Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Na rede da literatura

As sessões do Festival Literário da Madeira foram sempre bastante concorridas

FOTOS FLM/Direitos Reservados

Mesmo sem a cabeça de cartaz Svetlana Alexievich, o Festival Literário da Madeira cumpriu a promessa de levar um conjunto de animados debates ao Teatro Baltazar Dias, no Funchal

Os deuses da ventania, reunidos em concílio, devem ter decidido que não seria neste ano que Svetlana Alexievich, Prémio Nobel de Literatura em 2015, viria ao Funchal para falar sobre a sua obra e tentar responder à pergunta: “Haverá algo mais assustador do que o homem?” Depois de três tentativas falhadas de aterrar na ilha, devido às más condições atmosféricas, seguidas de regressos a Lisboa, viu-se forçada a desistir de participar na sétima edição do Festival Literário da Madeira, que decorreu entre 15 e 18 de Março. Em mensagem lida pelo director do encontro, Francesco Valentini, a escritora bielorrussa lamentou a impossibilidade de estar presente, mas abriu as portas a uma participação futura: “Queria muito estar aí, digo-o do fundo do coração. Espero que nos possamos encontrar, um dia, nessa Madeira tão bela quanto inacessível.”

As dificuldades no acesso aéreo à ilha, durante a semana passada, afectaram outros participantes e parte da comitiva de jornalistas, mas a organização foi expedita a encontrar soluções e alternativas que permitiram cumprir o programa de debates, realizados no palco do Teatro Municipal Baltazar Dias, diante de uma plateia quase sempre cheia, ou muito bem composta, mesmo durante os dias de semana.

O moderador Fernando Alves, entre Ondjaki e Pepetela

O moderador Fernando Alves, entre Ondjaki e Pepetela

FLM/Direitos Reservados

Na quarta-feira, com moderação do jornalista Fernando Alves, uma das vozes mais carismáticas da rádio portuguesa, a discussão de ideias teve início com dois escritores angolanos: Pepetela e Ondjaki. O primeiro pertence à chamada “geração da Utopia”, que “fez a guerra, ganhou a independência” e tem estado no poder. O segundo é um representante da nova vaga da literatura angolana, observador atento das metamorfoses em curso no país. “Pertenço a uma geração que andou ocupada em sobreviver e que só agora começa a ser uma geração do fazer”, resumiu Ondjaki, que lançou durante o festival o seu último livro: “O Convidador de Pirilampos” (Caminho), com ilustrações de António Jorge Gonçalves.

Numa conversa solta, os dois escritores falaram sobre o que os une, muito mais do que sobre o que os separa. Faltou, talvez, o copo de vinho que desenredaria ainda mais a conversa, nas palavras do mais novo. Pepetela, que maravilhou o público com a história de como começou um romance a partir de um comunicado para a rádio (“Peguei numa das frases, isolei-a, depois fui por aí fora e nasceu o romance”), haveria de rematar a questão da importância de se olhar para trás, quando se quer compreender um país, com uma sentença que parece um aforismo: “Quem tenta esquecer o passado, parte a cabeça na porta do futuro.”

O pernambucano Marcelino Freire à conversa com Valter Hugo Mãe, com moderação de Maria João Costa

O pernambucano Marcelino Freire à conversa com Valter Hugo Mãe, com moderação de Maria João Costa

FLM/Direitos Reservados

O segundo debate, na quinta-feira, foi um dos mais vivos e participados. Com moderação de Maria João Costa, estiveram em palco dois amigos: Marcelino Freire, pernambucano que vive há muitos anos em São Paulo, e Valter Hugo Mãe, romancista e poeta português que escreveu o prefácio ao livro “Nossos Ossos” (Nova Delphi), de Marcelino, lançado durante o festival. Valter explicou que anda sempre com cadernos, onde acumula todo o tipo de apontamentos, para lutar contra a sua desarrumação inata: “Se não me organizo, morro.” Todas essas anotações, que são essenciais, não chegam a comparecer na obra final, porque “o livro é um organismo que depende de uma energia que se cria entre mim e ele, não tolera a presença de mais nada”. Ao arquivar os cadernos, depois do romance concluído, acontece-lhe descobrir ideias que não foram aproveitadas, mas que talvez até fossem melhores.

Já Marcelino Freire assume que escreve as suas histórias às cegas: “Só descubro o segredo do livro à medida que o vou escrevendo.” Parte sempre de uma ideia concreta, sem saber para onde ela vai. “Para ser sincero, às vezes a ideia atrapalha muito. Tento esquecer-me dela enquanto escrevo.” Ao contrário de Valter, não faz anotações, porque as perde. E garante que só publica um texto quando a leitura do mesmo, quase sempre em voz alta, o deixa emocionado: “Eu rezo o meu livro. Leio como quem reza, a ver como soa. Depois, deixo-o ir para o leitor. Mas o primeiro leitor de todos sou eu mesmo. Eu e os meus fantasmas.” No final da sessão, Marcelino declamou um conto curto, poema em prosa, intitulado “Trabalhadores do Brasil”, fazendo vibrar o público, que aplaudiu com entusiasmo.

No sábado, último dia do festival, houve três sessões. A primeira, com Viriato Soromenho-Marques e Frederico Lourenço, foi bastante teórica. VS-M, professor universitário de Filosofia e História das Ideias na Faculdade de Letras de Lisboa, reflectiu sobre o lugar do medo no mundo contemporâneo, partindo de três teses que convocam ideias de pensadores como Thomas Hobbes, autor de “O Leviathan”, e James Madison, quarto presidente dos EUA (“um homem de grande craveira intelectual, que deve estar aflito com a presença de um analfabeto sem carácter no lugar que um dia ocupou”). Por seu lado, Frederico Lourenço, Prémio Pessoa 2016, abordou o trabalho em que se tem empenhado nos últimos tempos: a tradução da “Bíblia”, a partir dos textos originais em grego. Entre outros aspectos interessantes, referiu o facto de a palavra “liberdade” só ocorrer 11 vezes em todo o Novo Testamento, e nunca em falas atribuídas a Jesus. Na verdade, a palavra tem uma conotação mais negativa, nas cartas de S. Paulo, do que por exemplo a palavra “medo”. Além disso, foi dos pouco intervenientes a abordar directamente o tema do festival (“Literatura e Web”) ao assinalar que S. Paulo, “mesmo sem e-mail, nem Twitter”, escrevia ao seus interlocutores em Roma ou Corinto com a esperança de os conhecer em pessoa, “tal como eu espero conversar cara a cara com algumas pessoas do Funchal que são minhas amigas no Facebook, e com quem nunca estive”.

Na sessão de encerramento, o Prémio Pulitzer Adam Johnson dialogou com Miguel Sousa Tavares, ambos instigados pelas perguntas de Paulo Moura

Na sessão de encerramento, o Prémio Pulitzer Adam Johnson dialogou com Miguel Sousa Tavares, ambos instigados pelas perguntas de Paulo Moura

FOTOS FLM/Direitos Reservados

A autora brasileira Tatiana Salem Levy, nascida em Lisboa, onde vive agora, conversou depois com a escritora irlandesa Eimear McBride sobre linguagem. Será esta uma prisão? Para Tatiana, antes da linguagem há o espanto, o susto. “O espanto é o invisível, o que não tem explicação. E depois vem a linguagem, uma tentativa de nomear o inominável.” A função da literatura será então a de “rasgar” a linguagem: “Abre-a pelo avesso, elimina as grades, sai da tal prisão.” McBride lembrou o longo caminho do seu romance de estreia, “Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada” (Elsinore), de texto recusado por muitas editoras, durante nove anos, até ser aposta de uma pequena chancela, culminando num quase unânime reconhecimento crítico e vários prémios literários importantes. Quando o debate incidiu sobre a necessidade do feminismo nos dias de hoje e as ameaças de um político como Donald Trump, não teve dúvidas quanto ao papel dos escritores: “Devemos assinalar a nossa recusa e lutar com todas as nossas forças para que a sociedade não volte para trás. Isto é, para que não seja necessário voltar a combater os mesmos combates, por tudo aquilo que considerávamos já adquirido.”

A sessão final contou com a presença de um Prémio Pulitzer, Adam Johnson, autor de “Vida Roubada” (Saída de Emergência), um romance sobre a Coreia do Norte, e Miguel Sousa Tavares, um dos escritores portugueses com mais livros vendidos na última década e meia. Moderados exemplarmente pelo jornalista Paulo Moura, coincidiram nas preocupações com o primado da tecnologia nas sociedades modernas. Para Johnson, ela configura mesmo uma ameaça para a narrativa: “Hoje as pessoas têm acesso a tudo nos telemóveis. Mas será que aproveitam para aprenderem mais sobre o mundo ou para ler Shakespeare? Não, jogam Candy Crush.” Por outro lado, o Google e outras ferramentas de pesquisa, quando bem utilizadas, podem ser um poderosíssimo instrumento de trabalho. “Não há nada que eu tenha descoberto sobre a Coreia do Norte, talvez o país mais fechado do mundo, que qualquer pessoa não possa descobrir se investigar o assunto obsessivamente, como eu fiz, durante sete anos.” Conhecido pela sua aversão às redes sociais, Sousa Tavares alerta para outro perigo do excesso de informação em que vivemos imersos: “Nunca tanta gente soube tão pouco sobre tantas coisas.” Confessando-se um “optimista preocupado”, o autor de “Equador” vê na ficção literária a que se dedica uma forma de “ordenar o caos”, uma “defesa contra a loucura”.

Ao cair do pano sobre a edição deste ano do Festival Literário da Madeira, Francesco Valentini anunciou já o tema para 2018: “Literatura e Jornalismo, a palavra que prende e a palavra que liberta”. Um mote perfeito para trazer finalmente Svetlana Alexievich, exemplo maior de uma literatura que nasce da investigação jornalística, assim o permitam os caprichosos ventos do Funchal.