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Com a verdade nos enganam

INSIDE JOB? O golpe fracassado na Turquia, em julho de 2016, acabou por fortalecer Erdoğan. Que envolvimento teve o seu Governo?

FOTO MSTYSLAV CHERNOV

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Pós-verdade, dizem agora. Factos alternativos. Mentira, dizia-se dantes, e não era assim tão diferente. Novilíngua e duplipensar, escreveu Orwell, quase premonitório. O certo é que a verdade, valor que nos ensinaram a ter por supremo, nunca esteve a salvo de maus-tratos. Costuma ser, inclusive, a primeira vítima da guerra, como dizia, há 2500 anos, o dramaturgo grego Ésquilo de Elêusis, citado no prólogo da obra que hoje aqui trazemos.

Deturpada, abafada, proibida, moldada a conveniências e interesses, a verdade é muitas vezes o que os poderosos decidem. A sugestão desta semana dá conta de duas dúzias de episódios em que assim foi. Versões oficiais que diferem dos acontecimentos no terreno servem, em paragens que vão de Cuba à Turquia, para fortalecer poderosos ou dar pretexto a solavancos no curso da História. Os casos escolhidos por Eric Frattini vão de 1898 ao ano passado.

IRÃO. Festejos após a revolta contra o primeiro-ministro Mossadegh, fomentada pelas potências ocidentais

IRÃO. Festejos após a revolta contra o primeiro-ministro Mossadegh, fomentada pelas potências ocidentais

d.r.

O autor é um jornalista, antigo correspondente em Beirute e Jerusalém e guionista de reportagens de investigação na rádio e na TV. Tem horizontes amplos, mas serviços secretos e Vaticano são dois pilares do seu trabalho, versado em dezenas de livros sobre temas que vão da Mossad à vida sexual dos papas. Está editado em quase meia centena de países, incluindo (proficuamente) o nosso.

OPERAÇÕES DE FALSA BANDEIRA

“Manipulação da Verdade” centra-se nas chamadas operações de falsa bandeira, desencadeadas por Estados para ludibriar a opinião pública e encontrar desculpas para ações armadas, repressão ou cerceamento de liberdades. Se o incêndio do Reichstag (Parlamento alemão), em 1933, permitiu que Hitler culpasse os comunistas e endurecesse o regime nazi, o que aconteceu em julho último na Turquia não deu menos jeito ao Presidente Recep Tayyip Erdoğan. Em capítulos de 10 a 20 páginas, Frattini traz a lume histórias esquecidas de natureza similar.

BERLIM O incêndio do Reichstag foi um ponto álgido da ascensão nazi

BERLIM O incêndio do Reichstag foi um ponto álgido da ascensão nazi

d.r.

Já ouviu falar do incidente de Gleiwtiz? Das operações Mainila, Ajax, Northwoods ou Krysha? Ainda se deve lembrar das armas de destruição maciça que justificaram a invasão do Iraque por George W. Bush em 2003, mas que dizer do urânio do Níger que levou, inclusive, à perigosíssima divulgação da identidade de uma agente secreta americana, por mera vingança? O denominador comum entre estas ocorrências é o que está no título da obra: manipulação da verdade, quando não assassínio da mesma.

“Manipulação da Verdade” Eric Frattini Bertrand, 384 páginas, €17,70

“Manipulação da Verdade” Eric Frattini Bertrand, 384 páginas, €17,70

Frattini, cujas ocupações incluem dar aulas em cursos sobre segurança, tem o cuidado de citar copiosa bibliografia, não só no final do seu volume como a fechar cada episódio. Há fotografias, facsímiles de documentos e iconografia a enriquecer as suas palavras. Ou a sustentar aquela que é a sua principal preocupação. A verdade, aqui sem manipulações.