Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Palavras para quê nos Dias da Música em Belém

A Orquestra Geração toca no sábado às 12h, sob a direção de Olivetti Gimenez

Foi divulgada a programação do festival que todos os anos enche o CCB. Entre 28 e 30 de abril haverá mais de 60 concertos em três dias, subordinados ao tema "As Letras da Música": a relação ávida, ancestral e por vezes tensa entre a música e a palavra

É a relação com a palavra que estará em destaque na edição deste ano dos Dias da Música em Belém, a decorrer de 28 a 30 de abril no Centro Cultural de Belém (CCB). Como sempre, o convite é para elaborar um itinerário entre os vários concertos passíveis de serem ouvidos à mesma hora nas cinco salas disponíveis – e esse itinerário depende apenas de uma escolha pessoal.

O único evento sem concorrência é o da abertura, na sexta-feira 28, em que ao Grande Auditório sobem a Orquestra Metropolitana e o Coro da Fundação Princesa das Astúrias, para interpretar "Ivan, o Terrível", Op. 116, de Sergei Prokofiev – música dos filmes de Eisenstein em versão de Oratória com arranjos de Abram Stasevich. Neste concerto, dirigido por Mykola Diadiura à frente da orquestra e José Esteban García Miranda do coro, participam como solistas os cantores Laryssa Savchenko e Wojtec Gierlach, além de Miguel Moreira no papel de narrador.

Mas esta será a única exceção. A partir de agora, para falar dos Dias da Música será necessário seguir a premissa segundo a qual, a cada opção feita, outra é abandonada. Por isso, quem não escolher começar pelo princípio, isto é, pelo concerto que, sábado às 12h, permite ouvir a Orquestra Geração sob a batuta do maestro Olivetti Giménez, pode fazê-lo pelo fim – por aquele em que, às 22h, se reproduz a magnificência da "Paixão Segundo São João", de J.S. Bach, com o Coro e a Orquestra XXI dirigidos por Dinis Sousa. E isto só no Grande Auditório, que entre sábado 29 e domingo 30 de abril acolherá obras como a 9ª Sinfonia e a abertura "Egmont" de Beethoven, os "Paraísos Artificiais" de Luís de Freitas Branco, o final do "Don Giovanni" de Mozart, o "Requiem Op. 23, à memória de Luís de Camoes" de João Domingos Bontempo, ou a opereta "Candide" de Leonard Bernstein, além de orquestras como a Sinfónica Portuguesa, a de Câmara Portuguesa e a já nomeada Metropolitana.

A solo e em grupo, com voz e sem voz

Numa programação intitulada "As Letras da Música", e em que se explora essa ancestral e indissociável ligação, não podiam ficar de parte obras solísticas como o "Gaspard de la Nuit" de Maurice Ravel, tocada pelo pianista Artur Pizarro, ao lado de 10 peças a partir de "Romeu e Julieta" de Sergei Prokofiev; ou as "Harmonias Poéticas e Religiosas" de Liszt, pelo também pianista António Rosado.

Há um programa Bach pelo violoncelista Pavel Gomziakov, no qual se percorrem as seis Suites divididas em dois recitais. Porém, é sobretudo a canção e a ópera que estarão presentes, pela mão de agrupamentos portugueses como os Músicos do Tejo, o Ensemble Mediterrain, o Ludovice Ensemble, o Toy Ensemble, o Ensemble Darcos, o DSCH-Schostakovitch Ensemble ou a Camerata Atlântica, que trazem obras de Jean-Baptiste Lully, Brahms, Purcell, Manuel de Falla, Alexandre Delgado, Saint-Saëns, Stravinsky e Schubert, entre muitos outros.

Um programa com Donizetti, Verdi e Puccini sem palavras – sim, é possível –, outro com as "Canções sem Palavras" de Mendelssohn e ainda outro (insólito) com o "Requiem" de Mozart desprovido de texto, contrastam com as "Canções Espanholas" de Hugo Wolf, as de Piazzolla, de Granados e de Lorca, com "A Serrana" de Alfredo Keil, com o que Shakespeare foi capaz de plantar no universo sonoro, com Sérgio Godinho acompanhado ao piano por Filipe Raposo, com a música da literatura francesa, com a veia poética de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e com um fado do qual apenas se diz, no final de um domingo mais que cheio, que nada mais se dirá.

À semelhança de edições anteriores, nestes Dias da Música em Belém também haverá concertos de escolas no Coreto e outras músicas na Praça CCB e na Sala Chico Buarque, conversas na Sala Fernando Pessoa e atividades para os mais novos na Fábrica das Artes. E um espaço específico para os alunos do Ensino Artístico Especializado e do Ensino Profissional, em parceria com a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional, intitulado "Mini Dias da Música em Belém" e cujo encerramento decorre na sexta-feira, o dia em que os outros Dias começam.