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Cultura

O fim 
do sonho americano

Felicity Huffman, que já interpretou
duas personagens diferentes nas primeiras duas temporadas, regressa a “American Crime” no papel de Jeanette Hesby

Eric McCandless/ABC Studios

A realidade norte-americana é o tema da terceira temporada de “American Crime”. A premiada série regressa
à televisão na próxima terça-feira,
com estreia marcada para o TVSéries

Foram muitos os que emigraram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor, mas não foram tantos os que a encontraram. As promessas não foram cumpridas e o sonho começou a desfazer-se. A realidade com que se depararam era afinal diferente daquilo que tinham imaginado. Onde se esperava emprego encontrou-se exploração e a discriminação tomou o lugar da inclusão.

O sonho vendido não passava mesmo de uma ilusão. A América desiludiu os que viviam fascinados com ela e a Carolina do Norte acabou por se tornar um cenário para ilustrar o que realmente se passa. Trata-se da nova história televisiva de John Ridley (vencedor do Óscar de Melhor Argumento Adaptado por “12 Anos Escravo”), a apresentar na terceira temporada de “American Crime”. O crime pode parecer menos grave ou chocante do que os apresentados nas duas primeiras levas de episódios, mas é com toda a certeza mais amplo. Depois de um assassínio e de um abuso sexual — que se tornaram os maiores mistérios dos episódios anteriores —, agora o foco da série antológica parece estar na exploração de trabalhadores dos campos agrícolas norte-americanos.

A dura realidade é descoberta por Luis Salazar (interpretado por Benito Martinez), que decide partir do México de forma ilegal e viajar pelos Estados Unidos em busca do seu filho desaparecido. Acaba por se deparar com algo que não lhe parecia possível: encontrar trabalhadores sujeitos a condições de trabalho tão más que a melhor palavra para as descrever é mesmo usar o termo escravidão. A situação é demasiado grave para ser ocultada e há que tomar medidas. Os trabalhadores estão a receber muito menos do que o estabelecido pelo seu trabalho e ainda têm de pagar aos patrões a alimentação e o alojamento (a preços superiores ao ordenado auferido, claro). Seguindo a construção do argumento a que a série já nos habituou, a terceira temporada mostrará mais do que um lado, optando por expor a mesma realidade através de diversas personagens. Felicity Huffman, veterana desta produção (que já lhe valeu duas nomeações nos Globos de Ouro e outras duas nos Emmys), surge agora no papel de Jeanette Hesby, uma mulher rica que terá de lutar contra a sua família. A Hesby Farms é uma das empresas a lucrar com a exploração e os dilemas morais começam a dominar Jeanette.

Apesar da forte carga dramática da série, que pretende levar os telespectadores a refletir sobre o verdadeiro custo de tudo o que consomem, as más condições de trabalho no sector agropecuário não são o único tema em debate, embora seja expectável que grande parte da história nos guie nesse sentido. Também há problemas como a prostituição, a toxicodependência ou o tráfico de seres humanos e a equipa de John Ridley parece estar completamente comprometida com a missão de denunciar os verdadeiros problemas de uma América que parece ter cada vez menos oportunidades.

O sonho tornou-se pesadelo e os problemas tendem a crescer no seio da comunidade ficcional de Alamance County. As más políticas de educação sexual, aliadas a uma lei do aborto demasiado restritiva, levaram a que o condado tivesse de lidar com um número de jovens mães cada vez maior, numa sociedade que se vem tornado mais desigual aos olhos de todos. Os ricos tornam-se cada vez mais poderosos e os mais pobres parecem sentir-se obrigados a aceitar as condições impostas.

Retratar a realidade

Em “American Crime” parece que terá de ser mesmo assim e não haverá volta a dar até que se verifique uma grande mudança de mentalidades. Também não parece que isso esteja para breve. O protecionismo e a xenofobia, que estão a marcar a atualidade norte-americana (a começar pela política) também vão marcar presença, com os trabalhadores estrangeiros (sim, os tais explorados dos vastos campos da Carolina do Norte) a serem olhados de lado pela comunidade local. São acusados de roubar o trabalho aos americanos na terra que lhes pertence e a tensão tende a crescer e a trazer com ela o ódio. Até onde pode ir a vingança? Qual será o verdadeiro crime, quando um incêndio num dormitório com condições desumanas provoca a morte a dezenas de trabalhadores que lá pernoitam?

Por vezes, a atualidade dos tópicos tratados em séries é acidental — mesmo que nos últimos meses tenhamos assistido a várias produções que mudaram o argumento depois da vitória de Donald Trump — e em grande parte dos eventos desta nova temporada é isso que acontece. Os temas desta terceira vida de “American Crime” foram escolhidos por John Ridley muito antes de o empresário se tornar Presidente e esse é um dos factos mais interessantes do processo criativo do argumentista. Tudo está feito para colocar os telespectadores a lidar com uma realidade que desconhecem, usando um estilo que por vezes se aproxima do documental (mesmo que seja ficcionado).

Numa altura em que a Administração Trump promete continuar a construir o muro que separa os Estados Unidos do México, a série pretende ser mais uma peça no complexo puzzle norte-americano. Composta por 10 episódios, estreou-se nos Estados Unidos no último domingo, na ABC, e chega na próxima terça-feira a Portugal. “American Crime” será emitida em exclusivo pelo TVSéries a partir das 23h15.