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Bonito. Não exagerado. Surpreendente

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Este é o texto que lhe vai explicar como a luz acabou com a noite mas a canção permaneceu. É razão suficiente para ler

São oito minutos e cinquenta e dois segundos de novidade encaixadas numa única canção: a estrutura é complexa e há tanto para ouvir, perceber e admirar em “Third of May/Ōdaigahara”. Este é tema que marca o regresso dos Fleet Foxes, depois de um hiato de seis anos que pareceu o fim da banda, e que eleva as expectativas para o disco que a banda lançará em junho. Eles fizeram isto bem.

Ainda há pouco tempo tudo parecia apontar para um cenário de separação definitivo. Em 2011, quando lançaram “Helplessness Blues”, disco nomeado para os Grammy e que chegou ao quarto lugar da lista de álbuns da Billboard nesse ano, os Fleet Foxes eram uma banda jovem com apenas dois discos que já recolhia muitos elogios, numa aparente fase de sucesso promissor que culminava com a digressão para promover o disco.

Desde então, mais nada. Os tempos que se seguiram à digressão acabaram, sabemos agora, por afastar Robin Pecknold, o homem da voz e da guitarra, e Skyler Skjelset, que também se ocupa das guitarras e que com o amigo de infância Pecknold foi fundador dos Fleet Foxes. Neste intervalo – um intervalo que chegou a durar mais do que o tempo em que estiveram ativos – os membros da banda ocuparam-se das suas vidas, sem sinal de se quererem reunir: o baterista Josh Tillman partiu definitivamente para se tornar a megaestrela sob o nome de Father John Misty; o baixista Christian Wargo arranjou tempo para lançar canções suas e reunir-se com a sua antiga banda, os Crystal Skulls; o multi-instrumentista Morgan Henderson lançou dois discos com a antiga banda The Cave Singers; Skjelset lançou várias canções a solo, e Casey Wescott, teclista, apareceu em vários destes projetos laterais.

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Bonito, não exagerado e surpreendente

Então e Robin Pecknold? Para o vocalista, os seis anos que passaram desde o lançamento de “Helplessness Blues” também foram conturbados: anunciando que ia mudar-se para Nova Iorque como estudante da Columbia University, para “tentar algo novo” e acabar por descobrir que o estudo não lhe trouxe uma justificação intelectual para fazer música mas que o ajudou a amadurecer, Pecknold dedicou-se ainda ao teatro musical (escreveu a banda sonora original da peça “Wyoming”, de 2015) e a lançar várias canções a solo.

Estas foram as tarefas que ocuparam o tempo de Pecknold, mas houve muito mais que lhe ocupou a cabeça. No tempo em que esteve afastado, o vocalista refletiu sobre a dificuldade que tem em “arranjar uma razão sólida, objetiva para viver”, e acabou por perceber que essa razão são os outros e o seu relacionamento com eles; e talvez exatamente por isso, refletiu também sobre a sua relação com o amigo de longa data Skjelset, aparentemente deteriorada, o que lhe serviu de material para os versos da nova “Third of May/Ōdaigahara” e para as 11 canções que compõem o novo álbum, “Crack-Up”, com data de lançamento marcada para 16 de junho.

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“Crack-Up”, que começou por ser anunciado com muitos teasers no Instagram durante o ano de 2016, tem muito que fazer para igualar o aclamado “Heplessness Blues” ou até o primeiro disco homónimo dos Fleet Foxes, o primeiro da carreira da banda, mas Pecknold está confiante e assegura, citado pelo “Observer”: “Estamos mais orgulhosos disto do que de qualquer outra coisa que tenhamos feito”. A um fã, respondeu nas redes sociais sobre o que se pode esperar do conteúdo do novo disco: “Bonito (..)/ Não exagerado/ Surpreendente”.

A relação com os fãs tem-se realmente intensificado nos últimos meses, com os teasers e sessões de gravação publicados no Instagram de forma recorrente, a alimentar uma espera que já se arrasta há muito tempo. “Ocorreu-me que um certo segmento de pessoas interessadas na banda iria gostar de seguir o processo de gravação a desenrolar-se em tempo real, de forma transparente”, explica Pecknold em entrevista à “Pitchfork”. “Sinto que Crack-Up começa com uma pura solidão em conflito e acaba com um fim brilhante, de aproximação (…) Gostava que o nosso próximo disco fosse uma celebração ou um desenvolvimento do fim de Crack-Up”.

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Da solidão à aproximação

A acreditar em Pecknold, parece que depois dos anos de paragem o entusiasmo com a música, em particular a dos Fleet Foxes, voltou em força e já com planos de novos discos e trocas de comentários com os fãs. Na mesma lógica da transparência, o vocalista tomou novas medidas e decidiu comentar no site Genius, que normalmente publica as letras de muitas canções com as possíveis interpretações dos versos por seguidores dos artistas, a letra de “Third of May/Ōdaigahara” verso a verso, deixando pouco à imaginação sobre o processo de criação da faixa de quase nove minutos que está a deslumbrar a crítica.

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Não sabemos se é por acaso ou não que o primeiro pedaço de “Crack-Up” que nos chega aos ouvidos constitui exatamente a quinta canção do disco, marcando a metade de um conjunto de canções que nos devem levar da solidão à aproximação. Um pouco como relata “Third of May/Ōdaigahara”, que se concentra na história dos últimos anos da relação de amizade entre Pecknold e Skjelset, e que por entre várias fases acaba por nos trazer de volta à luz que por vezes parece perder-se entre na separação física (neste caso, a separação que ocorreu depois dos meses de digressão que passaram juntos).

“O aniversário do meu amigo e colega de banda Skyler Skjelset é no dia 3 de maio, e o nosso disco ‘Helplessness Blues’ foi lançado a 3 de maio de 2011”, explica Pecknold sobre o título da nova canção. “[“Third of May/Ōdaigahara”) é sobre a minha relação com Skye. Refere-se à nossa distância nos anos seguintes à digressão desse disco, o sentimento de ter uma relação não resolvida, não correspondida, que é insistente psicologicamente. Mesmo que fosse necessário para o progresso algum tempo de separação, senti a falta da nossa ligação, especialmente a que tínhamos quando éramos adolescentes, e a letra desta canção surgiu desse sentimento”.

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“A luz acabou com a noite mas a canção permaneceu”

O guião que Pecknold nos deixa no site “Genius” é esclarecedor e começa por contar algumas das referências que teve em conta na altura de escrever a canção: o primeiro verso, “A luz acabou com a noite mas a canção permaneceu”, é feito para fazer lembrar versos dos génios Dylan (“Havia música de noite nos cafés e revolução no ar”) e Cohen (“Há música na rua Clinton durante toda a noite”) e transmitir uma ideia que é sobre a música, mas também sobre a amizade que une Pecknold e Skjelset: “Uma imagem de tocar música até de manhã”. A luz também referencia a luz que se reflete no chão no quadro de Goya, numa tentativa assumida de “tentar escrever uma letra que descrevesse aspetos do quadro e também aspetos da própria experiência” dos dois amigos.

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Os versos, uma espécie de história que nos conta tudo o que precisamos de saber sobre os tempos de sucesso, o hiato e o regresso envolto em paz e criatividade, estão divididos, pela época e os sentimentos que cada um representa: o primeiro verso, que decorre entre 2007 e 2009, “situa a canção o passado, no Northwest e numa tempestade”, e fala dos tempos de digressão em que Pecknold e Skjelset estavam “de pé, juntos, na linha de fogo”, assim como os espanhóis trucidados pelos franceses na obra de Goya.

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O segundo verso, passado entre 2012 e 2015 segundo as explicações do vocalista, anuncia que desta vez “a noite acabou com a luta, mas a canção permaneceu”: são tempos de uma “experiência que acaba em desacordo”, com os amigos a seguirem caminhos diferentes após “Helplessness Blues” e a respetiva digressão, e em que Pecknold questiona: “Oh, mas eu consigo ouvir-te, alto no centro / Não fomos feitos para estar juntos, como folhas de árvores?”.

Uma das passagens mais interessantes entre as várias fases e sentimentos descritos por Pecknold nestes versos acontece na evolução entre o primeiro refrão (“Fui muito lento? Mudaste do dia para a noite?”, reflete) e o segundo (“Fui demasiado lento? Mudei do dia para a noite?”), em que Pecknold assume ter querido tomar a responsabilidade pelo afastamento dos dois amigos. “Enquanto envelheço tento aceitar as pessoas como são e projetar menos nelas, sejam coisas ou más, sem criar donzelas ou heróis ou vilões em pessoas que são apenas indivíduos a fazer o melhor que podem com aquilo que lhes calhou e sorte”, explica à “Pitchfork”.

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A minha vida só faz sentido em contexto com os outros

Estas epifanias sobre a relação com os outros também se refletem no uso da palavra “linha”, que aparece em várias fases da canção com diferentes significados: “Linha de fogo, quando a banda enfrenta o público, a separação; (…) em vez destas linhas de divisão, a única linha que me deve importar é a linha que estendo de mim para os outros. Só sou digno do presente que é a minha vida quando procuro uma ligação, e a minha vida só faz sentido em contexto com os outros”, reflete no “Genius”. “Lembra-te da altura em que tudo ficou em linha, a 3 de maio / Como se tivesse sido planeado, desenhado na areia para ser levado pela água”, canta.

À medida que a canção avança e as reflexões de Pecknold também, até às conclusões finais – que tratam tanto da relação reencontrada com o amigo como da vida no geral – (“A vida desenrola-se em piscinas de ouro / Só mereço estes moldes se fizer uma linha a que me agarrar / Ficar preso dentro de si próprio é como morrer”, reflete no quinto verso) as próprias melodias e ritmos mudam, correspondendo a “diferentes perspetivas na idade da personagem”: a canção começa com a guitarra a acompanhar a voz num registo harmonioso mas quebra nos refrães de reflexão, mais melancólicos e sombrios.

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No fundo, a parte instrumental – que no quarto verso, de revolta e mudança de tom, inclui violinos a acrescentar intensidade – parece acompanhar um raciocínio com quebras e pausas que simbolizam os momentos em que Pecknold pára para refletir no passado e nos seus erros, com coros harmoniosos a acompanhar toda esta colagem criteriosa, e uma estrutura bem conseguida e pensada que ganha vida a cada verso. “Tudo será, para mim e para os meus, o que construirmos”, conclui Pecknold no quarto verso, que remete para a data já muito recente de janeiro de 2017.

Confia no teu instinto, aposta no que te parecer certo

São “apenas” oito minutos e cinquenta e dois segundos de novidade, mas a estrutura é complexa e há muito para ouvir, perceber e admirar em “Third of May/Ōdaigahara”, o prelúdio de “Crack-Up” (que será mostrado em digressão e irá passar também por Portugal, no NOS Alive, a 6 de julho). O crescimento de Pecknold e da banda é uma das maiores conclusões que se retiram desta amostra, que apesar de muito pensada e analisada é, sobretudo – e ainda bem – sentida.

Sobre os motivos que o período de pausa lhe deu para voltar a tocar e a sentir a música, o vocalista confessa, numa altura em que “Third of May/Ōdaigahara” parece augurar novos sucessos: “Os meus pensamentos sobre [tocar música] permanecem subjetivos e dispersos; tive de regressar ao ‘confia no teu instinto, aposta no que te parecer certo, e deixa que as razões pelas quais parece certo permaneçam de alguma forma misteriosas’”.