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Entre a espada e a parede 

nuno botelho

O boxe inspirou. A crise esmagou. O filme “São Jorge”, resultado de um longo processo que reuniu de novo Nuno Lopes e Marco Martins, estreia-se dia 9. O Expresso esteve lá desde o primeiro momento

Quarta-feira, de manhã. 15 de abril de 2015. Só se ouve o “paff… paff...” contínuo das luvas. O ranger da pele a roçar noutra pele. No Boxing Club Paulo Seco, a manhã cinzenta e húmida ficou de fora, ainda que as portas, viradas para a Avenida de Ceuta, permaneçam abertas. A agitação dos corpos levados ao extremo produz um ambiente abafado e húmido. No ringue, junto a duas janelas viradas para as traseiras, cinco pugilistas movem-se em círculo. À vez, dão socos numas luvas achatadas que o treinador Paulo Seco levanta pouco acima da linha do ombro. “Já está quase!”, repete a intervalos curtos, para motivar o grupo. O ator Nuno Lopes, banhado de suor, como todos os outros boxeurs, é um deles. No ar, ensaia gestos, movimentos. No chão, deitado de costas, desdobra-se em violentos abdominais.

O estúdio fica num rés do chão no bairro construído, junto a Alcântara, em Lisboa, para os antigos habitantes da encosta do Casal Ventoso. À conta das ordens do treinador e de uma campainha que, como em combate, vai assinalando os rounds, os homens desferem golpes na cara de adversários imaginários. Fazem gestos no vazio que alternam com séries de socos contra sacos de boxe pendurados em fila. No alto das paredes, em fotografias a preto e branco, suspende-se a memória de velhos pugilistas, antigas vitórias. Uma inscrição feita em letras grandes e brancas sob uma parede encarnada recorda que “nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer”. A frase parece apenas o remate de uma filosofia que Paulo Seco arranjou forma de espalhar pelas paredes. À entrada, uma coleção de outras afirmações, impressas em folhas A4, lembram que “todos têm o desejo de vencer mas só os campeões têm o desejo de se preparar para vencer”, que “o nosso corpo é um atleta e as nossas vontades são os nossos treinadores” ou que “algum suor poupa bastante sangue”.

Boxe. Nuno Lopes entregou-se totalmente à personagem. Durante dois anos frequentou o estúdio de Paulo Seco, treinador de pugilistas e ex-pugilista (na foto, à dir.), e treinou todos os dias ao longo de cinco meses para adquirir o corpo de Jorge

Boxe. Nuno Lopes entregou-se totalmente à personagem. Durante dois anos frequentou o estúdio de Paulo Seco, treinador de pugilistas e ex-pugilista (na foto, à dir.), e treinou todos os dias ao longo de cinco meses para adquirir o corpo de Jorge

josé ventura

Realidade. As cenas de boxe de Nuno Lopes foram filmadas na Venda Nova, num intervalo de um campeonato a sério

Realidade. As cenas de boxe de Nuno Lopes foram filmadas na Venda Nova, num intervalo de um campeonato a sério

nuno botelho

Nesta altura, Nuno Lopes já é velho conhecido dos frequentadores do estúdio. Paulo Seco gaba-lhe o jeito. Há dois anos que frequenta o ginásio, de vez em quando, e há mais de quatro meses que o faz todos os dias, para treinar, várias horas por dia. “São Jorge”, o filme, que o trouxe até ao lugar onde muitos homens recuperam a dignidade, ainda está a ganhar forma. As filmagens começam nos dias seguintes. Mas há muito que a semente do boxe foi lançada no corpo de Nuno. “São Jorge” nasceu de um desejo antigo do ator. “Sempre fui muito fascinado pelo boxe em Portugal, pela maneira como é descrito em ‘Berlarmino’, um dos meus filmes favoritos. Se se pensar nos grandes casinos de Las Vegas, e nos rios de dinheiro que transformam os pugilistas em milionários, o boxe é uma arte espetacular. Mas aqui, em Portugal, não é nada disso. É triste. Abandonado. Os campeões não ficam milionários. O primeiro combate que vi aqui foi a despedida do ‘Guerreiro do Norte’ e era num shopping. Em Portugal, é o desporto de uma pessoa que literalmente luta pela vida.” Marco Martins, a quem Nuno Lopes lançou o desafio de fazer um filme sobre este universo, não se quis prender ao género, ou “ao subgénero”, como diz: “É muito explorado, e tem uma estrutura clássica, com dois combates, a queda e ascensão... Não estava muito interessado em fazer um filme de género.” Foi, no entanto, no estúdio de boxe que Marco Martins — interessado em partir de material documental para a escrita — encontrou outra linha narrativa para o guião. “Pedi à Mariana Fonseca para fazer entrevistas nos ginásios, para saber como é que era o mundo do boxe em Portugal, como é que eram aquelas pessoas e como vivem.” As entrevistas acabaram por conduzir a outras histórias e à crise em que Portugal mergulhou nos últimos anos. De repente, o pugilista ou a ideia de o pugilista ser o motivo central do filme desaparecia. “Era o auge da crise, e a crise entrava pelo filme adentro. Começaram a surgir muitos boxeurs que faziam cobranças.”

Mudar o rumo do filme foi, para Nuno Lopes, uma consequência natural do percurso: “Apetecia-me falar de gente pobre. De gente pobre que luta. Com o Marco partimos sempre com uma ideia e nunca sabemos onde vamos chegar. É na viagem que descobrimos de que é que queremos falar. De repente já não fazia sentido ser um filme só sobre boxe.” A realidade das cobranças foi ganhando terreno, transformando o guião, modelando os ambientes, aprofundando a personagem central, introduzindo os bairros marginais de Lisboa e arredores, os lugares proscritos, o desterro de onde vinham aquelas pessoas. O boxe não saiu totalmente de “São Jorge”. Nem foi expulso. Só se aligeirou. Sobrou nos gestos, no movimento, na atitude, na pele endurecida da personagem a que Nuno Lopes dá corpo, um homem com dívidas que, para sobreviver, arranja trabalho a perseguir gente igual a ele, com dívidas.

O treino intensivo, a prática do boxe, iniciado tanto tempo antes do início das filmagens, nunca se revelaria um desperdício de tempo ou energia: “Começo sempre por pensar como é que será a cabeça das personagens, mas só sinto que sei, na verdade, como pensa quando tenho o corpo da personagem, quando sei como é que se mexe... Quando o corpo pensa.” Foi nesse sentido que o boxe foi fundamental para a construção de Jorge. “Adquiri movimentos, o andar ou a forma de estar daquele tipo de pessoas. Não apenas no treino. Também no convívio com aqueles homens. O que não quer dizer que ponha o físico à frente do corpo. Mas que para fazer a cabeça preciso do lado físico, porque o corpo também pensa. Tem memória.” No filme, o boxe foi remetido ao mesmo lugar que ocupa na vida daquelas pessoas que contribuíram para a construção da narrativa de “São Jorge”, para a formação das personagens. “É mais uma coisa que fazem, mas não é a vida deles, como acontece com a personagem do Jorge, apesar de ele ir ao ginásio e de se sentir bem naquele espaço”, diz Marco Martins.

Sábado à noite. 25 de abril de 2015

Chove copiosamente. À volta do pavilhão da União e Progresso da Venda Nova os carros amontoam-se, ocupando os lugares disponíveis. A um canto estão paradas três ambulâncias. Uma passagem estreita, entre dois edifícios, dá acesso ao pavilhão de futsal. Lá dentro os gritos ecoam: “Dá-lhe à direita! Isso! Pela esquerda! Boa... Vá!” As palavras misturam-se. Surgem daqui e dali. Juntas assemelham-se a um grunhido coletivo. Dois homens franzinos, de olhos abertos e prudentes, concentram-se no ombro um do outro. Não dão sinais de ouvir o que quer que seja. Dentro daquele quadrado, uma arena negra, rodeada de poderosos holofotes que remetem o resto do pavilhão para a penumbra, estão prestes a viver, frente a um par de centenas de pessoas, um pequeno drama que dura no mínimo três minutos, e se repete com intervalos de um minuto.

A atenção da dupla de pugilistas só se desvia um do outro para acatar as indicações do juiz, homem alto, de camisa acinzentada encimada no colarinho por um laçarote preto, cabeça rapada e brilhante, luvas pretas nas mãos e expressão afiada no rosto. Um homem de atitude superior, ainda que seja peça de uma engrenagem que se completa noutros dois homens, equipados com um cronómetro e uma campainha que aguardam frente a uma mesa colocada do lado oposto das bancadas de onde se debruça a larga audiência.

Ambiente. O bairro social da Bela Vista, em Setúbal, acabou por contaminar o filme. David Semedo (na foto em cima), o miúdo que faz de filho da personagem de Nuno Lopes, foi a grande revelação, para o realizador, Marco Martins (na foto em baixo, à esq. na foto)

Ambiente. O bairro social da Bela Vista, em Setúbal, acabou por contaminar o filme. David Semedo (na foto em cima), o miúdo que faz de filho da personagem de Nuno Lopes, foi a grande revelação, para o realizador, Marco Martins (na foto em baixo, à esq. na foto)

JOSÉ VENTURA

JOSÉ VENTURA

JOSÉ VENTURA

Ao nível do solo, mais perto do ringue, uma plateia, que se presume mais íntima aos pugilistas, segue com atenção, esticando o pescoço na direção dos dois lutadores. Neste grupo há sempre um treinador ou um familiar que se agita, gesticula, grita, e entre as fileiras de cadeiras, algumas crianças, alheias ao que se passa no ringue, brincam. Outras aninham-se ao colo dos adultos.

Os mais graúdos desenham socos no ar, como se já estivessem a treinar para um dia substituírem aqueles que agora se debatem debaixo dos holofotes. Um bebé dorme dentro de um carrinho, indiferente à barulheira, aos gritos que disputam os nossos ouvidos, ao ruído da chuva que continua a cair sob as telhas de zinco, às duas miúdas delicadas que acabaram de subir ao ringue para lutar. Numa das esquinas, um mão cheia de bombeiros, homens e mulheres. Aguardam a possibilidade de serem necessários. O que só acontecerá uma vez da noite e num dos combates mais violentos.

Os combates são sérios. Feitos por pessoas reais, para quem o boxe não é uma ficção, mas mais uma forma de trazer ordem e sentido à vida. A presença da equipa de Marco Martins é, por isso, apenas um interstício. Um raro intervalo. Um espaço que se abre na vida daquelas pessoas. Uma intromissão da ficção, na realidade, feita pelo cinema, para ‘vampirizar”’ aquele ambiente tão especial, ao incrustar-se no coração de um campeonato de boxe, e assim ‘dispensar’ o make up, os efeitos especiais, filmando o suor e o sangue. Nuno Lopes aguarda. Em pé junto a um túnel de luz que vai dar aos balneários do pavilhão. Já vestiu a pele do pugilista Jorge, “Guerreiro” no ringue. Cabelo rapado, dos dois lados da cabeça. Ténis nos pés. Fato de treino no corpo. Está prestes a subir à arena. Há um vazio no olhar que não é de Nuno. Mas de Jorge. Numa das mãos carrega uma mala de desporto, elevando as alças até ao ombro. A outra repousa no ombro do miúdo que o acompanha. É o filho de Jorge. Nelson, interpretado por David Semedo. Nove anos de gente, e dois olhos muito profundos. “A revelação de ‘São Jorge’”, diz Marco Martins.

Filho de pai cabo-verdiano e mãe cigana, David tornou-se, para o realizador, a personagem mais fascinante do filme: “Eu sabia que queria um miúdo, mulato ou negro, que fosse a combinação do Nuno Lopes e da Mariana Nunes (a atriz, brasileira). Partimos de um universo muito grande, mas com o David a empatia foi imediata.” Nuno Lopes também não lhe poupa elogios: “David é um talento nato, um príncipe. Tem um ar doce, uma gentileza, um respeito e uma sensibilidade que não correspondem ao estereótipo de quem vive no bairro social da Bela Vista (em Setúbal). É um ator. Gosto de imaginar que o Jorge também era assim, que também tinha inocência por detrás da casca dura.”

Nuno Lopes sobe a palco, enquanto os verdadeiros pugilistas aproveitam o intervalo para descansar. Nuno fará dois ou três assaltos, dos quais apenas este restará na montagem final de “São Jorge”. Ainda filmaram num centro comercial, onde viram o primeiro combate de boxe, a despedida do “Guerreiro do Norte”, mas quando incluíram essas cenas no filme, ninguém as achava verosímeis. “As pessoas não acreditavam que aquilo se passava assim”, conta Nuno Lopes.

No ringue, o ator leva um soco. Outro. Lá em cima, dirá mais tarde, não é a dor que o preocupa. Nem a raiva que o domina: “As pessoas veem o boxe como dois tipos que estão à porrada. Mas quando se está num ringue a última coisa que se sente é raiva da outra pessoa, porque quem a tiver vai perder o combate. É um desporto muito racional, em que se está constantemente a pensar na técnica. Nunca se pensa: ‘Ai, vou-lhe dar um soco’. Pensa-se: ‘Ele tocou-me na cara e ganhou um ponto’. Esse lado racional sobrepõe-se muito mais à dor física. Só dói durante dois segundos e depois já não.” Com ou sem dor, a cara de Nuno Lopes acusa os socos. “Fiquei negro e cheguei a ter um pequeno golpe que aproveitámos para o filme.” Ou seja, a maquilhagem foi decidida pelo que aconteceu.

O guião, assinado por Marco Martins e pelo escritor Ricardo Adolfo, amigo de longa data do realizador, não deixa de ser moldado ao ator, Nuno Lopes, e à ideia de um homem perdido, em fuga, à procura de uma saída, ou de um futuro, para a sua família. Mas é totalmente permeável às pessoas que surgiram no caminho, contribuindo para a construção da narrativa. Paulo Seco, por exemplo, ao entrar no filme, como treinador de Nuno Lopes, fá-lo sendo ele próprio. Quando Nuno Lopes sobe ao ringue, para Paulo Seco “não muda nada!” O seu papel, à volta do ringue, ou nos balneários, é o de treinador. Igual ao que desempenha aos fins de semana, sempre que acompanha os pugilistas pelo país fora, ou em todas as manhãs, no ginásio, na Avenida de Ceuta. “O combate de Nuno é a brincar mas até acabamos por levá-lo a sério”, diz Paulo Seco. Marco Martins confirma: “Em Paulo Seco e em toda a equipa de boxe, assim como alguns dos habitantes dos bairros, sentia-se uma certa paixão.”

A ideia de ter pessoas que estão a fazer delas próprias, não é nova no trabalho de Marco Martins. Começou muitos anos antes, no teatro, quando foi convidado pelo programador Renzo Barsotti a criar um projeto de intervenção artística dentro do acampamento cigano de Baralha. Na altura, ainda pensou em fazer um espetáculo com aquela comunidade, mas acabou por não escolher esse caminho. Algum tempo depois, a ideia de trabalhar com não atores estendeu-se, pela mão do mesmo programador, aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, onde o realizador descobriu que ‘os amadores’ lhe permitem encontrar uma renovada e infinita frescura. “O cinema português vive sobretudo de não atores, como acontece com Pedro Costa ou João Pedro Rodrigues, mas eu, até por ter proximidade com atores, nunca tinha pensado nisso.”

O trabalho dos “Estaleiros”, cuja encenação coassinou com o ator Nuno Lopes, foi, por isso, fundador deste filme. Marco Martins diz que lhe abriu muitas janelas: “Até esse trabalho nunca me tinha ocorrido trabalhar com não atores. Mas a relação com aquelas pessoas foi incrível. Muitas delas continuaram a representar depois...” Para Nuno Lopes não há dúvidas. “São Jorge” existe graças aos “Estaleiros”. “Despertou em nós um interesse que tinha mais a ver com um lado social e político. Não que isso não estivesse na minha vida, mas eu e o Marco trabalhávamos, de uma maneira geral, dramas familiares. ‘Estaleiros” foi importante para o ‘São Jorge’, de tal maneira os tipos da fábrica no ‘São Jorge’ são os tipos dos ‘Estaleiros’.”

Domingo. Final da tarde. 
17 de Maio de 2015

Na fábrica de metalomecânica em Loures um raio de sol desenha um risco na parede amarela. É mais um traço num emaranhado de outros traços metálicos. Marco Martins tem encontro marcado com alguns dos não atores que conheceu nos Estaleiros de Viana do Castelo e que deram origem ao espetáculo que antecedeu a privatização daquela instituição. Os homens vieram de propósito, e com claro entusiasmo, aproveitando o fim de semana, para mais uma vez se transformarem neles mesmos, operários. Não dos estaleiros, mas de uma fábrica de metalomecânica onde a personagem de Nuno Lopes e do seu pai, interpretado por José Raposo, trabalham.

As máquinas não funcionam. Estão paradas. A empresa está prestes a fechar, e a situação que se filma, naquele dia, é a de um suicídio por enforcamento. A cena é complicada. Ao longo de várias horas fazem-se imagens do homem antes da queda; do homem depois da queda. E até do homem pendurado. No filme final, porém, já nada disso resta. A não ser a presença daqueles trabalhadores a discutir o seu não futuro, provocado pelo encerramento da fábrica. Algo que de certo modo já tinham discutido antes, quando muitos perderam, de facto, o emprego nos Estaleiros de Viana. A ausência do enforcamento do operário é para Marco Martins resultado do processo normal de construção desta obra: “Quando começo a filmar recomeço um novo processo criativo. Sou um pouco perigoso ao ponto de fazer desaparecer personagens, linhas narrativas... A uma dada altura tinha quatro horas de filme. A montagem acabou por ser uma reescrita.” Para Nuno Lopes, é o resultado de uma longa viagem, iniciada cinco anos antes, quando começaram a pensar fazer este filme, e que só terminou na mesa de montagem.

Quinta-feira à tarde. 21 de Maio de 2015

Zé Pires, responsável pelo casting, coordena uma vintena de miúdos, sentados nas escadas que dão acesso a um dos blocos de apartamentos do bairro social da Bela Vista, em Setúbal. A ideia é entretê-los até entrarem em cena. Serão os amigos de Nelson, o filho do Jorge.

Durante horas o bairro para. As pessoas saem de casa, espreitam das janelas ou juntam-se em grupos. Alguns mais afoitos metem-se com Nuno. É preciso filmá-lo na pele de Jorge a entrar e sair da casa onde vive. Apesar de as filmagens já levarem algum tempo aparece sempre mais alguém para conhecer o ator. É o caso de um grupo de adolescentes ou de uma família de ciganos. As cenas são filmadas na “zona amarela” do bairro, onde duas etnias se encontram. Nuno Lopes não se desapacienta. Parece ter uma disponibilidade infinita. Responde quase sempre com um sorriso, uma palavra simpática.

Marco Martins diz que demorou muito tempo a escolher o bairro onde queria entrar. “Fiz uma pesquisa em quase todos os bairros de Lisboa e a sul de Lisboa, e a uma dada altura achei que queria filmar no Bairro da Bela Vista. É uma experiência social explosiva, com habitantes de três etnias. Há a zona rosa, amarela e azul, e cada uma delas corresponde a um grupo étnico diferente.” O realizador escolheu o amarelo, onde vivem os brancos, mas isso não quer dizer que não haja misturas, como acontece com o próprio David Semedo, filho de pai cabo-verdiano e de mãe cigana.

Na casa do pai de Jorge, os únicos atores são Nuno Lopes, José Raposo e Beatriz Batarda. Os outros intervenientes, além dos trabalhadores dos estaleiros, que também servem de visitas, foram pessoas que o realizador foi trazendo para dentro do filme: “Fiz muitas entrevistas, e a dada altura aquelas entrevistas eram mais importantes do que aquilo a que eu pudesse chegar. Tinha personagens escritas, mas resolvi começar a convencer certas pessoas a entrarem no filme, criando um sistema híbrido, que não segue uma estética documental, porque não estou a seguir a vida de uma pessoa, nem a intervir no dia a dia dela, mas que me permitiu fazer um retrato muito atual e preciso sobre a situação daquelas pessoas, a crise em que estavam a viver. Essa era uma possibilidade que não podia deixar de trazer para o filme, contaminando-o.”

Ao princípio, as pessoas eram muitas, as que estavam interessadas, as que participavam nas conversas promovidas pela equipa de Marco Martins na escola do bairro. Com o tempo foram diminuindo. Acabaram por entrar no filme as mais assíduas. “Havia outras pessoas muito interessantes mas que se desinteressaram, e algumas mesmo a meio do filme.” Luís, um dos que passa na rua, naquele dia, já não quer ser filmado. Aparece a cantar na carrinha que traz Jorge a casa depois do combate de boxe, mas depois desaparece das filmagens e do filme, sem que isso cause maior impacto no trabalho de Marco Martins: “Eu tinha uma estrutura narrativa que permitia essa descontinuidade. As pessoas podiam entrar e sair.”

As improvisações, a “máquina de fazer guião”, como lhe chama o realizador, passou a nutrir-se daquelas pessoas e de diversas conversas, improvisações, filmadas ao longo de horas. “Havia assuntos recorrentes: o bairro, a segurança social, o rendimento mínimo, os bancos e os empréstimos de dinheiro.” Mas as conversas também refletiam as tensões entre etnias, o racismo, que existem dentro do bairro, o incómodo que muitos sentem face aos benefícios obtidos pelos ciganos. A dada altura, e isso ficou no filme, uma das figuras da casa diz “não ponham os ciganos na nossa sociedade, ponha-me a mim na sociedade deles”, como forma de se lamentar pela atenção e dinheiro concedidos aos ciganos.

À distância, já com o filme pronto a estrear, Marco Martins considera que o tempo, normalmente um aliado, no caso do Bairro da Bela Vista não funcionou a favor. “A tensão não diminuiu à medida que fomos filmando. Foi aumentando, ficando cada vez pior, porque a curiosidade sobre o que fazíamos foi desaparecendo e dando lugar a uma raiva contra o sistema em geral, de que nós, quer queiramos quer não, fazemos parte, uma vez que somos pessoas que temos o privilégio de estar a fazer um filme... Eles não perceberam bem o que estamos ali a fazer, fartaram-se. Deixaram de ter interesse em ajudar.” Um movimento contrário ao que aconteceu no Bairro da Jamaica, onde a ex-mulher de Jorge (interpretada por Mariana Nunes), uma brasileira negra, é vítima de racismo pelo próprio sogro.

No Seixal, no Bairro da Jamaica, onde, garante Marco Martins, nunca ninguém havia filmado antes, a ajuda de uma assistente social foi crucial, como noutros sítios. “Fui começando a lá ir e a sentir-me muito bem. Ao contrário do Bairro da Bela Vista, a Jamaica é um bairro com sentido comunitário onde nunca senti nenhum perigo, embora existam histórias terríveis, de pessoas degoladas e desaparecidas...”, conta o realizador, que começou por pedir para ter a polícia nas filmagens, como de resto aconteceu na Bela Vista, e acabou por ter de a dispensar ao perceber que tinha perdido a confiança das pessoas. “A presença da polícia parecia só um pretexto para entrar no bairro e fazer uma rusga. Parei as filmagens, e felizmente compreenderam. As pessoas acabaram por entrar no filme de uma forma muito generosa e genuína. Foi sempre bom filmar na Jamaica. Na Bela Vista era sempre muito mais tenso.”

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Para Nuno Lopes, que partilha da opinião de Marco Martins, e que atribuiu a este filme uma relevância sem igual no seu percurso, menos pelo reconhecimento que o filme lhe deu (ganhou em Veneza o Prémio Especial de Melhor Ator, na secção “Orizzonti”), e mais pelo envolvimento que teve na sua construção, o mais difícil foi deixar estas pessoas para trás. “Nunca fico bem com a sensação de abandono que deixo nos outros, porque sei que deixo. Para mim é um trabalho. E por muito importante ou marcante que seja, é só mais um filme, um trabalho. Lido mal com esse lado de vampiro, e é por isso que é importante ir buscar estas pessoas para outros projetos ou irmos revendo-as, de modo a não perder o contacto.”
Na primeira cena que Nuno Lopes fez com David Semedo, aquela em que o miúdo tinha de estar triste por assistir ao combate do pai, pediram-lhe que pensasse numa situação da vida dele em que se sentisse triste. David olhou para Nuno e perguntou: “Pode ser no dia em que o meu pai foi preso?”

A realidade é mais profunda do que a ficção.“De repente, estava a falar com um miúdo de 9 anos cujo pai já tinha sido preso. São momentos desses, como foi a visita à mãe do Rui Pedro no “Alice” que nos fazem sentir a responsabilidade do que se está a contar. Podemos ter ideia do que queremos falar social e politicamente, mas de repente a realidade traz à tona o que é realmente importante. De repente, tenho a responsabilidade de falar de pessoas que apanham sucata para poder almoçar no dia seguinte, tenho obrigação de falar do David... A realidade cria essa responsabilidade, não só a de criar um filme, a de o filme passar a ser sobre eles. A realidade diz-te: ‘É bom que faças isto bem porque tens a responsabilidade de representar essas pessoas.’ A realidade põe-nos numa posição boa: entre a espada e a parede.”