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Bem-vindo à livraria onde se perde dinheiro e se ganha poesia

Dina Ferreira gere há 14 anos, no Porto, aquela que será a única livraria do país especializada em poesia

Lucília Monteiro

No Dia Mundial da Poesia damos palco a uma livraria rara, porventura a única no país exclusivamente dedicada à arte poética, onde o amor a uma causa é fonte de perseverança para enfrentar, há 14 anos, um inverno de dificuldades

A primavera chegou e esta terça-feira, 21 de março, assinala-se o Dia Mundial da Poesia, efeméride instituída pela UNESCO e celebrada um pouco por todo o mundo desde 1999. As datas são tão-somente isso. Datas. E a arte poética não tem horas nem dias marcados. Exemplo maior é a Livraria Poetria, no Porto, a única do país dedicada à poesia e a exaltá-la todos os dias desde 31 de maio de 2003.

Há quase catorze anos, está de portas abertas ao público e a proprietária diz que nunca deu lucro. As dificuldades económicas são um inverno rigoroso enfrentado com a esperança de quem sonha mais alto, porque “afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio” (Mário Cesariny, in “Pastelaria”).

Quem passa na Rua das Oliveiras, adornada com a renovada e elegante fachada do Teatro Carlos Alberto, não fica indiferente à beleza da montra da livraria, sempre decorada com versos e com um colorido muito próprio, acentuado pelas capas dos variadíssimos volumes de poesia. Numa cidade cada vez mais voltada para o turismo, muitos são aqueles que páram momentaneamente, olham e fotografam. Menos são aqueles que, efetivamente, veem. Porque ver exige tempo. Tal como a poesia. Ver talvez seja “trincar a terra toda e sentir-lhe o paladar”, “pensar como quem anda” e “sentir como quem olha”, como sentenciou Alberto Caeiro (pode ouvir AQUI o poema todo).

A livraria que anseia por um pouco mais de sol para ser brasa

Os clientes são escassos, mas verdadeiros amigos desta pequena e aconchegante casa. Quem entra pela primeira vez acaba sempre por regressar a um bastião de perseverança e amor a uma causa maior: a convicção de que um poema, ou um simples verso, pode ser o amigo mais íntimo, capaz de nos transportar para outras mundividências. Tantas vezes intraduzíveis com as palavras gastas pelo quotidiano. Tantas vezes olvidadas no frenesim da espuma dos dias.

lucília Monteiro

A não permitir que o sonho esmoreça está Dina Ferreira da Silva, a proprietária, de 72 anos. O gosto pela poesia levou-a, depois de se reformar, a abrir – com um capital mínimo de 1.000 euros – este espaço onde partilha o gosto pela poesia com todos aqueles que ali entram e se demoram à procura do livro certo. “Achei uma ideia romântica e interessante [abrir uma livraria de poesia], porque eu sempre adorei poesia”, explica esta antiga professora de Francês, para quem o poema “Quase”, de Mário de Sá-Carneiro, está no topo dos seus favoritos (oiça-o AQUI https://www.youtube.com/watch?v=qOf-hfSLRxQ. “Eu tinha mais poesia em minha casa do que numa livraria comum. Então, achei que talvez a concentração e a especialização na poesia, embora fosse arriscada, talvez pudesse contrariar a massificação”, acrescenta.

Público jovem, conhecedor, mas com poucos recursos

Os clientes são sobretudo jovens e a grande maioria sabe bem ao que vai e o que pretende. Só que nem sempre a vontade alcança. “Querem comprar, mas têm dificuldades”, explica a proprietária. Os autores mais procurados são nomes inevitáveis como Fernando Pessoa, Herberto Helder, Mário Cesariny ou Ana Hatherly, mas também autores contemporâneos como Manuel de Freitas, Ana Luísa Amaral, Filipa Leal, Vasco Gato, Nuno Moura, Rui Caeiro ou Jorge Sousa Braga.

Desde a poesia dos trovadores até aos mais desconcertantes estilos poéticos da modernidade, há muito por onde escolher. Títulos publicados por grandes grupos editoriais convivem, lado a lado, nas mesmas estantes, com outros de editoras mais pequenas e emergentes. Se alguma coisa não encontrar, Dina põe os pés ao caminho e resolve o problema.

E, no entanto, nunca a livraria lhe deu “lucro rigorosamente nenhum” e chega a pôr dinheiro seu, garante. “A livraria acaba por me canibalizar, porque eu estou quase condenada a continuar”, explica. “Já várias vezes estive para fechar, por dificuldades financeiras, mas acaba sempre por haver alguém que quase me intima a não o fazer”, acrescenta Dina Ferreira.

lucilia monteiro

“Abraça-me com força agora que vou morrer”

Um dos capítulos em que pensou terminar o percurso poético da livraria foi em janeiro de 2006, numa das piores fases económicas, com várias contas em atraso. Porém, uma onda de solidariedade desaguou com tal força na livraria que a proprietária nunca a esqueceu. “Enviei um e-mail aos clientes a informá-los de que iria fechar e no final pedia-lhes apenas que viessem comprar um último livro, terminando com um par de versos do Manuel de Freitas: ‘abraça-me com força / agora que vou morrer’”, relembra.

“Passado uma hora, já tinha várias pessoas a entrar para comprar livros. E foi dessa forma que consegui, naquela altura, pagar as contas e a asfixia financeira desapareceu no momento”, conta a dona deste estabelecimento tão particular, onde se encontram também algumas obras de teatro, mas cujas vendas são residuais. Representam apenas à volta de 1%.

As tormentas estão longe de ter desaparecido da Poetria. “Não sei até quando pode resistir, sinceramente. Está em falência técnica há imenso tempo e continua a existir muito devido à força que me dão”, vinca Dina, que continua a enfrentar as dificuldades sempre com um sorriso nos lábios.

“É como ir a casa dos avós”

Entre os muitos clientes que por ali passam, alguns deles são bem conhecidos, como o escritor Valter Hugo Mãe, o diseur Pedro Lamares, bem como os atores João Reis e Sara Barros Leitão. Para esta jovem atriz de 26 anos a Poetria é um “oásis” e é a “grande relação de amor” que mantém desde os 14 anos por um espaço com livros. “É como ir a casa dos avós. Traz-se sempre alguma coisa”, diz, entusiasmada.

Para João Reis, de 52 anos, cliente regular sempre que se desloca ao Porto, esta livraria “é um exemplo de resistência notável”.

Por tudo isto, a Poetria é muito mais do que uma livraria. É um lugar de afetos, de amizade e de partilha. Um refúgio confortável onde o encanto da poesia abre múltiplas possibilidades. Ali, os livros não se vendem. Sentem-se. “A poesia é uma linguagem misteriosa, mas que nos permite tudo. Quer se esteja triste ou alegre, um bom poema é sempre enriquecedor”, conclui Dina Ferreira. Assim é. Assim seja.

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