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“Dr. House”

d.r.

Reinaldo Serrano

É longa e em alguns casos prolixa a lista de séries televisivas que tiveram e têm na medicina e no exercício do ato médico o ponto de partida para os enredos que duraram mais ou menos temporadas. Lembro-me do meu primeiro contacto em petiz com uma série desta natureza: “Diagnosi” (“Diagnóstico”) era uma produção da italiana RAI que, aos sábados, preenchia cerca de uma hora das tardes da RTP. Desde esse ano de 1975 até aos dias de hoje, muito evoluiu a medicina e a televisão, tornando em sucessos mundiais os seriados (como lhes chamam os brasileiros) baseados em casos clínicos, sobretudo nos mais bizarros ou impossíveis.

Os exemplos mais recentes falam-nos de “E.R.” (“Serviço de Urgência”) , produzido entre 1994 e 2010, o extraordinário “House” (2004 a 2012) que teve (entre outros) o mérito de popularizar o notável e multifacetado Hugh Laurie, a inefável “Grey´s Anatomy” (“Anatomia de Grey”), surgida em 2005 e que ainda anda por aí, até ao mais moderno, contemporâneo e futurista“Pure Genius” (2016); mas o pretexto desta crónica é dar a conhecer “Doc Martin”.

Com produção da britânica ITV, a série teve a sua estreia em 2004 e o seu final foi pré-anunciado para o próximo ano; de permeio ficam 9 temporadas que narram as venturas e desventuras de um conceituado médico londrino que se vê forçado a trocar a capital do império por uma pacata localidade da Cornualha onde vai assentar arraiais como clínico geral. O motivo de tão drástica mudança é, no mínimo, insólito: o cirurgião vascular Martin Ellingham desenvolve uma inesperada hemofobia (medo de ver sangue), pelo que é obrigado a mudar de rumo na sua carreira. A passagem da urbe para o campo traz naturalmente uma série de desencontros e de situações absurdas numa série plenamente conseguida e assinada por Dominic Minghella, irmão de Anthony Minghella, o mesmo que, em 1996 conquistou o Óscar para Melhor Realizador por “O Paciente Inglês”. Os mais atentos já terão constatado que Ellingham (o apelido do protagonista de “Doc Martin”) é um anagrama do apelido de Anthony e Dominic.

Cena de “Doc Martin”

Cena de “Doc Martin”

d.r.

A série é protagonizada por um magnífico ator, voz recorrente de documentários sobre a vida animal e outras temáticas que, em 2015, foi agraciado com o título de Oficial da Ordem do Império Britânico por serviços prestados nas artes, caridade e ao serviço da comunidade. Martin Clunes desempenha de forma superior o papel deste deslocado médico que se vê a braços com as situações mais insólitas e caricatas num ambiente que conhece dos tempos de juventude mas que é agora difícil de reconhecer na idade madura.

Assim se sucedem os quadros que são, uma agridoce crónica de costumes e que aumentam o grau de originalidade de uma série cuja personagem central emergiu do filme “Saving Grace”, realizado em 2000 pelo também britânico Nigel Cole. “Doc Martin” merece seguramente um visionamento primaveril para quem gosta do pitoresco e de ver a medicina mais como pretexto do que como foco central numa série.

Já agora, e porque a modernidade de hoje mais não é que uma atualização do ontem, cumpre lembrar a nostalgia de “Dr. Kildare” que, nos idos de 1961 e até 1966 ,popularizou na cadeia norte-americana NBC o nome de Richard Chamberlain, muito graças à personagem que, ao longo de 191 episódios, aqueceu muitos corações na América e também no Portugal de outrora.

Cena de “Dr. Kildare” F

Cena de “Dr. Kildare” F

d.r.

Garanto ser um exercício particularmente curioso e até divertido assistir nos dias de hoje às peripécias do Dr. James Kildare por comparação com os seus “colegas” das séries que atualmente pululam nos ecrãs de todo o planeta.

Antes de chegar à televisão, o Dr. Kildare (saído da inspiração de Frederick Schiller Faust, um reputado autor de... “westerns”, sob o pseudónimo de Max Brand), já tinha surgido em filmes e até na rádio, mas foi a caixa que mudou o mundo que haveria de incluir Kildare na galeria dos clássicos. E já sabem o que pensa o escriba sobre esta matéria: conhecer o passado não ajuda apenas e entender melhor o presente, como é seguramente um método perspicaz de relacionar o futuro. Há lá coisa melhor.... Bem... talvez ter... saúde.