho e Tiago Salazar moderados por Filipa Melo.

Em Belmonte inaugura-se a exposição “Caminhos da Judaica” (5 de maio no Museu Judaico e, a 12, nos Paços do Concelho de Castelo de Vide), apresenta-se o livro “Na Rota dos Judeus do Porto”, de César Santos Silva (dia 5 no Auditório Municipal), e realiza-se uma mesa redonda sobre a obra de Samuel Schwarz com a participação do neto deste, João Schwarz da Silva (7 de maio no Museu Judaico). Em Castelo de Vide volta-se a falar do livro “O Comboio do Luxemburgo” pela mão das suas autoras, Irene Flunser Pimentel e Margarida Ramalho.

Elena Piatok, diretora executiva e fundadora do Judaica, é uma mexicana de origem polaca a viver há mais de duas décadas em Portugal

Elena Piatok, diretora executiva e fundadora do Judaica, é uma mexicana de origem polaca a viver há mais de duas décadas em Portugal

José Carlos Carvalho

O festival Judaica é uma história de perseverança com uma personagem principal: Elena Piatok, nascida no México de pais judeus polacos que passaram por um campo de concentração na Sibéria, que estudou línguas no Japão e nos Estados Unidos, que viveu 13 anos no Canadá e que, casada com um português, veio desaguar a Lisboa em inícios dos anos 90. Foi por cá que, aos poucos, resgatou de um silêncio de décadas o seu passado familiar, na tentativa de finalmente o enfrentar e perceber. Nesse processo criou o Judaica, já na 5ª edição e com perspetivas de crescer. “Tive contactos de outras cidades, como Ourém ou Bragança, que estão interessadas em acolher o Festival”, confidencia. Do que se depreende que, em 2018, o Judaica poderá ter, em vez de quatro, seis localidades dentro do seu mapa.

Texto publicado no Expresso Diário de 27/03/2017