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A delicada beleza dos palácios árabes

ALHAMBRA Álvaro Siza tem um projeto para intervir nos acessos e jardins do palácio

REUTERS/PEPE MARIN

Um dos dilemas, ou problemas, se quisermos, com o qual lidam hoje os arquitetos resulta de uma constatação simples. Do ponto de vista de uma certa opinião estabelecida é fácil compreender que um edifício com dois ou três séculos seja considerado património histórico, tantas vezes independentemente da sua qualidade efetiva, mas revela-se cada vez mais complexo aceitar essa mesma qualificação quando se trata de construções contemporâneas. O resultado é ficarem desprotegidas, por só com muita dificuldade se lhes reconhecer essa importância patrimonial, estatuto pelos vistos conferido pela idade.

De alguma forma passa-se algo de similar com o projeto de Álvaro Siza para a requalificação de vários espaços de acesso ao conjunto monumental do Alhambra, em Granada, monumento classificado como Património da Humanidade.

Descontadas as sinuosas decisões decorrentes, antes de mais, do exacerbado combate político entre PSOE e PP, um com responsabilidades no Ayuntamento, o outro a governar a Junta da Andaluzia, não deixa de ser verdade a existência de outras motivações, algumas resultantes do modo como é olhada a arquitetura contemporânea, no processo de cancelamento de um projeto que até fora aprovado por unanimidade por um júri composto por especialistas e todas as estruturas representadas no Patronato do Alhambra.

Visualização 3D do projeto de Siza

Visualização 3D do projeto de Siza

FOTO ARQUIVO ÁLVARO SIZA

Não se sabe ainda se o projeto de Siza vai ou não avançar. É provável que sim. Porém, ouvir o arquiteto falar sobre um processo que diz não o magoar, até pela idade e pela quantidade de situações parecidas já vividas ao longo do tempo, não deixa de ser um exercício de grande didatismo.

Desde logo pelo amor e respeito revelados por Siza para com a beleza dos palácios árabes, que procurou respeitar no seu projeto. Assume ter trabalhado com os sentidos postos na tentação de beleza projetada pela Alhambra, sem perder de vista uma outra referência: o Palácio de Carlos V, construído no século XVI no interior da fortaleza.

Aí está o ponto fulcral. Não passa hoje pela cabeça de ninguém questionar aquele palácio e, no entanto, pode dizer-se, nada tem a ver com a arquitetura da Alhambra e possui uma escala e uma volumetria totalmente divergentes da delicadeza dos espaços onde foi inserido.

O arquiteto Pedro Machuca (1490-1550) responsável pela obra trabalhou num contexto de reconquista cristã dos territórios árabes da Península Ibérica. Claramente quis marcar essa diferença através daquele palácio renascentista construído em glória de Carlos V. Ou seja, e como já o disse Siza, trabalhou com a pressão e a realidade do novo poder.

Álvaro Siza na inauguração da exposição “Visões de Alhambra”

Álvaro Siza na inauguração da exposição “Visões de Alhambra”

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Ainda assim, o palácio constitui hoje parte inalienável da Alhambra. A sua autenticidade revela-se na perceção de que não terá correspondido a um capricho do arquiteto. É, antes, a tradução das transformações pelas quais estava a passar o reino.

Ao assumir esta possibilidade de intervenção num tão forte conjunto patrimonial, Siza tinha como adquirido que a convivência com o já construído não pressupunha fazer igual. Imitar. Trata-se de encontrar o tom justo num projeto que corresponde a necessidades específicas e diferentes necessidades.

O cancelamento da obra não resolveu nenhum dos problemas. A Alhambra continua a ter de lidar com uma média de 8 500 visitantes por dia e torna-se indispensável conferir uma maior racionalização às áreas de acesso do público. Siza intervém ainda anos jardins e prevê a recuperação dos antigos terraços agrícolas com uma sucessão de plataformas com pátios de sombra e água.

Teve dúvidas, como as tem sempre, ao longo do desenvolvimento do projeto. Como gosta de dizer, quando num projeto não se tropeça em dúvidas, é o deserto.

Maquete do projeto para Alhambra

Maquete do projeto para Alhambra

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

A Alhambra é um desafio. De longe, de tempos passados, projeta para o presente uma beleza singular. Foi essa beleza que Siza tentou captar, não para dela se apoderar, mas como referência. Mesmo se inimitável. Por ser única a delicada beleza dos palácios árabes.