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Uma história do sono

O sono é mais fácil para uns, como a A Bela Adormecida, do que para outros. Apesar de se dormir mais, o mundo moderno veio complicar as coisas (“The Sleeping Beauty” John Collier, 1921)

Entre 5% a 10% da população mundial sofre de insónias crónicas. O sono é, para quem não dorme, o objeto mais amado, a concretização mais ambicionada, o sonho (o verdadeiro, retemperador) tornado realidade. Para quem descansa nas asas aladas de Morfeu, sem lutas desgastantes contra o escuro e o vazio das horas, o tema pode parecer até displicente, mas não há quem não tenha a dizer uma palavra sobre ele. Que é pouco, que é muito. Que devia ser mais. Que devia ser assim. Que devia ser aquilo. Que as crianças devem ir para a cama àquelas horas. E dormir outras horas. Que para dormir melhor se deve comer isto e beber aquilo. Que o quarto deve estar completamente escuro. Que não, afinal, a luz da manhã a entrar ajuda a um despertar menos doloroso. Enfim, o tema é apaixonante — para quem dorme a mais ou a menos.

Todos têm a sua teoria, os especialistas em sono proliferam e os livros sobre ele também. Benjamin Reiss, professor de inglês na Emory University (Atlanta, EUA), especializado em literatura do século XIX, descobriu que escrever sobre tal assunto é uma das formas mais rápidas de conhecer pessoas. Toda a gente está disponível para falar sobre o tema e quase todos têm uma história para contar sobre um episódio de insónia e o desespero de não conseguir fazer algo que, afinal, tínhamos feito no dia anterior, sem qualquer problema: dormir.

No seu mais recente livro (os dois anteriores dedicaram-se a outros temas, como por exemplo, as relações raciais na cultura americana do século XIX), Reiss recorre à literatura, à história, à ciência e à psicologia para explicar como a nossa sociedade domesticou o sono, criando regras e expectativas sobre o tema que, afinal de contas, parecem resultar para poucos.

A Revolução Digital privatizou o sono

Nunca o sono foi tão idolatrado e nunca houve tantas queixas como hoje, com a classe científica a estudar aprofundadamente o tema e tantas pessoas a procurarem ajuda para dormirem melhor e descansarem mais — num mundo que vive em velocidade rápida e onde é cada vez mais difícil “desligar”. Estas são assunções comuns, mas o que Benjamin Reiss faz é analisar, através da análise aos textos dos escritores, diários pessoais e outros documentos, a evolução do conceito de sono. “O que faz de 'Wild Nights' tão libertador é que é descritivo, não prescritivo. Não amedronta”, escreve o 'The New York Times.

Apesar de todas as nossas queixas, vivemos na idade do ouro ao que o sono diz respeito: na verdade, até dormimos mais do alguma vez se dormiu na história da humanidade. E dormimos de forma completamente diferente. Para Reiss, tudo (mas mesmo tudo) mudou na forma como dormimos, nos últimos 150 anos. A começar pelo mais óbvio: dormir deixou de ser um ato social.

As famílias dormiam juntas e era normal estranhos partilharem a mesma cama, quando em viagem. Reiss cita o diário de Samuel Pepys, administrador da Marinha inglesa e membro do Parlamento, que, no século XVIII, manteve uma lista uma avaliava e listava os seus companheiros de cama favoritos. Um bom conversador era um requerimento obrigatório.

A Revolução Industrial privatizou o sono. E com eles chegaram dilemas modernos. O mais clássico: como devem dormir os nossos filhos?

Antes, dormir era coisa que se fazia ao sabor das estações e da luz do sol, à medida das necessidades do corpo. Nos países mais afastados do equador, havia povos que praticamente hibernavam nas estações mais frias. Depois, passou a ter de servir o ritmo das máquinas e do comércio. Com o desenvolvimento da luz artificial, as pessoas deixaram de se deitar pouco depois do sol se deixar de ver no horizonte. Os dias aumentaram. E as horas dedicadas ao descanso também.

Dormir com intervalo pelo meio

A regra de que uma boa noite de sono deve ter pelo menos oito horas é, na verdade, uma convenção recente. Anteriormente à Revolução Industrial, as pessoas dormiam consoante os seus ritmos e, na maioria das vezes, uma boa noite de sono era bifásica, com dois segmentos de algumas horas. Quando a noite ia avançada, acordava-se e, normalmente, o período entre o sono seguinte era bastante movimentado: rezava-se, meditava-se e era quando, normalmente, as relações sexuais aconteciam. Contudo, com o avanço da tecnologia, o sono monofásico passou a ser mais adequado para um mundo que passou a ser feito de horários de trabalho.

“Wild Nights — How Taming Sleep Created Our Restless World”, de Benjamin Reiss. Editora: Basic Books; Páginas: 350 páginas; Preço: 13,60 (Amazon)

“Wild Nights — How Taming Sleep Created Our Restless World”, de Benjamin Reiss. Editora: Basic Books; Páginas: 350 páginas; Preço: 13,60 (Amazon)

Contudo, as longas noites, à luz da vela e os candeeiros a petróleo, não eram propriamente sinónimo de bom sono. Na verdade, as insónias assolam a humanidade há séculos, desde as civilizações mais antigas. Contudo, começou a ser estudada como doença e tratada com drogas apenas no século XIX. Muitas das interrogações de então, mantêm-se. Os debates sobre a importância do sono e as fórmulas para dormir melhor também. Assim como as consequências de um mundo tecnológico que gira a velocidades cada vez mais altas.

Aliás, nas muitas citações históricas a que Reiss recorre, uma delas sobressai pela sua atualidade: “Com dificuldade, um homem tira uma sesta de meia hora depois do jantar, mas assim que acorda, levanta a cabeça e pergunta: 'Quais são as novidades?', como se o resto da humanidade se tivesse mantido acordada, como sentinela”, escreveu em meados do século XIX, em jeito de queixa ao frémito do mundo industrial, Henry David Thoreau, ensaísta, poeta, filósofo e abolicionista norte-americano, além de uma vítima de insónia crónica.