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“Os Lusíadas” revisitados: se os olhos não leem, o Palácio do Bolhão mostra

D.R.

O poema épico de Luís de Camões é transposto para o palco do Palácio do Bolhão, no Porto, e pretende dar a conhecer uma obra que muitas vezes pode ser um “Adamastor” para os mais jovens

André Manuel Correia

É a obra fundamental da literatura portuguesa. Todos a conhecem ou, pelo menos, já ouviram falar dela. “Os Lusíadas”, poema épico de Luís Vaz de Camões, são também sinónimo de portugalidade, bem como das aventuras, os medos e as façanhas logradas por um povo. Se razões não faltam para ser admirada, para muitos jovens pode ser também uma tormenta. De modo a enfrentar o adamastor do desconhecimento – porque “quem não sabe arte, não a estima” –, Beatriz Frutuoso e Mafalda Pinto Correia levam à cena, no Palácio do Bolhão, no Porto, a revisitação de uma obra com muito a dizer sobre os dias atuais. O espetáculo, pensado para o público escolar, estreia-se esta segunda-feira e pode ser visto até 3 de abril.

Mostrar e dar a conhecer “Os Lusíadas” é o desafio a que Beatriz e Mafalda, duas jovens atrizes, se propuseram quando decidiram partir para esta encenação. E a força humana permitiu-lhes – a elas e ao restante elenco, constituído também por Catarina Gomes, Manuel Nabais e Pedro Couto –, embora admitam que ainda hoje “criar artisticamente é difícil”.

Transpor integralmente toda a obra é uma tarefa hercúlea, mas sem ajuda dos deuses passam em revista todos os principais episódios e personagens (que contracenam com o próprio Camões), oferecendo uma panorâmica completa, com um olhar fresco de um clássico sempre contemporâneo.

“O público-alvo vem das escolas, porque ‘Os Lusíadas’ são dados [no programa curricular], mas ninguém lê, infelizmente. É preciso, pelo menos, mostrar-lhes”, explica Mafalda Pinto Correia, que em palco dá corpo ao próprio poeta e empresta a voz ao Adamastor.

Beatriz Frutuoso vinca que “uma das premissas foi não ocultar nenhum dos capítulos” estudados nas aulas. “O que nós nos atrevemos a fazer foi colocar o próprio Camões em cena para acompanhar o processo de escrita e a partir daí as cenas ganharem vida”, complementa acerca desta viagem até à história da literatura e cultura portuguesas.

“Optámos por ser uma mulher a fazer o Camões, porque nos queríamos focar no poeta. Não nos interessava tanto se era homem ou mulher”, conta Mafalda. “No entanto, descobrimos que ele tem uma energia e uma vibração muito masculina, mais do que estávamos à espera. Isso também faz com que a voz e corpo vão perdendo o seu feminismo”, frisa.

“Os Lusíadas” são uma obra transversal aos tempos, sempre com algo de atual para nos transmitir. Mas o que nos pode dizer este épico acerca dos dias tempestuosos que hoje vivemos? Na opinião de Beatriz Frutuoso, há desde logo “o próprio confronto com as culturas novas que nós não conhecemos”. Para a atriz e coencenadora da peça, é necessário, atualmente, “reconhecer valor no outro e não inferioridade”, porque, acredita, “isso só torna o ser humano mais rico ainda, por ser tão diverso”.

Em declarações aos jornalistas, Mafalda Pinto Correia recupera uma passagem da obra: “Fazei, Senhor, que nunca os admirados/ Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, / Possam dizer que são pera mandados, / Mais que pera mandar, os Portugueses”. “Parece que ainda temos de continuar a dizer isso à Alemanha. Muito alto”, acrescenta, entre risos.

O espetáculo poderá ser visto, mediante reserva obrigatória para escolas, de segunda a sexta-feira, às 10h30 e às 15h. Aos sábados há sessões para o público geral, pelas 16h e as 21h30.