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Álvaro Siza a um passo da Alhambra

ALHAMBRA Álvaro Siza tem um projeto para intervir nos acessos e jardins do palácio

REUTERS/PEPE MARIN

Patronato do monumento granadino desloca-se ao Porto para reunir com arquiteto e tenta evitar a perda de dois milhões de euros já gastos no processo

Ainda nenhuma porta está em definitivo fechada e o projeto de Álvaro Siza para a construção de um novo acesso ao conjunto monumental da Alhambra tem condições para vir a ser retomado, depois de posto de lado com base num parecer de um organismo espanhol ligado à UNESCO que o considerava “invasivo”. Para isso poderá vir a ser decisivo o encontro no Porto, durante a próxima semana, entre o arquiteto e representantes do Patronato da Alhambra.

Paralisado há mais de um ano, o projeto de Siza, feito com a participação do arquiteto granadino Domingo Santos, foi o vencedor, por unanimidade, de um concurso público internacional cujos resultados foram anunciados a 22 de fevereiro de 2011. Participaram no processo de escolha todas as instituições representadas no Patronato da Alhambra e Generalife. Os problemas começaram a surgir quando uma estrutura espanhola de consultadoria, a Icomos, ligada à UNESCO, emitiu um parecer, não vinculativo, segundo o qual o projeto de Siza teria um carácter “invasivo” e um “impacto negativo no valor universal excecional deste monumento Património Mundial”.

A Icomos acabou por assumir que o projeto é bom, mas não para aquele local. Álvaro Siza assinala o paradoxo e afirma que “se o projeto não serve para o lugar, não pode ser bom. É mau”. Durante a última campanha eleitoral na Andaluzia chegaram a aparecer panfletos do PP com desenhos a exagerar o impacto do projeto no conjunto monumental. Por tudo isso, e enquanto não houver mais desenvolvimentos, para Siza, “este projeto é coisa do passado, até por uma questão de sanidade”. De resto, assegura, até o momento nunca teve qualquer informação oficial sobre o que se está a passar, “para o bem e para o mal”.

Nesse sentido, é com naturalidade que aguarda o encontro da próxima semana e admite, até, a hipótese de poder ocorrer uma qualquer mudança no projeto. “Depende, porque há uma reação à sua dimensão e pode haver a perspetiva de pedir para diminuir a área, mas isso será impossível”.

Mesmo se há abertura para o diálogo, Siza sublinha que “o programa era muito pormenorizado. A área é a que vinha no concurso”. Da parte dos espanhóis, e para lá de todos os movimentos de apoio ao projeto de Álvaro Siza e Juan Domingo Santos, nomeadamente pelos colégios de arquitetos, há também a ideia de tentar não desperdiçar os dois milhões de euros já investidos num catálogo sobre a flora, análise de materiais e outros estudos. O orçamento global da obra ronda os €45 milhões.

8500 visitantes por dia

O programa, proposto pela anterior direção do Patronato, prevê uma maior racionalização das áreas de acesso do público a uma estrutura que recebe 8500 visitantes diários. Os objetivos definidos passam por adequar toda a zona dos serviços de informação, atendimento ao público e distribuição de bilhetes. O projeto inclui um salão para a exibição de documentários em 3D, espaço para informação turística e uma sala de exposições.

Uma vez que os jardins e a paisagem são algo de crucial para o entendimento da Alhambra, o projeto de Siza prevê a recuperação dos antigos terraços agrícolas com uma sucessão de plataformas com pátios de sombra e água. O objetivo é devolver a visão da Torre da Água, da Porta dos Sete Solos e das muralhas do forte.
Os arquitetos criaram um terraço panorâmico e um edifício de acolhimento por baixo do terraço, de modo a que tudo ficasse de alguma forma absorvido pelo declive do terreno, de modo a minimizar o impacto visual.

Deste modo, diz Siza, “se há uma dimensão e uma expressão excessivas, é o que foi sugerido”. Ao caracterizar o projeto, o arquiteto fala da “beleza dos palácios árabes e a sua inserção na paisagem”, da monumentalidade do Palácio de Carlos V, construído no interior da Alhambra, e dos muros e torres, testemunhos da função defensiva.

O sujeito do projeto é um átrio, um centro de visitantes e o percurso que se faz nos espaços islâmicos. Isso mesmo pode ser visto na exposição agora inaugurada no Museu de arte Contemporânea de Serralves, intitulada “Visões de Alhambra”, originalmente apresentada em Berlim, por Kristin Feiriss, membro do júri do Prémio Pritzker e uma grande entusiasta desta intervenção de Siza em Alhambra. A mostra esteve já no Vitra Design Museum, em Weil am Reim, na Alemanha, no Palácio Carlos V, em Granada, em Oslo e no Canadá.

Património da Humanidade, o conjunto monumental de Alhambra e Generalife é, depois da Sagrada Família, em Barcelona, o segundo mais visitado de Espanha, com 2,5 milhões de entradas em 2015.