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Duerme negrito

Bamba Wassoulou Groove é um grupo do Mali fundado pelo percussionista Bamba Dembélê

d.r.

Hoje pela manhã, ao escutar pela enésima vez um disco intitulado “Birds on a Wire”, assinado por Rosemary Stanley, uma franco-americana nascida em Paris, e pela violoncelista, cantora e compositora brasileira Dom La Nena, tropecei numa canção popular incluída há anos no meu imaginário musical, desencadeadora de infindáveis recordações. Cantavam “Duerme Negrito”, e a memória era atravessada pela evocação de vozes como as de Victor Jara, Mercedes Soza, Daniel Viglieti e tantos outros que, ao longo dos anos, têm assegurado novas interpretações desta cantiga latino-americana originária de uma zona situada entre a Venezuela e a Colômbia e recolhida pelo grande Atahualpa Yupanqui. Quem?

Aquele “quem?” não verbalizado, apenas sussurrado, contém em si mesmo, não apenas um mar de dúvidas, como um deserto revestido de ausência de respostas. O problema nem passa pela noção de que, hoje, já raras pessoas saberão reconhecer ou compreender a relevância daquele nome com que se identificava um cantor, compositor e guitarrista argentino tido como uma lenda da canção popular da América Latina.

Atuação da banda do cantor, guitarrista e compositor haitiano Wesli

Atuação da banda do cantor, guitarrista e compositor haitiano Wesli

A questão é mais vasta e torna-se gritante a partir de uma simples consulta ao “Spotify”, um serviço de streaming musical com uma componente de acesso gratuita e outra paga. Uma busca de “Durme Negrito” dá dezenas de resultados, com nomes de intérpretes dos quais só vagamente ouvíramos falar, outros de quem nunca saberemos nada, e outros ainda de cuja existência nem suspeitávamos.

A globalização do gosto implicou um empobrecimento da diversidade. Há uma normalização estética da qual resulta um afunilamento das propostas musicais ou literárias divulgadas nos meios de comunicação de massas. Parece um paradoxo, dada a facilidade com que, em tese e em simultâneo, temos acesso, através da internet, a virtualmente tudo quanto se está a produzir no mundo.

Não é verdade. O estar disponível não tem uma relação necessária com o ser do domínio ou do conhecimento comum. Havia uma função de intermediação, agora praticamente inexistente, cuja função foi decisiva ao longo de décadas.

Era no essencial assegurada por programas de rádio de autor, empenhados em dar uma visão do mundo muito para lá das estritas e óbvias fronteiras acondicionadas numa proverbial preguiça da qual resulta a acomodação ao já conhecido, ao que confirma o gosto comum, sempre muito etnocentrado.

Um ou outro programa ainda existente constitui apenas a exceção a uma regra traduzida numa presença avassaladora dos sucessos assegurados no essencial pela produção anglo saxónica.

“Alaverdi” é um grupo da Geórgia e atuou em Sines em 2016

“Alaverdi” é um grupo da Geórgia e atuou em Sines em 2016

O Festival Músicas do Mundo, de Sines, como o regressado Sons em Trânsito, de Aveiro, ou o Festival MED, de Loulé, tentam romper o cerco, mas não deixam de poder parecer um gueto, por, sem culpa própria, acabarem encerrados em si mesmos, dado o silêncio que no resto do ano se abate sobre aqueles músicos e aquelas formas de viver a música.

Até porque os jornais também se demitiram dessa responsabilidade de contribuir para a descoberta do outro, de outras mundividências, de outras culturas. O culto da novidade transforma-se demasiadas vezes numa vertiginosa correria devoradora do espaço. Daquele espaço necessário à reflexão que conduz à descoberta.

Há uma assustadora ausência de diversidade pela qual têm de ser responsabilizados, também e porventura de uma forma mais acentuada, os responsáveis pela programação dos muitos auditórios espalhados pelo país. Mesmo se há a consciência de não ser esta uma realidade exclusivamente portuguesa, a verdade é que a tentação da sala cheia, sem critério, é demasiado forte, até quando se programam artistas nacionais.

Há um abdicar da noção de risco. Aposta-se no que se sabe ser do gosto da audiência e desiste-se de propor o que o público não conhece ainda, mas, se confrontado com a alternativa ao adquirido, pode vir a dar esse tempo e esse conhecimento por muito enriquecedor.

Noura Mint Seymali é uma cantora, compositora e instrumentista da Mauritânia

Noura Mint Seymali é uma cantora, compositora e instrumentista da Mauritânia

Descobrir, propor, apresentar artistas de grande qualidade por qualquer motivo ainda não inseridos nas redes mediáticas, oriundos das mais diversas latitudes, é uma das obrigações primeiras de qualquer bom programador de um auditório. A não ser assim, um amanuense será bastante para assegurar contactos e agendar concertos.

Associar esta constatação a uma qualquer espécie de paternalismo ou nostalgia constitui um erro maiúsculo. Não se trata de pretende transformar em fenómeno de massas o que por natureza será sempre minoritário. Não tem é de ser um segredo tão absoluto, que acaba fechado numa espécie de buraco negro. Impercetível. Invisível. Silenciado.