Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Claves de sol e sombra

O musical voltou à ribalta graças a “La La Land”. Mas o único mérito que trouxe foi o de possibilitar um regresso às origens da essência do musical e perceber que o passado é, em muitas coisas, um lugar de sonho que o presente corre o risco de desvirtuar

Reinaldo Serrano

Esta crónica é dedicada a todos aqueles que, por razões que a própria razão desconhece, descobriram agora o interesse e, com ele, a apetência para os musicais no cinema. Dentro da dedicatória cabem ainda os influenciáveis do marketing, do boca a boca, do “diz que é bom, por isso vou ver”, dos que são levados pela crítica, pelo abominável “trending” que, pasme-se!, subjuga ao interesse plural a autonomia do singular, fomentando uma expressão britânica, ela própria agora transformada em título de filme: “Keeping Up With The Joneses”.

TENDÊNCIAS... Cena de “Keeping Up With The Joneses”

TENDÊNCIAS... Cena de “Keeping Up With The Joneses”

Significa esta tirada inglesa que o importante mesmo é acompanhar os pertences (eventual sinónimo de progressão social) dos vizinhos. A questão mais perniciosa das modas, a que agora se chamam tendências, é a sua cumplicidade obrigatória para com os seus seguidores. Naturalmente que tal condição deriva em perversões mais ou menos objetivas (mas não menos subjetivas) dos conceitos de estética, de apreciação, de justeza de valores, enfim, do gosto ou da falta dele.

Surge esta divagação a propósito do sucesso mundial de “La La Land”, a película que venceu e perdeu em dois minutos e meio a estatueta de Melhor Filme na cerimónia dos Óscares. O incidente ganhou foros de escândalo, o escândalo ganhou foros de incidente e, involuntariamente, difundiu ainda mais a fama que o filme alcançara, bem como o do seu “rival” “Moonlight”. O que aconteceu foi inqualificável, mas não é esse o foco de atenção que aqui se pretende sugerir. O que aqui se procura é lembrar um pouco a origem dos musicais e porque motivo preencheram durante décadas o imaginário de Hollywood; simultaneamente, tentarei modestamente e sem sobranceria lembrar alguns filmes que honraram o género que, inesperadamente, voltou à... baila nos prémios maiores da história do cinema.

Desde logo, cumpre aqui referir que a projeção do musical se deveu em boa parte (mas não só, naturalmente) à demanda censória que no início dos anos 30 assolou a meca do cinema: o Código Hays, batizado com o nome do advogado que também era William Harrison, instituiu uma série de procedimentos que visavam diluir a imagem de “cidade do pecado” que as mentes mais retrógradas atribuíam ao mais célebre distrito de Los Angeles, no Estado da Califórnia. O conjunto de regras era, como qualquer ato de censura, minucioso: cenas relacionadas com drogas, adultério, homossexualidade, miscigenação (mistura de raças ou etnias), mulheres dando à luz, ridicularização do clero ou beijos em excesso foram liminarmente proibidas num conjunto de regras que só foi definitivamente abolido em finais dos anos 60.

Esta limitação de conteúdos acabou por beneficiar as temáticas mais inocentes dos musicais, onde as histórias de amor e as comédias românticas constituíam fonte inesgotável para os guionistas, que viam nesta fórmula o caminho para o sucesso. E a verdade é que o próprio cinema enquanto arte beneficiou das dúbias circunstâncias que derivaram do Código Hays. Um ano antes da sua entrada em vigor, “The Hollywood Revue of 1929” constituiu um marco no género musical. O filme, dirigido por Charles Riesner para a Metro Goldwyn-Mayer, contava entre os seus atos musicais com um número que haveria de tornar-se sinónimo do género: “Singin´ in the Rain”, aqui interpretado por Ukelele Ike e, no final do filme, por todo o elenco desta produção assinada por Harry Rapf. Nem que seja a título de curiosidade, permito-me sugerir sem restrições o visionamento deste filme que esteve outrora disponível no nosso mercado videográfico.

UM MARCO Cena de “The Hollywood Revue of 1929”

UM MARCO Cena de “The Hollywood Revue of 1929”

Outra referência obrigatória nos musicais é Busby Berkeley. William Berkeley Enos de seu nome original, foi o responsável - enquanto coreógrafo e cineasta - pelos elaborados, e surpreendentes números com o chamado efeito caleidoscópio, em que as bailarinas, perfeitamente sincronizadas, apresentavam composições de inegável mérito estético, muitas delas captadas com a câmara sobre elas, ou seja, no teto do “plateau” - uma verdadeira inovação à época. Tanto que o estilo foi depois copiado, imitado e homenageado praticamente até aos nossos dias. “42nd Street” (1933), “Footlight Parade” (1933), “Lady Be Good” (1941) ou “Ziegfeld Follies” (1946) são bons exemplos do trabalho e da influência de Busby Berkeley no musical.

O género teve outros protagonistas de renome, sendo Fred Astaire o mais conhecido, sendo Gene Kelly o seu mais digno representante. Se o primeiro se tornou mundialmente conhecido graças aos números de dança e canto, contracenando com Ginger Rogers, Cyd Charisse (de quem se disse ter as mais belas pernas da história do cinema) ou Eleanor Powell, o segundo foi o que mais terá revelado a graciosidade inerente ao que deve ser um bailarino.

Claro que só o seu ato em “Singin´ In the Rain” (1952) lhe granjeou um lugar entre os imortais da Sétima Arte, mas filmes como “Anchor Aweigh” (1945), “An American in Paris” (1951), “On The Town” (1949) ou “Hello, Dolly!” (1969), confirmaram o seu estatuto de estrela maior de um género que foi perdendo fulgor e que, como nenhum outro, marcou uma época, sendo que as tentativas de o recuperar nunca alcançaram o estatuto dos originais em que se basearam.

“La La Land” é apenas o derradeiro exemplo. Tiremos-lhe, pois, o ”land” e digamos tão somente “La La” para que melhor possamos entoar a verdadeira essência do musical nos exemplos que acima dei, a que acrescento “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, dirigido em 1954 pelo enorme Stanley Donen, cineasta maior de um género que o é tanto mais quanto menos forem as tentativas de o recuperar para os dias de hoje. Coisas há que para serem grandes têm de ser... pretéritas.