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Casas de papel

Corredor. Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente entre as estantes altíssimas nas quais as suas bibliotecas se foram misturando

joão lima

Escrevem, editam, traduzem. São intelectuais da palavra. Vivem rodeados de livros. E as suas bibliotecas pessoais, tão diferentes umas das outras, refletem o modo como pensam e veem o mundo

Diz-me como são os teus livros, como os organizas e dispões no espaço, dir-te-ei quem és. A biblioteca pessoal, construída ao longo de décadas, é quase sempre um espelho do seu proprietário. Na sua lógica interna ou na sua desordem (que esconde talvez padrões secretos), na amplitude dos temas ou no foco em áreas de interesse muito específicas, podemos ler sinais de quem as moldou. “Todas as bibliotecas são autobiográficas”, escreveu Alberto Manguel num livro — “A Biblioteca à Noite”, Tinta da China — que explora muitos modos e variantes da acumulação de livros ao longo da História humana. Cada uma à sua maneira, as cinco casas de papel que visitámos confirmam, com diferenças de grau e intensidade, a afirmação do escritor canadiano nascido em Buenos Aires (onde na juventude leu para Jorge Luis Borges no seu apartamento, entre os seus livros).

A biblioteca erudita

“Peço desculpa por estar de roupão, mas apanharam-me meio engripado”, diz António Mega Ferreira ao receber-nos num dos dias mais frios do ano. A sua casa é um contínuo de estantes, mas os livros não se ficam por esses redis de madeira. Estão em todo o lado: em cima das mesas, nas cadeiras, nos aparadores. Nenhuma superfície plana lhes escapa. Há também quadros, música clássica, cadernos, canetas. Antes de se mudar para este apartamento, a poucos minutos a pé do Príncipe Real, em Lisboa, o escritor vivia num duplex. “Era muito bonito e espaçoso. O problema é que tinha poucas paredes livres. E um bibliófilo precisa de paredes.”

Se a casa atual não tivesse muitas paredes, como é que acolheria os cerca de 20 mil volumes que Mega contabiliza, mais os que continuarão a chegar nos próximos anos? “Há quem entre numa livraria e traga de uma só vez uns trinta livros. Eu não. No máximo, compro uns cinco ou seis. Mas nunca resisto. Se vejo uma livraria, tenho de entrar. E se entro, saio sempre de lá com livros na mão.” Este impulso começou na infância. Aos 12 anos, comprou o primeiro livro com o dinheiro da mesada: “O Velho e o Mar”, de Hemingway, numa edição de bolso em francês. Antes disso, já usava autocolantes numerados para marcar os livros que lhe ofereciam, mas o esmero de bibliotecário esgotou-se ao fim dos primeiros cem. Alguns desses exemplares sobreviveram até hoje. Por exemplo, “Um Drama na Livonia”, de Jules Verne. Era o número 37.

Mega Ferreira considera-se bibliófilo no sentido estrito daquele que ama os livros. Os livros enquanto textos, obras feitas de palavras. “Não sou colecionador, nem ando atrás de edições raras, autografadas, ou encadernadas desta ou daquela maneira. Isso diz-me tudo muito pouco.” Mesmo sem fetichismos, reconhece ainda assim o prazer de manusear certas edições antigas. “Eu comprei o ‘Zorba’, do Kazantzakis, na altura em que o filme saiu. Uma edição da Ulisseia. Resolvi lê-lo há uns tempos. Verifiquei que na altura só tinha aberto umas dezenas de páginas. Gostei do toque do papel velho, amarelecido, um pouco áspero, bastante rude, características que têm tudo que ver com o espírito da obra.” Cabe então a cada livro esperar, na estante, pelo seu momento? “Exatamente. Eu acredito nisso. Pode levar décadas. O ‘Zorba’ esperou 50 anos.”

Futuro. Como não tem filhos Mega Ferreira tenciona dar a sua biblioteca aos três sobrinhos

Futuro. Como não tem filhos Mega Ferreira tenciona dar a sua biblioteca aos três sobrinhos

joão lima

Outro caso: “A Obra ao Negro”, de Marguerite Yourcenar. Mega leu-o da primeira vez na altura em que entrevistou a escritora belga (“uma experiência desagradável, porque ela era muito antipática”). Ao reabrir o livro, 35 anos depois, descobriu as marcas da primeira leitura: sublinhados, pequenas notas, páginas assinaladas. “Relendo, percebo porque as fiz na altura. Agora, como é óbvio, deixaria outras marcas. Aliás, deixei-as. Agrada-me muito a ideia do livro como palimpsesto das várias idades do leitor.” Com 68 anos, considera-se mais apto do que era aos 23. “Quanto mais lemos, melhor compreendemos o que viermos a ler depois. Há um efeito de acumulação, que ajuda a perceber a rede das influências, os padrões, os arquétipos narrativos. É como com as horas de voo. Só se acumularmos muitas seremos capazes de pilotar bem.”

A organização da biblioteca, um quebra-cabeças para tanta gente, nunca o preocupou por aí além. “Foi-se fazendo a si mesma, na adequação aos meus hábitos, às minhas necessidades.” Claramente erudita, mas intuitiva, funciona por núcleos. Há uma área dedicada a Cervantes, outra a Dante, outra ainda a Borges, uma estante quase inteira para Pessoa. Na sala principal estão os livros sobre a Antiguidade, os grandes clássicos, a História mundial, a música. No corredor, ficção estrangeira. No quarto de vestir, ficção lusófona. No de dormir, numa estante giratória, as biografias. Mas nada de muito rígido. Se olharmos bem, apercebemo-nos de que há muitos livros fora do sítio. “Acontecem muitos encontros inesperados, contaminações. Gosto disso.”

Mais do que com o presente da sua biblioteca, Mega Ferreira preocupa-se com o futuro. “É um drama. Não tenho filhos. Posso dá-la aos meus três sobrinhos, sim, desde que não lhes complique demasiado a vida. Ainda não sei bem o que fazer. Dá-me pena pensar que possa vir a ser despachada a peso.”

A biblioteca conjugal

Quando dois grandes leitores se casam, o que acontece às respetivas bibliotecas? Somam-se? Fundem-se? Mantêm-se independentes? Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente tiveram de enfrentar estas questões. Ela: editora da LeYa, responsável pela descoberta e lançamento de uma geração de jovens ficcionistas portugueses, além de poeta, ficcionista e autora de letras para fados. Ele: diretor editorial da Porto Editora e poeta bissexto. Profissionalmente, trabalham em empresas rivais, mas isso nunca foi um problema: “Sabemos separar muito bem as águas.” Quanto aos livros de um e de outro, esses, resolveram juntá-los de vez.

A principal razão foi de ordem prática, porque o espaço é sempre finito, mesmo num apartamento de dimensões generosas e pé direito altíssimo, na Praça do Areeiro, em Lisboa. “Quando viemos ver a casa, havia três andares para alugar no prédio”, lembra Maria do Rosário. “As pessoas gostam sempre dos andares mais altos, mas escolhemos este, o mais baixo, porque tinha mais 80 centímetros de altura do que os outros. É meia estante.” Para aproveitar ao milímetro essa benesse, pediram a um amigo arquiteto para desenhar aquilo a que chamam o “corredor-biblioteca”.

Nesta espécie de centro geométrico da casa fica grande parte da ficção e a poesia toda. A ficção obedece a uma ordem geográfica, dentro de cada língua. Por exemplo, no caso do castelhano, alinham-se primeiro os autores espanhóis e depois as várias literaturas da América Latina, por ordem alfabética dos países (Argentina, Bolívia, Chile, até à Venezuela). A exceção é a literatura portuguesa, que segue uma ordem cronológica, dos mais antigos para os mais jovens. Maria do Rosário explica: “Por um lado, o Manel gosta de juntar autores de uma mesma tendência, movimento artístico ou geração. Por outro lado, facilita-nos a vida, porque hoje são os jovens que produzem mais e é fácil arrumá-los no fim da estante, no espaço livre. Se fosse por ordem alfabética, estávamos sempre a refazer tudo e seria impraticável.”

Determinante no processo de ganhar espaço foi a decisão de enviar para uma casa de fim de semana, na Ericeira, todos os livros policiais e thrillers. Seguiu-se a identificação dos livros repetidos, que o casal ofereceu aos amigos e à livraria “Déjà Lu”. Mas essas duplicações acabaram sendo em menor número do que supunham. “A verdade é que somos de gerações diferentes. O Manel atravessou todo o período anterior ao 25 de Abril, em que se compravam muitos ensaios políticos, eu nem tanto; e ele é mais virado para a literatura francesa, enquanto eu sigo mais a literatura anglo-saxónica. As nossas bibliotecas até são bastante complementares”, observa a autora de “O Canto do Vento nos Ciprestes”, que se assume como mais “desprendida”.

Já Manuel Alberto Valente admite uma certa dificuldade em separar-se dos livros: “Tenho sempre a sensação de que posso vir a precisar deles por uma razão qualquer. E partilho aquela tese do Umberto Eco, segundo a qual os livros entram em nós por osmose, mesmo se não os lermos. O simples facto de estarem ali, à nossa volta, já nos torna melhores.” A propósito, Maria do Rosário Pedreira evoca Eduardo Prado Coelho: “Ele dizia que uma biblioteca só começa a ser interessante quando há nela tantos livros por ler quanto os livros lidos. Se só tiver obras que já conhecemos, torna-se uma biblioteca estática. Não podia concordar mais.”

Desordem. Rui Zink no meio de um labirinto em que só ele consegue orientar-se: “Há um padrão unificador aqui. E esse padrão unificador sou eu”

Desordem. Rui Zink no meio de um labirinto em que só ele consegue orientar-se: “Há um padrão unificador aqui. E esse padrão unificador sou eu”

joão lima

Um aspeto interessante do processo de arrumação é o que resulta de uma espécie de arqueologia sentimental. “Ao pôr em ordem a parte francesa, descobri o meu próprio percurso, as leituras feitas aos 18, aos 20 anos, aos 25”, diz Valente. “Perguntei-me: porque lia estas coisas naquela época? Fica-se a pensar. É uma forma de entendermos o caminho percorrido. Pegamos num livro e há memórias soterradas que vêm ao de cima.”

Tal como um terreno estudado por um geólogo, uma biblioteca tem estratos. “É interessante ver como os livros migram, como vão subindo nas prateleiras. Eu conservo encostadas ao teto, num sítio que é preciso um escadote para lá ir, todas as obras do Marx e do Lenine. Mas houve uma altura em que estavam na prateleira principal, mesmo em frente aos meus olhos. Hoje não me passa pela cabeça ir folhear o Lenine, embora o Marx talvez faça sentido voltar a ler. De qualquer forma, estão lá. Fazem parte do tal percurso de vida que a biblioteca regista.”

No passado, Valente refez várias vezes a sua vida, deixando casas e mobílias para trás, mas nunca os livros. Por isso, tanto ele como Maria do Rosário têm consciência dos riscos de transformar duas bibliotecas numa só. Na eventualidade de uma separação, dividir o que se uniu seria muitíssimo difícil. “Algum motivo haverá para que uma decisão destas só seja tomada ao fim de uns anos largos de casamento”, remata Manuel, com um sorriso.

A biblioteca pragmática

Sentado na sala principal de sua casa, num condomínio de luxo junto à Serra de Sintra, José Rodrigues dos Santos, o autor português que mais vendeu nos últimos anos (acima de três milhões de exemplares), regressa por momentos à infância, em Tete, no norte de Moçambique. Foi aí, por volta dos sete anos, que iniciou o seu percurso de leitor omnívoro de Banda Desenhada (Tintim, Astérix, Lucky Luke, Spirou, mas também Tarzan e a revista “Mundo de Aventuras”). A paixão pela BD nunca o abandonou. A assinalá-lo, na única estante do piso térreo, uma estatueta do repórter criado por Hergé ocupa um lugar de destaque. À sua volta, o pivô da RTP dispôs os seus próprios livros, traduzidos para um número crescente de línguas (“são tantas as edições diferentes que já começo a não ter espaço”). Nas prateleiras de cima, “alguns clássicos”: Fernando Pessoa, Camões, Ferreira de Castro, Camilo Castelo Branco, Marcel Proust, Eça de Queirós.

A partir dos 12 anos, cresceu o interesse pela Ficção Científica. “Lia um livro a cada dois dias. Ainda hoje tenho a coleção Argonauta quase completa.” Em Macau, onde era grande a influência da cultura britânica, via Hong Kong, leu o “2001, Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, no original. Mas o hábito de ler em inglês consolidou-se mais tarde, quando aos 22 anos foi trabalhar na BBC, em Londres. Começou “a abrir o leque”, descobrindo escritores britânicos como Evelyn Waugh, P. G. Wodehouse e Somerset Maugham (“‘Servidão Humana’ continua a ser o meu livro preferido”). Ao regressar a Portugal, no início da década de 90, os bons hábitos de leitura perderam-se. “Trabalhava tanto que não tinha tempo nenhum para ler.” Ao fim de dois anos, porém, decidiu inverter a situação. “Impus-me como regra ler sempre um bocadinho antes de dormir, mesmo que esteja exausto.”

O início da carreira de romancista, nos primeiros anos deste século, marcou uma mudança drástica na sua vida. “Como leio entre 30 a 100 livros sobre um determinado tema, durante a fase de pesquisa, abdiquei praticamente das leituras de prazer.” Enquanto escreve as suas narrativas, a bibliografia especializada cresce, em pilhas, na sua mesa de trabalho. Para dar sustentação teórica à ‘Trilogia do Lótus’ — de que já foram publicados dois romances (“As Flores de Lótus” e “O Pavilhão Púrpura”), com o terceiro (“O Reino do Meio”) previsto para o final deste ano, sempre na Gradiva — mergulhou a fundo na questão dos totalitarismos. Ao sugerir a existência de raízes marxistas no fascismo, desencadeou uma controvérsia à moda antiga, em que trocou argumentos com historiadores em artigos de jornal. “Li quase todos os livros do Marx, quase todos os livros do Engels, mas também fui aos textos do Mussolini e dos ideólogos fascistas: o Olivetti, o D’Annunzio, o Corridoni. Prefiro sempre ir às fontes, em vez de ler traduções seletivas e ideologicamente orientadas. Quando vamos aos textos originais, descobrimos coisas verdadeiramente extraordinárias.”

Concluída a escrita de um livro, o material de apoio deixa de ser imediatamente necessário, mas não pode ser descartado. “Se houver uma polémica, tenho de ir confirmar as páginas a que fui buscar determinada informação.” Por isso, criou um espaço — na garagem, junto aos dois automóveis de alta cilindrada — para o arquivo morto das suas investigações. Uma espécie de armário branco, em módulos, que cobre uma parede inteira, do chão ao teto. É de lá que retira as obras de Marx onde sublinhou passagens de teor antissemita ou de defesa da escravatura (“é mesmo verdade, olhe aqui”), pousando-as em cima do capô do Mercedes. Dentro do armário fica uma biblioteca oculta: a dos livros que serviram de base ao trabalho do romancista e, cumprida a sua função, se remetem a uma espécie de silêncio.

Toca. Entre dicionários e livros “essenciais”, Maria Manuel Viana escreve os seus romances e traduz, sobretudo do espanhol, mas também do francês

Toca. Entre dicionários e livros “essenciais”, Maria Manuel Viana escreve os seus romances e traduz, sobretudo do espanhol, mas também do francês

joão lima

Há nisto um elevado grau de pragmatismo que se estende à outra biblioteca. A visível. José Rodrigues dos Santos guarda a vasta coleção de BD, e os livros de Ciências, no escritório que partilha com a mulher. Mesmo em frente ao escritório, uma grande estante, feita à medida, acolhe as obras sobre jornalismo e a ficção. “Tenho aqui algumas preciosidades.” Abre, para exemplificar, o saco de plástico com fecho hermético onde guarda uma primeira edição assinada de “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad. Mas nem só os livros raros merecem este tratamento de proteção contra poeiras e peixinhos-de-prata. Nas prateleiras, mais de metade dos volumes estão metidos em casulos estanques. Uma visão estranha, como a daqueles sofás que certas famílias cobrem com plásticos para não se estragarem. Mas talvez faça sentido: afinal, Rodrigues dos Santos é o primeiro a admitir que já não tem tempo para os ler. As leituras em curso estão sempre junto ao computador e ao texto em gestação do próximo romance.

A biblioteca caótica

Sacos de todos os tipos, caixas transparentes (cheias de livros, cadernos, dossiês), objetos tresmalhados, instrumentos musicais, cabos de aparelhos eletrónicos, jornais, catálogos, papelada avulsa. A sala parece um cafarnaum. “Estou em mudanças”, explica Rui Zink, enquanto deambula no meio da desordem, tirando livros da estante, aparentemente ao acaso, e falando sobre eles. Banda desenhada alternativa, um autor esquecido (António Aragão), um livro de Alberto Pimenta, um manual — “How to Write Erotica” — que promete ensinar a escrever cenas de sexo, esse busílis da literatura portuguesa (“não me serviu de nada”).

Para o topo da pilha vai agora um volume em capa dura: “Os Justos”, de Albert Camus, edição antiga da Livros do Brasil. “Li-o durante a adolescência. É uma peça de teatro.” Ao folheá-lo, Zink descobre um texto manuscrito. “Deve ser mais ou menos daquela época, acho que consigo decifrar. Ora vamos lá: ‘Todos os homens são pequenos, a lupa dos nossos olhos é que aumenta uns, enquanto o microscópio disseca outros. Mas a perfeição não existe. Somos sempre traídos por um ponto negro, uma borbulha, uma ruga fora do lugar. Estamos aprisionados dentro de nós próprios.’ Não faço ideia se escrevi isto aos 15 anos, ou aos 18, mas olha, nada mau. Isto era um rapaz a pensar.” No resto do livro há passagens sublinhadas. “Gosto muito de descobrir estas marcas. Na prática, estou a ler dois livros de duas pessoas que já cá não estão. O Albert Camus, porque morreu; e o Rui Zink de 18 anos, porque também já não existe.”

E qual a lógica de arrumação (ou de desarrumação) desta biblioteca? “Não há lógica. Nem critério. Eu adorava que houvesse, mas sou talvez o pior bibliotecário do mundo. Há livros que são relativamente fáceis de arrumar. Por exemplo, tenho ali uma prateleira de livros sobre o Japão. Mas depois eles saltitam para outros lados.” Quando precisa de encontrar um determinado volume, o escritor garante que consegue orientar-se “oitenta por cento das vezes”. É uma espécie de GPS subliminar, um conhecimento intuitivo. “Os livros que eu amo ficam em sítios escondidos. Não preciso de me lembrar deles. Sei sempre onde estão.”

Plástico. José Rodrigues dos Santos junto às prateleiras com literatura de ficção da sua biblioteca, em grande parte protegida por sacos estanques

Plástico. José Rodrigues dos Santos junto às prateleiras com literatura de ficção da sua biblioteca, em grande parte protegida por sacos estanques

joão lima

Outra vantagem do caos: descobrir “mundos infinitos” dentro da própria casa. “É isso que uma biblioteca tem em comum com uma cabeça. Tu podes ser prisioneiro, meteram-te numa cela pequena, e se fores uma pessoa com imaginação e inteligência, podes ter uma vida muito mais cheia do que uma pessoa que vive em liberdade.” Mesmo reconhecendo que algumas zonas da casa ganhavam em estar mais ordenadas, Zink sublinha que o excesso de arrumação faria certamente dele alguém mais preocupado com a capa dos livros do que com o seu conteúdo. “No dia em que não fores caótico é sinal de que estás morto.”

Os livros continuam a sair das prateleiras. Agora fala-se de Italo Calvino e de Martin Amis. Eis Júlio Dantas, o injustiçado. E olha ali um livrinho do Emmanuel Carrère, “La Classe de Neige”. Abandonou-o a dez páginas do fim. Bastavam mais uns minutos de leitura, mas algo se interpôs. “Acontece-me muito. Ficar a meio de um livro, como se fica a meio de uma conversa.” É uma boa analogia. Porque justamente esta conversa, também ela caótica, feita de associações de ideias, de descontinuidades, de derivas, se suspende aqui, enquanto uns livros voltam para os seus lugares e outros não.

A biblioteca móvel

Na infância de Maria Manuel Viana sempre houve muitos livros. O pai era um professor e pedagogo. A mãe, uma “leitora absoluta”, que à noite lhe declamava versos de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. “Eram poemas de embalar.” Mais tarde, decidiram acompanhar o desenvolvimento intelectual da filha. “Quando eu lia um livro, eles liam também. E o livro era discutido à mesa do jantar. Fosse o ‘Joanica-Puff’ ou ‘Os Três Mosqueteiros’. Faziam-me enquadramentos históricos, explicavam as coisas que eu não tinha percebido. Foi um luxo, foi magnífico.”

Ainda em casa dos pais, teve a sua primeira estante, os seus primeiros livros. Quando saiu para viver sozinha, aos 18 anos, levou-os consigo. Tinha assim início um longo percurso de acumulações e perdas, livros que se aproximam e afastam, ficam pelo caminho, recuperam-se, até chegar a este refúgio onde Maria Manuel Viana nos acolhe, uma cave num bairro antigo de Lisboa, espécie de toca onde escreve as suas ficções e traduz, cada vez mais resguardada, por vontade própria, da exposição pública.

Com o pai dos filhos, companheiro durante mais de vinte anos e ainda hoje o seu melhor amigo, fez um pacto. Ele é secretário-geral de uma organização internacional e passa a maior parte do tempo no estrangeiro. Quando regressa das viagens, traz-lhe as novidades de Londres ou de Paris, os livros de que se fala ou os premiados. Em troca, ela mantém-no atualizado sobre o que se vai publicando em Portugal, sobretudo no campo da poesia. “Ao longo dos anos, fomos alimentando a biblioteca um do outro. Separámo-nos em 2003, mas a nossa relação intelectual continuou. É o nosso elo de ligação.”

Quando há dois anos começou a ter sérios problemas com a falta de espaço para os livros, decidiu dar a sua grande coleção de policiais. “Tenho cada vez menos o sentido da propriedade. O prazer dos livros nasce de lê-los, não de possuí-los.” Assim que soube da sua intenção, o antigo companheiro interveio, oferecendo-se para receber o espólio, uma vez que tem espaço de sobra na sua quinta. “Isso deu-me uma ideia: assim que acabo de ler um livro, seja comprado por mim seja oferecido por ele, envio-o para Castelo Branco, onde mora. Depois, se precisar deles, peço-os e ele envia-mos pelo correio. Na leva seguinte, voltam a ir.”

Por perto, ficam os “essenciais”. Não os que levaria para uma ilha deserta, “conceito que me irrita”, mas aqueles que gostaria de ter sempre consigo. “A Apresentação do Rosto”, de Herberto Helder, por exemplo. “Foi o único livro que o Herberto excluiu da sua bibliografia, o que me faz gostar ainda mais desesperadamente dele. É lindíssimo.” Ou um livro de Marguerite Duras, “La Maladie de la Mort”, que lhe foi enviado, em fotocópias encadernadas, por Eduardo Prado Coelho. “São coisas muito preciosas. E eu necessito da proximidade física destes livros.”

O impulso da partilha mantém-se. “É uma coisa que me vem da infância. Se há um livro que me maravilha, levo-o logo para os meus filhos. Têm de ler isto. Faço com eles o que os meus pais faziam comigo.” E estende o gesto aos amigos mais próximos, com quem janta todas as semanas para falar de literatura e trocar livros. A biblioteca nunca está parada. Toda ela é movimento de ida e volta. “Gosto muito desta ideia de ter os livros a circular, sempre. Eles não são meus, são de muitos, vão sendo de quem os lê.”