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Svetlana Alexievich: “A arte nasce sempre da vida”

foto JOEL SAGET/AFP/Getty Images

Prémio Nobel da Literatura em 2015, é a cabeça de cartaz do Festival Literário da Madeira (de 14 a 19 de março). Antes da sua primeira vinda a Portugal, a escritora bielorrussa recebeu-nos no seu apartamento de duas assoalhadas, em Minsk. À boa maneira eslava, sentámo-nos na cozinha e falámos dos seus livros corais, cheios de vozes, uma tentativa de captar a “substância do tempo”

À hora combinada para a entrevista, uma mulher na casa dos 60 anos entra no Sprava, um café moderno na Masherova Prospekt, em Minsk, ainda vazio ao fim da manhã. Em voz alta, pergunta: “Está aqui alguém para entrevistar alguém?” Na mesa do canto, sob um foco de luz intimista, respondemos com um sinal de mão à pergunta, formulada de forma bizarra para quem está habituado a viver em democracia (mas não tão estranha no contexto de uma ditadura como a de Alexander Lukashenko, o homem que lidera a Bielorrússia desde 1994). A mulher aproxima-se e murmura: “Quem é que vão entrevistar?” Respondemos baixinho: “Svetlana Alexievich.” Foi o equivalente à revelação de uma senha num filme de espionagem. “Venham comigo”, ordenou a mulher.

Já na rua, enquanto pisava com as suas botifarras a neve derretida que sobrara do nevão da véspera, apresentou-se. “Sou uma amiga da Svetlana há mais de trinta anos. Ela passou uns dias na sua casa fora da cidade, apanhou frio, constipou-se, e por isso é melhor não sair.” Ao caminharmos pelas ruas cinzentas, conta que há umas semanas, na Feira do Livro de Minsk, centenas de pessoas rodearam a escritora, pedindo-lhe autógrafos. Os livros de Alexievich nunca foram publicados na Bielorrússia, mas os seus leitores conseguem arranjá-los em russo, na vizinha Lituânia. A ministra da Informação, em visita a um stand mesmo ao lado, nem se dignou olhar para o burburinho. “É a atitude do Governo: ignorá-la, virar-lhe as costas.” Ao fim de três horas a assinar livros, quando teve de abandonar a Feira, as pessoas aplaudiram-na de pé, relembra a amiga, emocionada.

O bloco de apartamentos em que a escritora vive — denso monólito de betão, paralelo ao rio Svislach — podia perfeitamente constar num catálogo dedicado à arquitetura soviética. A entrada é estreita, apertada. O elevador, minúsculo. No sétimo andar, abre-se uma porta e surge o rosto sorridente de Svetlana. Logo no vestíbulo, enquanto trocamos os sapatos por chinelos, explica que tem o apartamento, apenas duas assoalhadas, numa desarrumação porque está prestes a mudar-se para uma casa maior. “Fica na outra margem, mas vai ter exatamente a mesma paisagem. Fiz questão disso. Gosto muito de espreitar pela janela e ver esta curva do rio.”
Na sala, acumulam-se pilhas de volumes no chão e em cima de uma poltrona. “São as edições dos meus livros, em várias línguas, que chegaram nas últimas semanas”, explica. Desde que venceu o Nobel da Literatura, em 2015, pela sua “escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”, disparou o número de traduções dos cinco volumes que compõem o seu ciclo “Vozes da Utopia”, no qual traça um retrato implacável do “homem vermelho” e da experiência comunista na URSS, em momentos cruciais da História do século XX: a II Guerra Mundial; o conflito militar no Afeganistão; o acidente nuclear em Chernobyl; e a queda do regime, no início dos anos 90. Inspirada na técnica desenvolvida por outro autor bielorrusso, Ales Adamovitch, a escrita de Svetlana nasce de um esforço hercúleo de recolha e fixação de testemunhos reais. Para cada livro, Alexievich entrevista centenas de pessoas, transcreve muitos milhares de páginas, e depois reduz ao osso cada uma das histórias, cada um dos depoimentos. Com o seu efeito de acumulação, o coro das vozes que narram experiências humanas duríssimas, muitas delas no limite do imaginável, torna-se simplesmente avassalador.

Exíkio. Por motivos políticos, Svetlana Alexievich viveu fora da Bielorrússia entre 2000 e 2011, encontrando refúgio em Paris, Gotemburgo e Berlim

Exíkio. Por motivos políticos, Svetlana Alexievich viveu fora da Bielorrússia entre 2000 e 2011, encontrando refúgio em Paris, Gotemburgo e Berlim

foto JOEL SAGET/AFP/Getty Images


Em “O Fim do Homem Soviético” — o seu último livro, mas o primeiro editado em Portugal (pela Porto Editora, sendo que os restantes foram, ou vão ser, publicados pela Elsinore) — muitas das conversas de Alexievich acontecem à mesa da cozinha. “É uma tradição russa. As revoltas e as revoluções eram pensadas no sítio onde se come, onde as pessoas estão mais à vontade, são mais honestas, mais abertas.” Importa assinalar o facto porque é na cozinha que a conversa decorre, junto a um frigorífico vermelho coberto de ímanes. Durante quase duas horas e meia, as perguntas são traduzidas para russo por uma excelente intérprete ucraniana (Lyudmyla Adamenko, que também acompanhará Svetlana no Funchal, onde a escritora fará a intervenção de abertura no Festival Literário da Madeira, no próximo dia 14) e as respostas, no russo cantado de Alexievich, convertidas em português. Antes disso, Svetlana fez chá verde e abriu uma caixa com rebuçados, chocolatinhos, bombons.

Quando entrevista alguém pela primeira vez, para um dos seus livros, qual costuma ser a pergunta inicial?
Eu não lhes chamo entrevistas. São outra coisa. Obedecem a outras regras, diferentes do jornalismo. Dependem sempre da pessoa que tenho à minha frente. Encontro-me com ela, vejo em que situação vive, e só então começamos a conversar. Preciso de entender aquele ser humano: se é feliz ou infeliz, o que leu, que tipo de amigos tem, como está no momento em que falamos. Posso demorar horas a chegar ao assunto que verdadeiramente me interessa. Se a mulher perdeu o marido, não abordo logo isso. Espero que ela comece a explicar como é viver sem o ente querido. E nunca tenho pressa. Posso falar sete ou oito vezes com a mesma pessoa. Falo as vezes que forem precisas. Respeito o tempo que algumas histórias, sobretudo as mais terríveis, necessitam. É um trabalho que une muitos fios, como uma tapeçaria.

Ao fim de tantos anos e milhares de testemunhos recolhidos, tornou-se mais fácil perceber se a pessoa com quem conversa pode ter uma história forte para contar?
Isso é muito intuitivo. Sempre foi e continua a ser. Eu procuro pessoas com níveis de sentimento invulgares. Mas não depende apenas do que viveram, porque nem todas conseguem verbalizar as suas experiências. No meu livro sobre o sofrimento das mulheres soviéticas na II Guerra Mundial (“A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”) falei com uma militar que recebeu uma das mais altas condecorações, equivalente à de Herói da União Soviética. Ela foi brava, ela foi muito corajosa no campo de batalha, só que não era capaz de contar o que viveu com o mínimo de emoção. Dizia-me: fiz isto, fiz aquilo, substituí o soldado que estava na metralhadora, salvei dois feridos. Falava como um homem. Isso para mim não tinha interesse. Já ali ao lado, estava uma lavadeira, pessoa muito simples, mas que falava com os seus sentimentos. Explicou-me como percebiam o horror da guerra pelas marcas deixadas na roupa. Se havia um casaco sem manga, é porque alguém perdera um braço. Uma camisa com um buraco no peito significava um tiro no coração. E disse-me esta frase espantosa: “Nós lavávamos a roupa dos homens com as nossas lágrimas.” É isto que me interessa. É isto que procuro.

Essa visão feminina da guerra estava silenciada e esquecida. Quis fazer do seu livro uma forma de resgate, uma reposição da verdade histórica?
Durante 40 anos, tudo isto ficou na sombra. Depois da guerra, os homens assumiram os louros da vitória. Ou seja, roubaram-na às mulheres, que sofreram tanto ou mais do que eles. Ao regressar à vida civil, elas encontraram uma sociedade onde havia poucos homens. Os ex-soldados eram vistos como heróis; mas as mulheres que combateram, não. Olhavam-nas com desconfiança. Chamavam-lhes coisas feias. Por isso, muitas delas ocultavam o facto de terem participado na guerra e até escondiam as medalhas, para poderem ter hipóteses de casar. Muitas fizeram-no por uma questão de sobrevivência. A sua história ficou por contar durante décadas. E elas queriam contá-la, mas não havia ninguém para ouvir. Quando por fim me lancei à tarefa, nos anos 80, muitas delas disseram-me: “Porque demoraste tanto a vir ter comigo?”

Para escrever esse livro, o seu primeiro, pediu um empréstimo de cinco mil rublos, comprou um gravador, e viajou pelo país a recolher depoimentos. No início dessa jornada alguma vez imaginou que viria a ser um trabalho tão extenso, um mosaico tão vasto, com centenas de vozes reunidas?
Não. Mas acabei por falar com mais de mil pessoas, embora só 300 apareçam no livro. Descobri que não consigo trabalhar de outra forma. E é por isso que a escrita dos meus livros exige sete a dez anos. No início, junto quantidades imensas de material. Só depois é que começo a selecionar, a reduzir ao essencial, a encontrar as vozes.

E como é feito esse processo de edição? Como decide o que fica e o que sai?
O material em bruto já contém a sua ordem, já a procura. Então eu percebo que um determinado depoimento vai dar um capítulo breve e outro talvez dê um texto maior. O coro nasce por si mesmo. A seleção acontece naturalmente.

O que faz com o material que é excluído? Desaparece? Deita-o fora? Pode ainda vir a ser usado?
Não. Não o guardo. Para quê guardar? Sobre a guerra, por exemplo, eu já disse tudo o que tinha a dizer. O que sobrou, sobrou. Imaginemos um escultor como Rodin. Ele pega num pedaço de pedra e começa a parti-la, a tirar aquilo que está a mais. No fim, deita fora os restos. Não precisa deles porque já fez a sua escultura.

O material de Rodin era a pedra. Qual é o seu? É o tempo? É a vida das pessoas?
São os sentimentos das pessoas. Aquele termo efémero. Eu não sou historiadora. Tento escrever a história da alma humana.
Nascida em 1948, cresceu na URSS do pós-guerra. Como foi a sua infância?
Nas aldeias eslavas havia quase só velhos e mulheres. A maioria dos homens tinha morrido durante a guerra. As mulheres encontravam-se e falavam sobre os maridos que já não estavam, sobre a guerra e o sofrimento delas. Para nós, crianças, elas pareciam-nos muito velhas, mas elas não eram velhas, eram mulheres novas. Isto passava-se na Bielorrússia, mas na Ucrânia era a mesma coisa. A minha mãe e a minha avó eram ucranianas. Quando eu lá ia, punham as camisas bonitas, bordadas, mas as conversas eram iguais. Sempre à volta da morte. Cresci a ouvir isso. Era muito duro, não dava para esquecer.

Método. Para cada livro, Svetlana Alexievich entrevista centenas de pessoas, num processo de escrita que lhe toma entre sete e dez anos

Método. Para cada livro, Svetlana Alexievich entrevista centenas de pessoas, num processo de escrita que lhe toma entre sete e dez anos

foto JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images

Muitas dessas histórias eram decerto semelhantes às que reuniu, mais tarde, no seu primeiro livro. Gostava que falasse um pouco das dificuldades que teve em publicá-lo.
Quando o escrevi, comecei a andar pelas editoras a querer que fosse publicado. E eles diziam-me: nós não podemos aceitar isso, porque a forma como descreve a grande vitória soviética é feia, horrível, e nós queremos demonstrar que foi algo bonito, glorioso. Não conseguiam compreender uma visão diferente daquela realidade. Por exemplo, a história de uma mulher cujo trabalho consistia em atravessar o campo de batalha, verificando quem ainda estava vivo depois do combate. “Eu olhava para eles e eram todos tão bonitos, tão jovens”, disse-me. E eu perguntei: “Os nossos ou os alemães?” Resposta dela: “Todos. Os nossos e os alemães. Eram todos belos e novos, ali deitados, a olhar para o céu.” O censor, na altura, perguntou-me: “Como é isto possível? Ela estava com pena dos alemães?” Ele não conseguia perceber que se pudesse ter pena de uma vida desperdiçada.

O segundo livro (“As Últimas Testemunhas”, ainda não traduzido em Portugal) volta a abordar a II Guerra Mundial de um ângulo raro. Põe-se no lugar das crianças.
Esse é o meu livro mais duro, o mais pesado do ponto de vista psicológico. Ouvi coisas tremendas. Os alemães iam aos orfanatos russos para tirarem sangue às crianças e o darem aos seus feridos. E as crianças saltavam de alegria quando os viam, porque eram homens adultos. Diziam: “Vêm aí os pais...” Coisas terríveis.

Essas testemunhas contam as suas histórias décadas depois dos acontecimentos. Como é que garante que as recordações são fidedignas?
Não é possível garantir. A memória não é estática. Altera-se, move-se. O mesmo facto é descrito de uma maneira se só passaram dez anos; de outra, se já passaram vinte; e ainda de outra, se passaram trinta. Eu tenho sempre consciência de que lido com versões diferentes da realidade. Por exemplo, nós estamos agora sentados aqui, nesta mesa, nesta cozinha, e depois cada um de nós vai ter a sua própria história sobre aquilo que se passou. Então, para conseguir que uma história seja o mais verídica possível, eu tenho de juntar todas as versões diferentes que consiga. Imaginemos uma batalha. A mulher que pilotava aviões e lançava bombas até pode ter matado imensas pessoas, mas não viu nenhuma delas, não sabe o que é um cadáver. Já a mulher que disparava a metralhadora olhou nos olhos o inimigo, antes de o matar, mas ainda assim havia uma distância. Ao contrário do soldado que luta corpo a corpo, espetando a baioneta na garganta do inimigo. Se juntarmos todas estas experiências, chegamos à verdade possível.

A verdade como resultado do cruzamento, ou da sobreposição, de verdades parciais?
A verdade possível. Nunca absoluta. Porque a verdade é uma coisa muito complicada. Desde sempre. Quando lemos Plutarco, pensamos: ele viu isto ou alguém lhe contou? Será que foi mesmo assim? A que imperador obedecia?

Depois de duas obras sobre a II Guerra Mundial, publicou em 1991 um livro sobre o conflito no Afeganistão (“Rapazes de Zinco”; acaba de ser editado pela Elsinore). A principal diferença é que pôde colher informações em primeira mão, esteve lá.
Sim. De início, o discurso oficial garantia que se tratava de um efetivo de tropas pequeno e que estávamos lá para ajudar o povo afegão, reparar estradas e construir escolas, esse tipo de coisas. Os soldados que regressavam normalmente não falavam. Então decidi ir ao terreno, ver com os meus próprios olhos. E verifiquei que se tratava de uma guerra completamente diferente, a todos os níveis, da ideologia ao armamento. As mulheres do primeiro livro diziam-me que estavam dispostas a morrer pela pátria. Não queriam morrer, claro, ainda mal tinham começado a viver, muitas delas eram adolescentes, mas estavam dispostas a sacrificar-se porque sabiam a razão maior do sacrifício: defender a sua terra. Os rapazes que foram para o Afeganistão, pelo contrário, ignoravam quase tudo: não sabiam em nome de que valores lutavam, nem porque tinham de morrer. Sabiam apenas que estavam noutro país, com outra cultura, impondo-lhes as nossas regras e as nossas leis.

O livro foi a julgamento, em 1992, quando algumas das pessoas entrevistadas, e uma organização de mães de soldados mortos, a acusaram de distorcer os relatos com o objetivo de manchar a honra do exército soviético. Um julgamento que de resto documentou exaustivamente (transcrevendo pareceres, notícias, autos, transcrições das audiências) e anexou ao próprio livro, em edições mais recentes.
Eu estive para ser condenada. Felizmente não fui, porque o julgamento aconteceu durante uma janela de democracia e portanto muitas pessoas chegaram-se à frente para me defender. Hoje provavelmente já não seria assim. Na altura, Gorbatchov dizia que a guerra do Afeganistão era uma vergonha, mas Vladimir Putin, numa conferência há pouco tempo, já veio dizer outra vez que se tratou de uma guerra heroica.

No discurso da atribuição do Nobel, afirmou que a Rússia é “um país sem memória e um espaço de total amnésia”. É contra esse vazio que a sua escrita luta?
Sim. Mas é uma luta difícil. O atual poder russo voltou a criar mitos heroicos em torno das guerras do passado. Não lhes interessa mostrar a realidade, mas sim alimentar os seus sonhos de grandeza. Infelizmente para eles, os meus livros já se tornaram bastante famosos e não conseguem proibi-los, mas é evidente que fazem tudo para que não existam livros deste género.

Em “Vozes de Chernobyl”, de 1997, publicado onze anos após a explosão na central nuclear ucraniana, abordou outro dos acontecimentos traumáticos da história da URSS, de certa forma um prenúncio do seu fim. Tratou-se, como sublinha no seu livro, de um facto sem precedentes. Guerras já houve muitas ao longo dos séculos. Mas um acidente desta magnitude, e com este tipo de consequências, não. Agora que passaram mais de trinta anos, será que já conseguimos entender verdadeiramente o que aconteceu ali?
Acho que não. Lembro-me de falar com um dos homens que sobrevoaram o reator, de helicóptero. Ele telefonou-me. Disse-me para eu ir ter com ele rapidamente, porque estava moribundo. Expliquei-lhe que não tinha tempo naquela altura. Ele insistiu: se não vier agora, já não me vai encontrar. Recebera uma dose de radiação elevadíssima. Quando fui ter com ele, parecia um esqueleto. Disse-me que na altura do acidente não percebeu o que estava a enfrentar, ninguém percebeu, e que talvez só aqueles que vierem depois de nós conseguirão entender. Eu estive há pouco tempo em Fukushima, no Japão, onde também houve um acidente, e a perplexidade é a mesma. As pessoas não percebem nada, os cientistas não sabem o que fazer. É difícil lidar com uma ameaça invisível, sem cheiro, sem forma. Não estamos sensorialmente equipados para uma coisa assim. Quando se deu a explosão em Chernobyl, houve fumo preto, mas depois o fumo desapareceu e à noite via-se uma luz cor-de-rosa. As pessoas vinham de todo o lado, traziam as crianças para lhes mostrar aquela luz cor-de-rosa.

Num dos textos do livro explica justamente como pode haver beleza, uma beleza estranha, no horror.
Sim. Existe. Mas sobretudo ninguém estava preparado para aquilo. As pessoas ficaram completamente fora de si mesmas naqueles dias. Os velhotes não percebiam por que razão os soldados os obrigavam a lavar a lenha, a lavar as estradas, a enterrar a comida. E convém compreender que na Bielorrússia o acidente ainda não faz parte da História. Nós continuamos a viver com isto. Ainda consumimos hoje em dia, através da água, uma baixa dose de radiação. É uma história que continua. Eu vivi onze anos fora do país, por razões políticas, e quando voltei muitos dos meus amigos tinham morrido, de cancro. É muito duro. Os bielorrussos foram o povo que mais sofreu. Durante quatro dias, depois da explosão, o vento trouxe a radiação para cá e acabámos por sofrer mais do que os ucranianos. Por isso, os bielorrussos costumam dizer que são caixas negras humanas, onde fica gravada informação para o futuro.

O seu livro mais recente, “O Fim do Homem Soviético” [2013], foi o primeiro a ser traduzido em Portugal. Fecha o ciclo de cinco obras a que chamou “Vozes da Utopia” e é também uma síntese do que foi a vida na URSS, bem como do que se seguiu à desagregação dessa sociedade.
Sim. Eu quis descrever um império que caiu, mas do ponto de vista das pessoas que lá estavam, as que assistiram às mudanças e permaneceram. Como são essas pessoas? O que eram antes e o que se tornaram depois?

Como sempre, a sua abordagem é transversal. Ouviu novos e velhos, agentes da mudança e saudosistas que continuam a idolatrar Estaline, vítimas da repressão soviética e algozes, dissidentes e operacionais do regime comunista, pessoas cheias de esperança e histórias de suicidas.
É um retrato coletivo onde cabe tudo. Até a desilusão com o que não aconteceu. Lembro-me de como éramos românticos nos anos 90. Pensávamos: vamos mandar embora os comunistas e criar aqui um paraíso de liberdade. Infelizmente, isso não aconteceu. No fim de contas, quem tinha razão era o escritor Shalamov, na discussão que manteve com o Soljenítsin. O Soljenítsin dizia que depois de sobreviver ao gulag, a pessoa sai livre porque o campo fortalece o espírito. O Shalamov dizia que não, não é assim. Mesmo quando uma pessoa sai do campo de concentração, o campo de concentração continua dentro dela ainda durante muito tempo. Shalamov é que estava certo. Nós andávamos pelas ruas, aos milhares, a gritar liberdade, liberdade, liberdade, mas não sabíamos o que era a liberdade. Resultado: foram os bandidos a tomar conta de tudo, os oligarcas. Ainda temos um caminho longo a percorrer até à verdadeira liberdade.

O que é que a história oral que aperfeiçoou nos seus livros permite dizer que a História oficial não diz?
Na minha investigação, li centenas de livros sobre Chernobyl e verifiquei que cada um retrata apenas uma parte da situação real, limitada pela perspetiva do seu autor. Eu tento ultrapassar essas limitações. E para isso, inspirada pelo exemplo do meu mestre, Ales Adamovitch, criei um método que me permite criar um romance de vozes, uma dimensão coral, uma estrutura complexa em que a arte nasce sempre da vida.

Mas desse coro de vozes, muito diferentes umas das outras, emerge como que uma voz uniforme ao longo do livro. Como é que consegue isso?
A música para mim tem um papel muito importante. É como se o livro fosse uma sinfonia. Eu digo sempre: até encontrar o som certo, a melodia, não sei sobre o que vai ser o livro.

Nunca escondeu as suas opiniões críticas sobre Vladimir Putin ou sobre o regime ditatorial do Presidente Lukashenko, na Bielorrússia. De que modo é que o seu posicionamento político afeta a sua vida?
É simples: o Governo e as autoridades fazem de conta que eu não existo. Não me deixam ir à TV, nem a lado nenhum. E os meus livros não são editados na Bielorrússia. Mas as pessoas trazem para cá os cinco volumes que foram publicados em russo.

Nem o facto de ganhar o Nobel lhe deu outro estatuto?
O povo bielorrusso recebeu a notícia com grande entusiasmo. Saíram para a rua e beberam todo o champanhe da cidade. Sentiram-se orgulhosos. E agora as pessoas vêm ter comigo. Os jovens agradecem-me. Claro que o Lukashenko não gosta disso, mas não consegue proibir.

De que forma é que o prémio mudou o seu dia a dia?
Passei a viajar mais, claro, mas fora isso continuo a ter a vida simples que tinha. Não deixo que isto me suba à cabeça. Sou exatamente a mesma pessoa que era antes do Nobel. Há pouco tempo, encontrei-me com a secretária permanente da Academia Sueca [Sara Danius] e ela disse-me: “Svetlana, tu pelo menos aí em casa, por baixo do cobertor, deves pensar ‘Ah, ganhei o Nobel!’”. Mas não, não penso.

Depois dos anos de exílio, voltou a Minsk. Agora que pode ir para onde quiser, porque continua a morar aqui?
Eu não quero viver no estrangeiro. Tenho aqui a minha neta. É aqui que quero estar. Além disso, para o meu trabalho, preciso de estar perto das pessoas sobre as quais escrevo.

O seu Nobel foi muito discutido por ser o primeiro, em muito tempo, a distinguir um não-ficcionista. Mais discutido ainda foi o do ano passado, para Bob Dylan. O que lhe pareceu essa escolha?
Pareceu-me bem. Acho que a Academia Sueca está a conseguir, com as escolhas recentes, alargar as fronteiras da literatura. Já não se limita às formas clássicas. E isso é bom. Estou aliás muito curiosa para saber quem vai ganhar este ano... [sorriso]

Está neste momento a preparar um livro sobre o amor, uma questão que já atravessava os outros livros, mesmo os mais trágicos, sobre Chernobyl ou a guerra. O que a atrai neste tema?
O facto de constituir uma dimensão essencial do ser humano, ligada a um dos seus principais impulsos: a tentativa de ser feliz.

Como é que gostaria de ser lembrada?
Quando já estiver lá no outro mundo? Não sei. Não sei como vai ser o depois, porque o mundo está a mudar muito depressa. Com a evolução tecnológica, o que era importante para uma geração pode já não ser para a seguinte. Portanto, não sei. Mas pelo menos esforcei-me por fazer o meu trabalho de forma honesta. E ainda espero ter tempo para escrever um livro sobre a velhice. Penso nisso muito a sério, porque nos foram proporcionados pelo menos mais 25 anos de vida útil. Antigamente, as pessoas morriam cedo, aos 50, 60 anos. Agora, temos bastante mais tempo. É algo novo para nós, algo que ainda não conseguimos processar.

Quer dizer que vai aproveitar uma parte desse tempo a mais para escrever sobre o tempo a mais.
Sim. É isso. Muito bem visto. Dizem que a geração da minha neta, que tem dez anos, já vai viver em média para lá de um século. Vamos ter de aprender a ocupar esses novos limites. E é esse o tema que me interessa mais: o tempo, a substância do tempo.

O Expresso viajou a convite 
do Festival Literário da Madeira

Artigo publicasdo na edição do EXPRESSO de 11 de março de 2017