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Ele sonhava com uma Clara incrível, que a podia encontrar nalgum lugar, mas não acreditava que ela pudesse ser interpretada por uma atriz

O cineasta brasileiro falou ao Expresso sobre o seu “Aquarius”

Foto ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images

Mas ele enganou-se e ainda bem, porque acabou por encontrar a Clara dele numa atriz do tamanho do Brasil. Conversa com o cineasta Kleber Mendonça Filho em torno da sua segunda longa-metragem e do grande retrato de mulher que vem do papel desempenhado por Sónia Braga. O filme estreou-se no último Festival de Cannes e chega esta quinta-feira às salas

Começar um filme, descobrir o seu ponto de arranque, é sempre difícil. O que é que o levou a escolher aquelas velhas fotos panorâmicas da cidade do Recife? São da idade do prédio?
São do final dos anos 60/início dos anos 70. São de Alcir Lacerda, um fotógrafo pernambucano que faleceu cinco anos atrás. Ele tem um arquivo incrível de fotografias da cidade. Ora, eu vejo “Aquarius” como um filme de arquivo também. Quase um álbum de família em que a família é a cidade. Mas o facto de serem de Alcir é igualmente importante. O trabalho dele é muito bonito.

Também “O Som ao Redor”, a sua primeira longa-metragem, começava com fotos...
Pois é, e essa repetição atraiu-me, como se os filmes fizessem parte de uma trilogia [iniciada na curta “Recife Frio”], embora não o sejam. Também era importante que as fotos ficassem limpas. Algumas pessoas pensaram que elas seriam pano de fundo dos créditos, mas não era esse o objetivo. As fotos são antes a passagem de um documento real para uma dramatização do passado. Surgem acompanhadas pela canção do Taiguara, que se chama ‘Hoje’. É uma canção de 1969, que coincide exatamente com o período de duas fotos (há outra de 1968 e quatro de 1973).

Esta contextualização histórica que abre o filme não é menos importante que a definição do espaço da cidade. A arquitetura da cidade do Recife já era um elemento central em “O Som ao Redor”. Poderia falar do traço do prédio em que se passa o filme, o “Aquarius” do título? Disse que o prédio, de resto, é tratado como se fosse uma personagem. Ele tem uma certa dignidade.
Essa palavra é boa. Para mim era importante que não houvesse nada de errado com o prédio, isto é, que ele se ajustasse em tudo à personagem da Clara. Vou contar-lhe uma história para ver aonde eu quero chegar. Em 1998 eu comprei um carro que esteve nas minhas mãos até 2008. Ou seja, transformou-se num carro velho.

Foto ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images

Que carro era?
Um Fiat Palio. Teve alguns problemas de pintura, mas de resto funcionava, os travões respondiam, o ar condicionado estava impecável. Tudo certo. Acontece que em 2006 eu começo a receber uma pressão social muito grande para trocar de carro. No Brasil, a classe média anda com carros novos, é um símbolo de status muito grande. Esta ideia da pressão social acabou indo para o “Aquarius” de uma forma mais complexa, na forma de uma casa. Clara mora num prédio que a sociedade considera velho: é preciso derrubá-lo.

Conhecia aquele prédio, de tantas vezes passar na Avenida da Boa Viagem?
Sim, sempre me chamou a atenção. No fundo estou a falar desta ideia: você está feliz na sua vida e alguém começa a julgar, por questões de mercado, que você não está bem. Como se isso fosse uma alucinação imposta. E então você começa a questionar-se: “será que está tudo certo comigo?” Recentemente, a minha mulher, Emilie, e eu começámos a procurar outra casa para morar. Vivemos a cerca de dois quilómetros do local em que o filme decorre. Demo-nos conta de que os lugares que a gente gosta são mais baratos. Os prédios novos e caros são para nós odiáveis. Há aqui uma inversão de valores que eu acho muito interessante e que está no filme. Quando você toma uma posição contra a ‘verdade estabelecida’, ou é xingado de ser do contra, ou tratam-no de louco. Quem questiona hoje o que está a acontecer no Brasil é imediatamente chamado de doido ou de criminoso. Essa narrativa é tão primária que tira o oxigénio a qualquer possibilidade de discussão. Daí volto à sua palavra, dignidade: era importante que o prédio fosse digno, de facto. Que fosse um reflexo da própria Clara. O apartamento tinha que ser cristalino nesse sentido, tinha que dizer de onde Clara vem e o que é que ela quer da vida.

Há uma relação direta com a realidade, ou seja, o prédio está devoluto, ou vive lá gente?
Não, vivem lá várias famílias, no filme está vazio mas é um prédio vivo.

Não foi complicado chegar ali com uma equipa de cinema?
É sempre difícil mas tivemos imensa sorte, os moradores colaboraram muito.

Voltando à pressão social, pode desenvolver essa ideia, que tipo de pressão é essa e como é que ela se manifesta?
De maneira sempre muito leve e jocosa. “Vamos trocar esse carro, Kléber?” “Ena, aqui está um carro a precisar de troca...” Sabe como é... Como aquela conversa, alguém arranja uma namorada e logo perguntam os amigos: “Vão casar?” Aí você casa. “E vão ter filhos?” E quando nasce o primeiro: “Agora vão ter mais um?”

O ser humano, em particular o brasileiro, tem que tender para a norma?
Eu acho que sim, porque a gente vive numa sociedade em que há um défice de educação muito grande, mesmo para aqueles que não vivem na pobreza e têm acesso a uma escolaridade normal. É uma sociedade que precisa de se conformar para se sentir segura. E toda a vez que você toma uma decisão que sai fora desse quadrante, você tem que estar muito seguro do que está fazendo. No Brasil, isto é inato. O brasileiro, em geral, fala por clichés. Eu acho que a televisão tem um papel muito importante nisso. Gera frases prontas, respostas imediatas e a pior e mais hipócrita delas é seguramente “com certeza”. Se entrar em pânico, diga “com certeza”. Se não entender uma piada, se não chegou lá, fale “com certeza”. Há algum tempo, fui almoçar com a família no shopping lá no Recife e entrei num restaurante japonês. Recebeu-me uma garota de tailleur com o cardápio na mão. O restaurante tinha um área interior separada por um vidro e outra com umas mesas e chapéus de sol, então a garota pergunta: “vocês querem ficar dentro ou fora”? Só que o fora estava dentro! Continuávamos dentro do shopping. Eu disse-lhe isso. Adivinhe o que ela respondeu: “com certeza”... Cada vez que alguém no Brasil toma uma posição tem que estar bem informado. E no caso de Clara, ela está, sabe o que quer. Não há nada de errado com o lugar em que ela vive. E eles estão enchendo o saco.

Sónia Braga numa cena de “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho

Sónia Braga numa cena de “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho

d.r.

Como é que a Clara lhe surgiu? Creio que o filme dá tudo o que pode para nos dar uma ideia da vida dela, do seu passado, do seu trabalho, da sua sexualidade. É um retrato de mulher muito completo. Uma força vital.
Acho que a minha ideia no início veio de imaginar uma senhora sozinha, vulnerável, a abrir a porta da sua casa e a deparar com três homens altos com sapatos de couro. Os mesmos homens que vêm falar com ela com o intuito de a aliciarem a vender o seu apartamento. Não seria a mesma coisa se fosse um homem de 1,80 metros a abrir essa porta. Sabia que a personagem central não poderia ser esse homem. O facto da Clara ter 65 anos é também importante: ela agrega muita experiência de vida, isso aumenta o alcance histórico do filme e, sinceramente, confesso, há muita coisa da minha mãe na personagem. Ela faleceu em 1995. Era uma mulher muito forte. Alguns momentos do filme são completamente decalcados de memórias que eu tinha dela.

Chamava-se Clara?
Não, Joselice. Era historiadora. Estudou profundamente a estrutura social do Brasil no período esclavagista e o legado intelectual marcou-me profundamente.

Os discos que vemos no filme são seus?
Muitos são. Não tenho uma coleção tão grande. Devem estar ali uns 500 vinis meus. Não tenho uma coleção tão grande como a que se vê na casa de Clara. Pegámos em discos de vários lugares.

Sentiu em algum momento que podia estar a fazer um filme duplo, ou em duas vias, isto é: a construir a personagem de Clara e ao mesmo tempo a dar-nos uma imagem de uma pessoa muito conhecida, que é a Sónia Braga? Como se estas duas linhas paralelas fossem alimentando o filme, entrelaçando-se? A personagem e a atriz? O que uma e outra são? O que há de Sónia em Clara?
É uma pergunta importante porque, quando eu escrevi o roteiro, eu não tinha a Sónia em mente. Sonhava com uma Clara incrível, sonhava que a podia encontrar nalgum lugar mas não acreditava que ela pudesse ser interpretada por uma atriz. Tinha uma ideia um pouco amadora que talvez viesse do meu treino de curta-metragem. À medida que o roteiro foi evoluindo dei-me conta que iria precisar de uma atriz profissional. Depois chegámos à Sónia. E alguns aspetos do roteiro começaram então a preocupar-me um pouco.

Há uma cena em que vemos que Clara, que sobreviveu a um cancro da mama, não tem um peito.
O trabalho de caracterização foi bem feito. E lá está: uma coisa é ter uma não-atriz, por mais sensacional que seja, a interpretar uma mulher que não tem um peito, outra é ter no papel Sónia Braga, que é um símbolo da feminilidade brasileira. Uma coisa é ter uma não-atriz, com cara de gente normal, vivendo a vida de Clara e ela chamar um ‘garoto de programa’. Outra é ter a Sónia Braga a chamar o mesmo garoto. Isso no início preocupou-me. Então, talvez eu tenha aumentado o volume do ‘filme de cinema’, digamos. “O Som ao Redor” já tinha um pouco disso: era relato social e ao mesmo tempo um cruzamento com alguma coisa que eu acho que vem cinema americano dos anos 70. Não era realismo social filmado com câmara na mão e prato sujo na pia. Procurava uma transcendência para virar um movie. Aqui aumentei um pouco o ‘volume’ do movie para que a Sónia não ficasse deslocada ao fazer as coisas que a Clara faz, em particular naquilo que se refere à sexualidade. A história do sonho é associada à sexualidade. Há uma sequência no filme que ponderei longamente: é quando Clara, para se defender de um suposto ataque de sexualidade que é uma agressão de moralismo, usa ela própria um sistema de defesa sexual [no momento em que ela decide recorrer aos serviços de um prostituto].

Absolutamente. Você e Sónia discutiam estes detalhes, a construção da personagem?
O tempo todo. Um mês de ensaios e oito semanas da rodagem.

A Sónia Braga resistiu a alguma coisa lida no guião?
Nada. E reagiu ao texto de maneira muito forte.

Clara (Sónia Braga) é a protagonista de “Aquarius”

Clara (Sónia Braga) é a protagonista de “Aquarius”

d.r.

Vamos aos discos de Clara. Gosta mesmo do Double Fantasy [álbum de estúdio de John Lennon e Yoko Ono, publicado em 1980, e longe do seu melhor]?
Eu gosto do álbum mas lá está, é como está no filme: gosto porque ele virou a trilha sonora de uma grande tragédia [o assassinato de Lennon]. Tinha acabado de completar 12 anos quando o Lennon morreu. Lembro que estava com o meu irmão na porta do apartamento onde ainda moro, o Jornal Nacional estava ligado quando deram a notícia. Creio que no fim de semana seguinte saímos com a minha mãe e ela comprou então o “Double Fantasy”. O disco já me chegou às mãos muito carregado. Recordo-me que tinha um professor de inglês muito bom na escola. Ele usava música nas aulas e tocou ‘(Just Like) Starting Over’ [primeira faixa do disco]. Que ironia de título...

Lennon a começar qualquer coisa...
E morreu. Quando fiz “O Som ao Redor”, viajei três vezes a Los Angeles na promoção do filme. Numa delas, passei na Amoeba, uma loja magnífica de discos [em Sunset Boulevard e que já esteve para fechar portas depois desta entrevista], e comprei entre outros vinis o “Double Fantasy”. Já no Brasil, num domingo de manhã, abri o disco e qual o meu espanto: dentro dele estavam três artigos do L.A. Times sobre o disco, datados de Novembro de 1980 [o artista morreria um mês depois]. Um deles falava dos planos de Lennon para o futuro. Foi incrível, fiquei tocado porque lembrava-me bem, aquele fora já um momento útil da minha vida. Os anos 70 são uma neblina, conheço-os sobretudo pelo cinema e pelos filmes que vi depois. Recordo, claro, a separação dos meus pais. Mas os anos 80, não, são claros para mim.

Eu fiz a pergunta porque o “Double Fantasy” é, de facto, de 1980. “Aquarius”, que está estruturado em três partes, tem para mim – e talvez por isso mesmo - algo de novelesco. Enquanto estava a ver o filme recordo-me de pensar nesta ideia: o que seria o Brasil de 1980? Pergunto-lhe se a função do disco também é essa no filme.
Não dessa forma. Acho que “Aquarius” começa nos anos 80 porque aquele é um passado em que o Brasil já tem uma cara diferente. Eu quis muito ter neste filme o exercício de representar o passado com os ‘brinquedos’ do cinema. Acho que fazer um filme de época é um dos jogos mais extraordinários dos filmes, descobri isso agora. Os carros, a luz, as roupas, as latas de cerveja e aquelas camisetas que não existem mais hoje, os penteados e as pessoas fumando dentro de casa... Tudo isso para mim foi muito especial. Passar graças ao filme três dias nos anos 80. Foi o mais próximo que eu estive de viajar no tempo. Porque eu lembro-me daquela época. Talvez fosse diferente se eu fizesse uma cena passada em 1948. Porque eu não vivi em 1948. Mas em 1980, estava lá. Aquela festa no início do filme... Eu estava lá. A direção de arte trazia adereços e eu sabia se eles estavam ou não corretos. Em resumo: 1980 é o passado até onde eu podia regressar.

Em 1980 o Brasil ainda não é livre, está...
Está num limbo. A abertura já começou mas o país ainda está preso à ditadura militar. É um momento em que aquela família já consegue verbalizar a admiração pelas encrencas em que um determinado membro da família se envolveu.

Há outras canções no filme, que ora abrem emoções, ora sublinham-nas. Já falou da canção de Taiguara, de Lennon. Também há Roberto Carlos, Villa-Lobos, o ‘Another One Bites The Dust’, dos Queen, logo a abrir...
As músicas são marcadores de tempo. Ao mesmo tempo elas não envelhecem e isso é que é tenso. Nós envelhecemos, elas não. Passei ontem numa festa, tocaram ‘Close to Me’, dos The Cure, e pensar que a ouvi com 17 anos, por aí, e agora estou aqui em Cannes, com 47. E feliz de a ouvir outra vez. Eu falava disso com a Sónia, com os meus colaboradores: “vamos encontrar músicas que não envelhecem.” Canções que, só pelo facto de estarem no filme, já falam do passado de uma maneira automática e emocional. A sonoridade de ‘O Quintal do Vizinho’, de Roberto Carlos, traz 40 anos de música atrás. E hoje ainda soa fresca, nova, feliz. Foi muito difícil escolher as canções. A grande ideia que surge hoje quando nos lembramos de algum tema pode não sobreviver no final da semana. Enjoa. Durante um tempo eu queria abrir a sequência da praia com o ‘Rivers of Babylon’ dos Boney M. Uma música que eu adoro. Mas perdeu a força. Algo me desviou dela. O ‘Another One Bites The Dust’, pelo contrário, é quase palpável, sente-se no peito, é um coração batendo, uma coisa muito física. Assim ficou.

“Aquarius” remete-nos para uma ideia sobre algo que se vai minando desde o interior – e não creio que seja abusivo pensar também aqui na própria sociedade brasileira e suas ramificações. O filme é muito subtil a tratar esta perceção. Clara tem um cancro, decidiu combatê-lo, venceu. O próprio desfecho do filme, inesperado e violento, tem que ver com algo que rói por dentro. Concorda com isto? Impressiona sob esta perspetiva a personagem do Diego, o rapaz que tenta convencer Clara a vender a casa ao melhor preço. O seu procedimento – e o seu cinismo - é feito de sugestões, de não ditos. Tudo em surdina.
É engraçado isso: a arrogância de Diego, sabe de onde vem? De debates e conversas que eu tive com cinéfilos brasileiros muito jovens (como Diego o é), já catequizados pelo mercado e por Hollywood. Esses cinéfilos acham que o cinema só pode ser americano – e eu amo o cinema americano, para que fique claro. Acham que os Óscares são a melhor coisa que existe, e que “Matrix” é já um filme velho. E falam disso com muita certeza. Infelizmente, só se alimentam de um determinado tipo de cinema. Se um filme é falado em espanhol, russo ou francês, já é estranho, não querem nem chegar perto disso. E o mercado conseguiu colocar isso na cabeça deles. O Diego é como esses cinéfilos. Não tem consciência de que o cinema tem 120 anos e que é feito em centenas de países. E que há uma fortuna de filmes maravilhosos para serem descobertos nos quatro cantos do globo. Há outro aspeto que me interessa aqui e que vem da história de grandes incidentes políticos, a Guerra do Vietname, a Guerra da Independência Argelina, o Golpe Militar de 1964 [que ditou no Brasil o fim do regime democrático], a Primavera de Praga, em 1968, ou o Golpe de Estado no Chile, em 1973. Ao ler sobre tudo isto, aquilo que mais me fascina e aterroriza são aqueles operadores que funcionavam por baixo de tudo, como um vírus secreto em ação. Esta ideia de persuasão, de manipulação e de maquilhagem, é muito assustadora. E cabia por inteiro na história de Clara.

Sónia Braga no papel de Clara, em “Aquarius”

Sónia Braga no papel de Clara, em “Aquarius”

d.r.

A ameaça alastra-se como uma gangrena.
Para a Clara, é muito perturbador abrir a porta do apartamento e sentir o cheiro a merda na escada. É uma agressão não declarada e muito violenta moralmente.

Não são Clara e Diego duas pessoas do mesmo estrato social – embora uma imensidão de valores os separe?
São, é verdade. A Clara é uma potencial cliente da empresa que a quer ver fora do prédio. Ela não é milionária mas tem uma situação financeira confortável. Apercebemo-nos que Clara mantém há muitas décadas o mesmo estilo de vida. Para mim seria ruim se a construtora [que se chama Bonfim, irónico nome] estivesse a lidar com uma pobre senhora que vivesse numa casa a cair aos bocados.

Nunca vemos o ponto de vista daqueles que socialmente estão um patamar abaixo de Clara – e que são 90% da população brasileira. Isto é, eles estão lá, a empregada doméstica, o nadador salvador, os empregados que vêm limpar o prédio e queimar o colchão...
Porque à partida a trama está 100% centrada em Clara, foi assim que estruturei o trabalho. E Clara vai dar luta. Também não há no filme, nem nunca houve no roteiro, uma cena em que, por exemplo, os elementos da construtora discutem o que vão fazer com Clara, quais os seus planos, etc. Todas as interações no filme são feitas através de Clara e ela está em quase todos os planos. Quando ela sai de casa e vê que há um carro preto estacionado à sua espera, onde está Diego, ela olha e nós vamos com ela, a câmara está com ela, não há corte e mudança de ponto de vista. E quando acaba a conversa saímos com ela. O ponto de vista é sempre o de Clara. Este foi um princípio que me impus: estabelecer esse território interno e a ameaça que vem de fora.

Há um momento no filme em que alguém diz que “quem não é Cavalcanti...”
“É cavalgado...” É um apelido relacionado com a política e o poder em Pernambuco. A frase não é minha, já a ouvi na rua.

A rodagem do filme foi anterior à crise política que o Brasil está a atravessar agora [o Processo de Impeachment de Dilma Rousseff que conduziu à sua destituição do cargo de Presidente em 31 de agosto do ano passado estava ainda em curso à data da entrevista] e no entanto o filme está implicitamente a falar da crise, tem uma sintonia incrível com o presente.
Eu acho que não há coincidência. Quando se parte para a escrita de um texto, e isso pode acontecer com um roteiro, um ensaio ou uma tese académica, sempre se capta algo que está acontecendo. Existe essa probabilidade. Agora, tudo o que eu não queria é que Clara pertencesse a qualquer movimento ou partido. A Clara é, isso sim, uma pessoa de contradições. Mulher da família burguesa, tem uma empregada que adora e que trata como família. Fica irritada com ela quando os homens da construtora tocam à porta e a empregada não abre, mas logo a desculpa, porque a empregada estava varrendo. Isso é muito pernambucano. Eu não sou militante, detesto o discurso militante. Mas a verdade é que é difícil não ‘militar’ perante o que se está a passar no Brasil. Por isso protestámos. Você como português tem talvez uma relação mais próxima com o Brasil do que outro estrangeiro aqui em Cannes e pode entender melhor o que se está passando. A imprensa brasileira com quem falei ficou estupefacta, tal como eu fiquei com as últimas notícias que têm chegado do Brasil. Eles olharam para “Aquarius” como se fosse um documentário ao vivo.