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Que histórias contam os desenhos de Almada?

MULTIFACETADO O livro que propomos esta segunda-feira ilustra bem a visão sincrética que Almada Negreiros tinha do seu ofício

d.r.

Uma obra eminentemente gráfica convida-nos a ler, mas também a contar. Está de volta o génio de Almada Negreiros

O livro singular que hoje sugerimos é, bem vistas as coisas, a consequência lógica de duas multiplicidades: uma vem dos séculos dos séculos e diz respeito às inúmeras formas que existem de contar histórias; outra vem do século passado e refere-se ao ecletismo de José Sobral de Almada Negreiros (1893-1970). Eis, pois, uma obra que conta histórias de um modo original e, ao mesmo tempo, simples e de toda a vida: com bonecos. Bonecos que, frisemos, puxam pelo leitor.

FAC-SÍMILE. Parte da história “Era uma vez...” como foi publicada no semanário “Sempre Fixe”, em 1926

FAC-SÍMILE. Parte da história “Era uma vez...” como foi publicada no semanário “Sempre Fixe”, em 1926

foto HEMEROTECA DIGITAL

Almada assinou o “Manifesto Anti-Dantas” na qualidade de “poeta d’Orpheu, futurista e tudo”. E era mesmo. Em verso e prosa, em gravura e escultura, em pintura e desenho, deixou vasta obra que o país tem vindo a recordar, de momento com a âncora da exposição Uma Maneira de Ser Moderno, a visitar na Fundação Calouste Gulbenkian até 5 de junho. No plano editorial, estão previstos vários lançamentos, nomeadamente na Assírio & Alvim, chancela que deu à estampa estas “Três histórias desenhadas” e em cujo catálogo o artista está bem presente.

O título não podia ser mais elucidativo. Desenhos de Almada contam histórias, assumindo um protagonismo maior do que o de meras ilustrações de apoio a um texto. Publicados em 1926 no semanário satírico “Sempre Fixe” (muitos dos originais estão na mostra da Gulbenkian, que lançou em 1984 um livro com desenhos de Almada para aquela publicação), nasceram separados do texto. Em prefácio ao presente volume, a investigadora Sara Afonso Ferreira explica que a primeira das histórias surgiu num “caderno composto pelo autor que colocou, em cada folha, um desenho numerado (56 no total)”.

Desafio aos mais novos

Não é por acaso que só a narrativa inicial, “Era uma vez”, inclui o texto completo. A segunda, “O sonho de Pechalim”, nem sequer tem palavras. Almada queria que fossem os leitores do jornal a escolhê-las, tendo até havido um concurso infantil para esse efeito. Já em “A menina serpente”, que não saiu na íntegra no periódico, o autor incluía uma linha a mais em cada desenho, “para que o leitores pudessem acrescentar o que entendessem”, como explica numa nota Mariana Pinto dos Santos, responsável com Sara Afonso Ferreira pela edição deste volume.

CONCURSO Os leitores eram convidados a legendar os desenhos de Almada, participando na narração da história

CONCURSO Os leitores eram convidados a legendar os desenhos de Almada, participando na narração da história

foto HEMEROTECA DIGITAL

Juntas, combinaram os desenhos originais descobertos no espólio do autor com textos e ilustrações do “Sempre fixe”. “A unidade que Almada persegue — revelada pelo seu leitmotiv «1+1=1» — é também a do texto e da imagem, duas facetas artísticas em permanente diálogo no fio da obra total”, escreve Sara Afonso Ferreira, que trabalha a obra de Almada para a Assírio e já escreveu livros sobre ele.

“Três histórias desenhadas”, autor: José de Almada Negreiros, editora: Assírio & Alvim (edição de Sara Afonso Ferreira e Mariana Pinto dos Santos); Páginas: 197; Preço: €15,50 (preço de editora)

“Três histórias desenhadas”, autor: José de Almada Negreiros, editora: Assírio & Alvim (edição de Sara Afonso Ferreira e Mariana Pinto dos Santos); Páginas: 197; Preço: €15,50 (preço de editora)

O prefácio, de resto, é de rara utilidade para apreciar o livro. Evocando as ideias que Almada defendeu sobre arte em conferências e escritos, recordando o traçado da sua própria assinatura, a estudiosa enriquece a leitura não só destas três histórias como de todo o percurso deste desenhador e caricaturista… entre muitos outros “chapéus” que fez seus e que continuamos, prova da sua imortalidade, a desvendar e destrinçar.