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“Um grande poeta da prosa” recebe o seu festival

Húmus, um evento inteiramente dedicado a Raul Brandão, termina amanhã a sua primeira edição em Guimarães

Luís M. Faria

Jornalista

Está a decorrer a primeira edição de um festival dedicado a um dos escritores portugueses mais importantes do século XX. Húmus, que amanhã termina em Guimarães, é inteiramente dedicado a Raul Brandão (1867-1930). Começou por causa do desejo que a câmara municipal tinha de comemorar os 150 anos do escritor. Brandão não é originalmente da terra – nasceu na Foz do Douro – mas escreveu as suas principais obras na casa que lá construiu, depois de se reformar como oficial do exército.

A terra já antes o tinha homenageado, nomeadamente com a biblioteca que leva o seu nome e que foi uma das pioneiras da Rede de Leitura Pública. Agora surge um evento literário com características algo específicas. Segundo o comissário do Húmus, Francisco José Viegas, “tratou-se de fazer uma programação muito simples, que fosse ao encontro das escolas, do público daqui”. Esse propósito não impede que se realizem alguns debates mais adultos. Um ocupa-se de Brandão enquanto jornalista. Outro, hoje à noite, pergunta “O que ficou de Raul Brandão na Literatura Contemporânea”.

Sobre esta última questão, Viegas resume: “Brandão, além de ter escrito “Húmus” e “Os Pescadores”, duas obras fundamentais, também escreveu as suas memórias, onde encontramos o retrato do regicídio e da república, um desenho do Estado social”. (No final do mês, os três volumes das memórias, reunidos num único, sairão na editora Quetzal, dirigida por Viegas. Fica a publicidade, que neste caso poderá ser considerada serviço público.)

“Um grande poeta da prosa”

Viegas lembra que Brandão é igualmente autor daquele que considera “o livro de viagens mais bem escrito da nossa literatura: As Ilhas Desconhecidas”. Trata-se portanto de um autor cuja fama não acompanha a sua importância real. “Antecipou o nouveau roman e as tendências posteriores. Massacrado pelo Pessoa, acabou por não passar”, justifica Viegas. Para o leigo, poderá ser útil um confronto – por exemplo, com Aquilino Ribeiro? Viegas distingue: “Sendo contemporâneos, são de linhagem completamente diferente. Aquilino é um vitalista. O Brandão é um grande poeta da prosa, muito mais contemplativo, religioso”.

Em termos gerais, explica Viegas, o Húmus não quis ficar circunscrito a um fim de semana. As idas às escolas, em lugar de serem, como é habitual nestes eventos, o warming up nos dois dias anteriores ao festival propriamente dito, decorreram ao longo de um ano. "Este fim de semana é o culminar", explica o comissário. "Já cá vieram o Afonso Cruz, a Lídia Jorge, o Pedro Mexia, o Mário Cláudio”. Outros nomes agendados: Abraão Vicente, Laborinho Lúcio, Inês Pedrosa, Fernando Pinto do Amaral, Renato Filipe Cardoso. Catarina Wallenstein, Kalaf Epalanga (dos Buraka Som Sistema), Nuno Costa Santos, Miguel Real…

Sessões solenes, apresentações de livros e encenações teatrais também surgem no programa. E como a contemplação está associada à natureza, o Húmus inclui leituras de poemas ao ar livre e passeios pelos jardins. “Por causa da relação de Brandão tinha com as árvores”, diz Viegas. Amanhã, domingo, será inaugurado um novo espaço verde, o Jardim Rauliano, antes de sessões em que participam Rui Tavares e a fadista Aldina Duarte.