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Televisão sem fronteiras

Faltará menos de um mês para haver 100 milhões de pessoas em todo o mundo ligadas ao Netflix. A empresa quer continuar a crescer e aposta agora na língua portuguesa e nos reality shows. Parece que o fim da televisão como a conhecemos vai ser transmitido em streaming

Attention! Prêts? Piiiiiip!” O apito ditava o início de cada partida e os europeus não faltavam à chamada. Os países paravam para ver os “Jogos Sem Fronteiras”, com os membros de cada equipa a lutarem pela vitória. Era na piscina que tudo acontecia e as emoções mais fortes viviam-se mesmo junto à água. Até dentro dela. Umas vezes entre braçadas, outras a tentar o equilibrismo em plataformas, os concorrentes faziam tudo o que estava ao seu alcance para alcançar os objetivos da equipa. Subiam, desciam, corriam e tentavam mais um sprint, antes de se aventurarem por obstáculos que pareciam impossíveis de transpor. Conseguiam quase sempre. Tornavam-se deuses efémeros de um tempo em que os heróis eram os da banda desenhada, as histórias contavam-se nas telenovelas e a realidade apenas chegava através do noticiário.

O mundo mudou e a ideia de Charles de Gaulle, o general que chegou a Presidente de França, para unir os europeus perdeu o fôlego. O mercado televisivo alterou-se completamente e desse tempo, que hoje já parece longínquo, ficaram as memórias de Eládio Clímaco como anfitrião português e pouco mais. Hoje, é a própria televisão tradicional que parece ter-se tornado o concorrente ingénuo dos “Jogos sem Fronteiras” que criou, dando o seu melhor sem grandes resultados. Luta contra uma máquina de obstáculos muito maior que ela e não é garantido que consiga chegar ao final e levar a taça (ou sobreviver).

O programa de sucesso dos anos 80 e 90 acabou por morrer, mas o género acabou de renascer. A Netflix, um dos obstáculos maiores no caminho, é a produtora e distribuidora de um novo jogo multinacional, que surge enquanto a televisão como todos conhecemos luta contra a própria morte. Sylvester Stalone, um dos criadores, toma o lugar do general francês e “Ultimate Beastmaster” é o nome da sua aventura. Conta com 108 participantes de seis países (Estados Unidos, Brasil, Coreia do Sul, México, Alemanha e Japão, na primeira temporada), que terão de se enfrentar numa pista de obstáculos de quase 200 metros para se sagrarem campeões e vencerem o prémio. Nem o jackpot, utilizado nos “Jogos Sem Fronteiras” para receber mais pontos (em provas para as quais a equipa estava mais preparada), faltou e assume agora a forma de uma alavanca verde que dá um bónus na pontuação. A dúvida é só uma: será um programa de competição capaz de alavancar a adesão de novos clientes ao gigante de streaming?

Concurso. “Ultimate Beastmaster” é o nome do primeiro reality show de competição da Netflix, que conta com 108 participantes de seis países (Estados Unidos, Brasil, Coreia do Sul, México, Alemanha e Japão) na primeira temporada

Concurso. “Ultimate Beastmaster” é o nome do primeiro reality show de competição da Netflix, que conta com 108 participantes de seis países (Estados Unidos, Brasil, Coreia do Sul, México, Alemanha e Japão) na primeira temporada

foto Robert Voets/Netflix

Apesar do sucesso da estratégia até agora usada pela Netflix — só lhes falta a China, onde querem licenciar conteúdos nos próximos anos —, as séries e filmes originais deixaram de ser o único foco e “Ultimate Beastmaster” (já em streaming) inaugura uma nova fase na história da direção de conteúdos. A empresa americana quer continuar a crescer e Ted Sarandos (o homem que olhou para “House of Cards” e percebeu que uma história daquelas não podia ser disponibilizada ao ritmo de um episódio por semana) não tem dúvidas de que o futuro passará por aqui. A escolha do género pode parecer estranha, mas o responsável considera que este “é um negócio muito interessante”. Sarandos acredita que os novos programas serão capazes de captar audiências no mercado internacional e não vai esperar por resultados. Já pôs em marcha 20 novos formatos com a componente reality associada.

Para se distanciar da concorrência tradicional, o executivo com o pelouro dos conteúdos promete que tudo o que fizerem terá uma abordagem diferente e que não haverá uma versão única emitida em todo o mundo, ou versões locais sem ligação entre si. Os reality shows da Netflix serão um híbrido de tudo o que já se conhece e esta primeira aventura no género está cá para o provar. Trata-se de um programa único, mas conta com apresentadores diferentes consoante os mercados em que é emitido. Em Portugal já estão disponíveis as versões brasileira, com apresentação do lutador de MMA Anderson Silva e do comediante Rafinha Bastos, e norte-americana, com o ator Terry Crews e a apresentadora Charissa Thompson, e a temporada está disponível na íntegra e em streaming. Para entrarmos na onda, há que dizer que o binge-watching (ato de ver uma série de uma só vez) chegou à reality TV. Para David Broome, que coproduziu o programa de 10 episódios (são 60, se contabilizarmos as seis versões) com Sylvester Stalone e que foi produtor executivo de “The Biggest Loser” durante 11 anos, este “será um ponto de viragem para a indústria” e já tem sucessor. Depois desta primeira temporada, filmada na Califórnia, seguir-se-á uma segunda, com um novo conjunto de países a juntarem-se à competição com o objetivo de vencer a Besta.

O FIM DA TELEVISÃO?

Para a televisão tradicional, a Besta pode mesmo ser a Netflix e a tormenta da programação linear ainda só está no início. Chegar a casa, ligar o televisor e ver o que determinado canal selecionou para todos os telespectadores parece funcionar para cada vez menos pessoas. São as gerações mais novas que lideram a revolução. Hastings, CEO da Netflix, considera que a sua empresa não é única a ver o futuro e julga até que em pouco tempo outros lhe seguirão as pisadas. Para o executivo, a HBO (“A Guerra dos Tronos”) também vai mudar de estratégia e passar a disponibilizar todos os episódios das suas séries em streaming logo no dia de estreia. Será este o passo mais natural dos principais canais, que seguirão o rumo dos seus clientes, sedentos de ter o controlo total da programação. A prova está nos números e é em mercados mais maduros, como o norte-americano, que a tendência é cada vez mais premente.

De acordo com o estudo “Branding on TV” da Hub Entertainment Research, que enviou ao Expresso algumas das suas conclusões, a maioria dos telespectadores considera a Netflix a marca de televisão mais indispensável, sendo também a que mais dificilmente abandonariam. Para 72% dos americanos entre os 16 e os 24 anos, ver televisão é sinónimo de Netflix, com a ordem de preferências a alterar-se nas faixas etárias mais elevadas (75% do público com idade superior a 55 anos associa o ato de ver televisão aos canais tradicionais). O fenómeno dos cord-cutters, pessoas que abandonaram os planos dos operadores tradicionais e vêm apenas televisão através da internet, está a alastrar; no entanto, ainda não tomou Portugal.

Os portugueses continuam a ser dos principais consumidores de TV por subscrição da Europa, e no ano passado eram cerca de 3,6 milhões os contratos de televisão ativos (assumindo várias formas e agrupados em diversos pacotes). O hábito de ligar a televisão quando se chega a casa permanece intocado (65% não o dispensam), com o estudo “Novas Dinâmicas do Consumo Audiovisual em Portugal” da ERC a apontar igualmente para a dificuldade em “deixar de navegar na internet” (26,7%). Este retrato do consumo de conteúdos audiovisuais já apontava para o novo caminho do streaming, mas não mostrava a dura realidade que enfrentam os serviços principais serviços no país.

SUCESSO. A série de ficção científica “3%” foi a primeira produção brasileira da Netflix

SUCESSO. A série de ficção científica “3%” foi a primeira produção brasileira da Netflix

foto Pedro Saad/Netflix

De acordo com os dados publicados pela ANACOM este mês, relativos ao estudo sobre “Serviços Over-the-Top (OTT)”, os serviços de streaming como a Netflix ainda não cativaram a população portuguesa e serão apenas 2% os portugueses com 10 ou mais anos que subscrevem o serviço. A Netflix não divulga o número de subscritores por país, nem contesta os que são avançados pelas entidades competentes, mas o trabalho publicado pelo regulador das telecomunicações — a partir do Barómetro de Telecomunicações da Marktest — mostra outro dado interessante. Dos utilizadores de internet, cerca de 9% “visualizam conteúdos de vídeo a partir de serviços a pedido”, um número muito acima do de subscritores, mas ainda assim muito abaixo do dos internautas (entre os 15 e os 45 anos) que consomem filmes e séries online mais de uma vez por semana. O problema, que atinge outras indústrias do mundo digital, mantém-se. Chama-se pagamento. O debate sobre o futuro da televisão está aceso e a resposta às grandes dúvidas do sector não será dada de imediato.

Depois de ter chegado ao final do último ano com 94 milhões de clientes (19 milhões conquistados em 2016 e 7 milhões só no último trimestre), a Netflix continua em busca do domínio mundial. No futuro, espera que a percentagem de clientes estrangeiros chegue a 75 a 80% do total e não abranda o ritmo de estreias ou os investimentos. Este ano, a empresa espera desembolsar uma quantia próxima dos 5,6 mil milhões de euros em conteúdos originais e conquistar 5,2 milhões de novos clientes já nestes primeiros três meses. Talvez até um pouco mais. A marca dos 100 milhões está prestes a ser atingida, mas a estratégia continua a ser afinada e os mercados em que opera são todos diferentes.

E AÍ, TÁ LIGADO?

Agora é um sucesso (“um foguetão”, como descreveu o CEO Reed Hastings aos acionistas), mas a entrada da Netflix no Brasil, em 2011, não correu da melhor forma. As infraestruturas tecnológicas eram deficitárias e as reservas face à assinatura de um serviço de que poucos tinham ouvido falar fizeram com que o lançamento rapidamente perdesse o gás. A empresa norte-americana estava longe de ser o gigante dos dias que correm e foi preciso convencer a população, investindo em publicidade televisiva enquanto se estabeleciam acordos para que a qualidade da internet no país melhorasse substancialmente. A receita funcionou e no último ano a empresa duplicou o número de subscritores. Agora, a aposta será do lado dos conteúdos locais (também para que os clientes conquistados não desapareçam).

Enquanto avança na globalização do serviço de streaming, a Netflix vê na criação de conteúdos nos vários países em que opera uma vantagem. Já o fez na Europa (com as já estreadas “Marseille”, em França, e “The Crown”, em Inglaterra, às quais se juntarão a italiana “Suburra”, a alemã “Dark” e a espanhola “Cable Girls”) e pretende replicar a estratégia no mercado brasileiro. “Vamos produzir mais e mais conteúdo no Brasil”, anunciou Reed Hastings durante um evento da empresa em São Paulo. Os próximos projetos já são conhecidos e, à segunda temporada da série de ficção científica — que além de ser “muito popular no Brasil” tem feito “muito sucesso nos Estados Unidos e na Europa” —, juntam-se outras duas séries completamente diferentes entre si: uma comédia e um drama político sobre corrupção, baseado em factos verídicos.

“Samantha!” é o nome da série cómica, que conta a história de uma atriz que tenta prolongar o sucesso da infância e que fará tudo o que estiver ao seu alcance para recuperar a fama do passado. A produção, centrada numa mulher casada com um ex-jogador de futebol que passou 10 anos na prisão, vai, segundo Reed Hastings, “espalhar a cultura brasileira pelo mundo” e está a cargo da Los Bragas, a produtora da atriz Alice Braga. Ao Expresso, o realizador Felipe Braga explicou que a empresa não está autorizada a revelar quaisquer detalhes acerca da série, cujo elenco e direção são ainda desconhecidos, e que apenas poderão avançar com alguns detalhes acerca de “Samantha!” no segundo semestre do ano.

O segredo continua a ser a alma do negócio e estende-se ao novo projeto de José Padilha (que por estar a gravar o filme “Entebbe” para cinema numa zona remota se mostrou indisponível para entrevistas). Por enquanto, sabe-se apenas que o serviço de streaming está a produzir uma série sobre a Operação Lava Jato, com realização do cineasta brasileiro (que já havia trabalhado com a Netflix em “Narcos”, até agora protagonizada por Wagner Moura) e argumento de Elena Soares. Reed Hastings deixa o aviso de que a série, que já está a ser desenvolvida, “será um pouco controversa” e que a ideia é fazer um produto que “conte uma história real pelo lado humano”, sem que haja “uma abordagem jornalística” ou se opte por um lado dos acontecimentos. Questionado sobre a possibilidade de “Lava Jato” ser uma história muito centrada na realidade brasileira, o CEO considera que isso não levantará qualquer problema à Netflix. “Já houve outros países a passarem por coisas parecidas, pelo que tenho a certeza de que se poderão identificar”, considera.

Quanto à aposta em novos géneros, como o das telenovelas, não foi posto totalmente de parte pelo executivo, mas, em declarações aos jornalistas em São Paulo, Hastings mostrou algumas reservas sobre o assunto. “A Globo é muito boa nisso. Nós tentamos fazer coisas novas, queremos originalidade e não uma cópia. Só faríamos se tivesse uma nova abordagem”, explica. Certezas, só as dá quanto ao que não vai acontecer (não pretende entrar no negócio das notícias e das transmissões desportivas em direto) e quanto ao que já pode ser tornado público: às séries e aos reality shows, vai juntar-se um filme original. Chama-se “O Matador” e o protagonista é português (mas já lá vamos).

Suxesso. Ted Sarandos é o responsável pelos conteúdos da empresa norte-americana

Suxesso. Ted Sarandos é o responsável pelos conteúdos da empresa norte-americana

getty

Ao contrário do que se está a verificar no mercado brasileiro, a Netflix ainda não abriu os cordões à bolsa para começar a produzir em Portugal, mas não é por isso que os atores e comediantes portugueses estão fora do radar do gigante do streaming. Salvador Martinha foi o primeiro humorista a ter um espetáculo seu a estrear-se no catálogo da Netflix — “Na Ponta da Língua” é considerado um stand-up original — e são vários os programas da SIC que estão disponíveis no serviço, com a vez de os atores nacionais entrarem em produções da empresa a chegar dentro de momentos.

Do lado dos filmes, Diogo Morgado será o protagonista da longa-metragem “O Matador”, que conta também com Maria de Medeiros no elenco e que Ted Sarandos considera ser uma mais-valia para a estratégia de programação do serviço, porque “combina um storytelling único com um elenco multinacional”. De acordo com as informações avançadas pelo chief content officer da Netflix, a longa-metragem passa-se entre os anos 1910 e 1940 e retrata a vida de um homem que cresceu no sertão, completamente isolado da civilização. Quanto às séries, a estreia acontece com Pêpê Rapazote a entrar na terceira temporada de “Narcos”, mas com o mistério sobre qual será a sua personagem a manter-se inalterado. Fala-se que o ator português será um dos principais narcotraficantes do Cartel de Cali, no entanto a produção ainda não avançou com qualquer pormenor acerca dos novos episódios (com estreia prevista para o terceiro trimestre do ano). É o regresso de um dos maiores sucessos da Netflix, que agora terá de provar ser capaz de manter o interesse após a morte de Pablo Escobar (Wagner Moura) na segunda temporada.

MERCADO EM EBULIÇÃO

Com um controlo cada vez maior dos seus conteúdos — aposta cada vez mais em produção própria e na compra de exclusivos —, a Netflix não é o único player no mercado do streaming e a Amazon (com o seu Amazon Prime Video) é a maior ameaça no momento. O gigante das compras online, que segue a mesma receita, quer tornar-se um nome maior da distribuição televisiva e está, desde o último ano, disponível em todo o mundo. Só o futuro dirá qual dos gigantes reinará, até porque agora está tudo em aberto. E a vida da televisão tradicional parece cada vez mais difícil.

São vários os analistas (entre eles os da londrina Ovum) que apontam para a impossibilidade de a Netflix resistir sozinha devido à sua política de custos elevados — que pode tornar-se insustentável no futuro — e à dívida de longo prazo (cujos prazos tem vindo a alargar). Em entrevista após a apresentação de resultados do último trimestre, Reed Hastings desvaloriza as polémicas, garantindo que o negócio que gere será “muito lucrativo quando chegar aos 200 milhões de utilizadores”. Já chegaram a meio caminho, mas as curvas — ameaças externas — serão cada vez mais e há empresas que podem querer deitar a mão à própria empresa.

Fala-se até na possibilidade de a Netflix vir a ser comprada por um gigante como a Alphabet (que detém a Google), a Apple, a Disney — que precisa de acelerar a transição para os novos modelos de televisão — ou mesmo o Facebook, mas será que algum destes rumores faz sentido? Até podia ser uma mais-valia para qualquer um dos grupos, mas o preço a pagar pelo maior serviço de streaming será bastante alto. Enquanto os rumores não passam a verdades confirmadas, há outros movimentos a assinalar.

Mark Zuckerberg quer aumentar os tentáculos do Facebook e está a apostar tudo no mercado de vídeo. Já contratou Mina Lefevre (antiga responsável pela ficção no grupo que controla a MTV) e decidiu abrir o jogo na última apresentação de resultados. “Queremos que as pessoas pensem no Facebook como um lugar para conteúdos de vídeo interessantes e relevantes, criados por profissionais e por amigos”, disse, numa altura em que se dá a contagem decrescente para o nascimento de uma nova aplicação (disponível numa primeira fase nas televisões norte-americanas).

Se Zuckerberg não perde tempo a mostrar os seus planos, a Apple é mais cautelosa. Por enquanto não pretende competir com a Netflix, mas não será por isso que deixará de apostar em programação televisiva. Tudo acontecerá dentro do serviço Apple Music, onde estreará o programa “Planet of the Apps” (uma espécie de “Shark Tank” ligado à criação de aplicações móveis com a participação de Jessica Alba, Gwyneth Paltrow, Gary Vaynerchuk e will.i.am), mas também “Carpool Karaoke: The Series” (série criada a partir do segmento viral de James Corden no programa “The Late Late Show”) e “Vital Signs” (sobre a vida de Dr. Dre).

Quando o apresentador italiano e eurodeputado Ettore Andenna deu a cara por uma diretiva comunitária sobre o financiamento da televisão (conhecida por “Televisão Sem Fronteiras”), nunca pensou que o mercado se transformasse de uma forma tão rápida e tão drástica. Talvez Reed Hastings, que começou por alugar DVD entregues por correio, também não imaginasse que a Netflix chegasse onde chegou em apenas dez anos. A questão é perceber até onde pode chegar, e a que preço para o resto da indústria, nos próximos dez.