Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Sónia Braga: “Para mim, ‘Aquarius’ é o Brasil”

FOTO Pascal Le Segretain/Getty Images

A grande atriz brasileira que muitos ainda recordam da novela “Gabriela” tem um ‘papelão’ em “Aquarius”, o novo filme de Kleber Mendonça Filho que se estreou quinta-Feira

Conversámos com Sónia Braga no último Festival de Cannes, pouco depois da estreia mundial de “Aquarius” e do protesto que a equipa 
do filme ali fez contra a atual situação política no Brasil. A atriz, que vive há muitos anos em Nova Iorque, onde alimenta outra das suas paixões maiores, a fotografia, estava radiosa. Alguns dias depois, voltaria 
a brilhar na Croisette, com um vestido e um véu tão vermelhos como 
a cor da passadeira.

No filme, ela chama-se Clara, uma sexagenária 
do Recife, viúva e mãe de três filhos e última moradora de um edifício 
à beira-mar (o “Aquarius” do título), que uma empresa de construção civil quer transformar num novo condomínio. Só que Clara resiste. Recusa deixar a sua casa e decide enfrentar todas as manobras de persuasão 
da construtora, de contornos cada vez mais sinistros.

Eis um grande retrato de mulher.

Já conhecia Kleber Mendonça Filho antes de ouvir falar de “Aquarius”?
Não, vi o filme anterior dele, “O Som ao Redor”, e li o roteiro de “Aquarius” quase ao mesmo tempo. O filme levou-me para outra dimensão. E, ao ler o roteiro, senti também que estava a entrar numa realidade paralela, num espaço desconhecido. A vida de Clara, a sua luta... tudo aquilo fazia sentido para mim. O filme começa nos anos 80, que foi a época em que eu me mudei para os Estados Unidos.

Acha que a personagem se identifica consigo e você com ela?
A Clara e eu somos diferentes, mas acho que, de alguma forma, pertencemos à mesma ‘família’. É um grande papel para qualquer atriz, independentemente de a Clara ser uma mulher da minha geração. E é um papel que me toca fundo, como cidadã e como pessoa. Eu vivo em Nova Iorque, a Clara no Recife. Sou muito intuitiva, ela é uma ex-jornalista musical, vem de um percurso académico. Ela é viúva, tem filhos, eu não os tenho, nem sou casada. Eu e ela tínhamos tudo isso para ‘negociar’. Mas, quando nos juntamos, acho que somos uma só. Às vezes, a Clara diz certas coisas 
e eu, vendo agora o filme à distância, digo a mim própria que concordo 
com ela. É curioso: durante a rodagem, quando cumpríamos mais um dia 
de trabalho, às vezes o Kleber vinha ter comigo e dizia-me: “Sinto-me meio estranho, pois já não sei muito bem se você é a Clara ou a Sónia...”

É um papel exigente. Passado o prólogo dos anos 80, você está 
em praticamente todos os planos...
“Aquarius” é seguramente o filme em que me senti mais inteira, com um verdadeiro papel principal. Mesmo noutros casos em que eu era cabeça de cartaz e o centro da trama, o protagonismo foi mais dividido. Sentia que o roteiro tinha sido escrito para mim, o que não corresponde 
à verdade: já estava pronto quando o Kleber e eu nos encontrámos.

Este foi o seu trabalho mais difícil?
Houve um momento em que o Kleber me disse que tinha trabalhado com não-atores nos seus filmes anteriores, em “O Som ao Redor” e nas curtas. E eu disse-lhe: “Que ótimo! É que eu também não me sinto uma atriz.” Ele perguntou-me então o que queria eu dizer com isso e expliquei-lhe: a verdade é que sempre tive pânico de ler roteiros, de decorar falas. Não sei ensaiar. Nunca estudei arte dramática, não sou académica; aliás, os atores de formação académica intimidam-me. O Kleber tranquilizou-me. E, quando começam os ensaios, dou-me conta de que, de facto, nunca tinha ensaiado de verdade na vida. Foi como descobrir o paladar da comida. No set havia atores profissionais, gente de teatro, outros que nunca tinham representado, e nesta mescla agradável não se sentia uma hierarquia, o ‘quem é quem’.

Como é que decorreu a rodagem?
Encontrei uma equipa extraordinária, unida, superpreparada, em que todos os elementos sabiam o que estava no roteiro e o que fazer para cada cena. Trabalhámos juntos para os mesmos objetivos, 12 horas por dia, seis dias por semana, e no dia de folga eu não descansava: ensaiava para a semana seguinte. Integrei-me naquele grupo. Senti que este filme era como um corpo humano, com o seu coração batendo e o sangue circulando nas veias.

“Aquarius” fê-la pensar no seu passado?
Acho que, acima de tudo, “Aquarius” é um filme sobre o amor. E com amor foi feito. Pensei no meu passado, sim, mas não com nostalgia. 
E também não acredito que Clara seja nostálgica, isso nota-se na relação dela com o sobrinho. Ela é uma mulher que só quer preservar 
o que é importante na sua vida. Os filhos, os discos, os livros, a casa em que sempre viveu e educou as suas crianças. A perseverança dela tocou-me, fez-me amar a sua vida.

Clara é também o papel de uma geração de mulheres que já só raramente 
é representada nos ecrãs. O que pensa disso?
É verdade que uma sexagenária não costuma aparecer, e ainda menos num papel principal. Só que um ator, uma atriz, existe enquanto estiver vivo. Há sempre portas que podem ser abertas. Fiz coisas no filme que geralmente não faria. Tive de cantar e não sei cantar. Tive de tocar piano e nunca aprendi. E tive uma cena de sexo que foi muito mais fácil de fazer. Essa cena foi muito importante para mim: estar nua, fazer amor. Porque há uma espécie de moralismo que julga que essas cenas não devem ser feitas. Como se, a partir de uma certa idade, o corpo tivesse de ficar num sítio e a sexualidade noutro, como um chapéu ou um casaco que se penduram no cabide. O que penso disso? Penso que as mulheres da idade de Clara e da minha querem ter namorados, fazer amor, sentir-se sensuais. Têm uma vida sexual. Não estão é a ser representadas nos filmes.

O protesto político foi espontâneo?
Foi uma resposta necessária. O Brasil tem uma democracia ainda jovem 
e frágil e está a mudar depressa. Já não se parece com o país que conheci e onde vivi. É muito difícil para quem é de fora perceber o que estamos passando, o perigo que isso implica e as coisas que nos arriscamos a perder.

O que é que “Aquarius” representa?
Para mim, “Aquarius” é o Brasil. É aquele edifício, com os seus cupins [térmitas] que o vão destruindo lentamente. E é muito claro quem os coloca lá dentro. Quem contamina o prédio é um tipo de sociedade que não se conforma que o país possa viver em democracia. Um tipo de sociedade que não admite que as pessoas tenham direitos e lutem por eles.