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Porto: exposição com manual de instruções colou Rosa Mota à parede

JOAO LIMA

A exposição “do it”, comissariada por Hans Ulrich Obrist e tida como um “clássico da curadoria contemporânea”, instala-se na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Inaugurou esta sexta-feira e a 23 de junho há uma festa de destruição

Vamos colar a uma parede a ex-maratonista Rosa Mota e puxar a toalha da mesa em que é servida a arte contemporânea? “do it”, é este o nome da exposição itinerante, concebida em 1993 e comissariada pelo curador suíço Hans Ulrich Obrist, pensada para poder ser reinterpretada, mediante instruções com maior ou menor flexibilidade, simultaneamente em diversas partes do mundo, por qualquer pessoa, e exposta em qualquer espaço museológico.

Inaugurou esta sexta-feira, no Pavilhão de Exposições da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), e a 23 de junho há uma festa de destruição, a cargo de Amália Pica, de todas as instalações que poderão ser vistas ao longo de três meses. Nada pode ficar numa época marcada pela instantaneidade e na qual a desmaterialização impera. Nada perdura. Tudo se destrói e reconstrói.

Será possível conceber uma exposição deambulante, capaz de ser apresentada em vários pontos do globo, sem que existam previamente objetos artísticos passíveis de serem transportados? É possível criar arte a partir de instruções? Hans Ulrich Obrist, um dos mais influentes curadores internacionais, acredita que sim e tem-no provado com o projeto “do it”: um compêndio ou manual de instruções onde constam 250 “receitas artísticas”, de variadíssimos autores, com vista ao desenvolvimento de uma única matriz da exposição, aberta ainda assim a novos ingredientes criativos.

De um modo simplificado, esbate-se o papel do artista e emerge um novo binómio de agentes criativos – instrutores e executantes (“doers”) da obra. Fica assim diluída a distância entre o criador e a audiência. A criação torna-se mais democrática, a arte deixa de ser intemporal e adapta-se à era do descartável.

Um clássico da curadoria contemporânea

Na versão que agora se instala no Porto, foram selecionadas 23 instruções, interpretadas por mais de 60 “doers”, numa mostra com curadoria local a cargo da professora e investigadora da FBAUP Inês Moreira. A responsável artística frisa que o projeto é um “autêntico clássico da curadoria contemporânea” e realça a “colaboração estrita” com a comunidade académica.

“Entregámos as instruções tanto a jovens estudantes como a artistas consagrados que estudaram cá na faculdade”, numa mostra que inclui também a peça “Homage to Each Red Thing” (1996), que segue a instrução de Alison Knowles e interpretada por Luís Pinto Nunes, na qual 38 funcionários da faculdade tiveram um papel determinante. Todos eles foram convidados a trazer objetos vermelhos representativos do seu quotidiano ou atividade profissional. Sapatos, um casaco, um extintor, uma miniatura de um farol ou uma cadeira surgem suspensos e desafiam a gravidade (tema central de toda exposição).

JOAO LIMA

Ao lado das obras estão as instruções originais, metidas em caixas negras, que serviram de guia para a elaboração de cada uma das peças, de modo a que o público possa tornar-se, ele próprio, em casa, num putativo “doer”. Durante a apresentação à comunicação social, Inês Moreira acrescenta que “o “do it” exige que os “objetos não possam perdurar no tempo. As peças não podem ser institucionalizadas, não podem ser vendidas nem colecionáveis. Não existe aqui essa dimensão aurática do objeto artístico que integra uma coleção”.

Rosa Mota imobilizada numa exposição onde se puxa a toalha da mesa

A obra bastante icónica de Robert Ashley, “Four Scenes” (2012), também ela inscrita como instrução no compêndio “do it”, foi reinterpretada à moda do porto por Lúcia Almeida Matos, Luís Pinto Nunes e Márcia Novais, responsáveis por colarem com fita a antiga maratonista Rosa Mota a uma parede da galeria. Agora, é possível ver o molde do corpo da atleta, como se ali tivesse ficado imobilizado e aprisionado. “A ideia foi colar à parede alguém que está associado ao movimento. E surgiu esta ideia de convidar a Rosa Mota”, explica a professora Inês Moreira.

Mesmo ao lado, enquanto visitamos a exposição, a “doer” Clara Silva vai escrevendo em espelho e em tempo real, sobre uma superfície negra, todos os elementos que normalmente passam despercebidos num espaço expositivo, nesta que é uma reinterpretação da instrução de Jimmie Durham. “Corresponde a dar visibilidade aos elementos escondidos ou que nós nos habituamos a não reparar numa galeria de exposições”, vinca a investigadora e curadora do “do it” no Porto, num trabalho que põe em foco elementos discretos como candeeiros ou sinalética de segurança.

Bem no centro da galeria encontramos uma mesa posta para duas pessoas. Ao longo dos próximos três meses, ainda sem dia marcado, uma coisa é certa: “a toalha vai ser puxada e a mesa posta vai ser destruída”, afiança Inês Moreira, para quem esta exposição abre com uma certa composição e vai sendo desconstruída”.

94 quilos de rebuçados ou uma história de amor de levar para casa

A um dos cantos, encontramos a obra de Félix Gonzalez-Torres, onde vemos um amontoado com 94 quilos de rebuçados de fabricação regional. Uma criação que é um adoçar de boca, detentora de uma poética bela, mas motivada por uma experiência existencialmente amarga para o artista. “A ideia é que ao longo da exposição as pessoas possam ir comendo e levando os rebuçados para casa”, explica a responsável artística por esta reinterpretação do “do it”. “Os 94 quilos correspondem ao peso do namorado do artista, na altura da sua morte. É um tributo que ele faz á desaparição do seu companheiro e convida toda a gente a levar um pouco da memória daquele corpo que desapareceu”, acrescenta Inês Moreira.

Em novembro, Obrist, diretor artístico das “Serpentine Galleries”, em Londres, explicava, em entrevista ao Expresso, que “a curadoria é uma forma de libertar o tempo e libertar o espaço”, e é precisamente essa atitude libertária e disruptiva que fica patente em “do it”.

Passados 24 anos, chega pela primeira vez a Portugal numa versão revigorada e instala-se na FBAUP. Esta singular mostra de arte contemporânea, regulada pelo “Independent Curators International”, em Nova Iorque, é uma autêntica crítica radical, recheada de ironia à mercantilização e à própria efemeridade da arte moderna. Trata-se, assim, de uma oportunidade rara para assistir a uma das propostas artísticas mais desafiantes da contemporaneidade, nunca antes apresentada em nenhum país de língua portuguesa.

Todas as quartas-feiras há visitas orientadas e comentadas pelos “doers” que interpretaram as instruções criativas.