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Há 90 anos ficou marcada a “Presença” do modernismo Régio

D.R.

A revista “Presença” foi uma das mais importantes publicações culturais do século XX em Portugal. Herdeira de “Orpheu”, encontrou em José Régio e muitos outros artistas uma nova forma de ser moderna

André Manuel Correia

Há precisamente 90 anos, a 10 de março de 1927, era publicado, em Coimbra, o primeiro número da revista literária “Presença – folha de arte e crítica”, dirigida por José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões. Sucessora de “Orpheu”, tornou-se o estandarte da segunda vaga do movimento modernista, iniciado em Portugal por artistas como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros ou Amadeo de Souza-Cardoso. Autores que ajudou a divulgar, mas dos quais se distanciou, com uma abordagem menos politizada, sem a febre de uma agitação social, mais introspetiva e influenciada indelevelmente pelo universo de Freud.

A magazine artística – adjetivada pelo ensaísta Eduardo Lourenço como uma “contra-revolução do modernismo português” – deu a conhecer, ao longo de 13 anos e 54 edições, nomes como Fausto José, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Alberto de Serpa, o “homem duplicado” Julio-Saul Dias, Mário Eloy, António Botto, Irene Lisboa (com o pseudónimo poético de João Falco), entre muitos outros “presencistas”.

Em entrevista ao Expresso, Bernardo Pinto de Almeida, historiador de arte e professor catedrático na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, explica que a ‘Presença’ surge no “retrocesso” do modernismo português. “Há um momento modernista fortíssimo em Portugal, iniciado em 1915 com a ‘Orpheu’, que continua com a exposição do Amadeo Souza-Cardoso no Porto, em 1916, e depois, em 1917, com a ‘Portugal Futurista’, tutelada pelo Santa-Rita Pintor e em parte pelo Almada Negreiros”.

Falar de modernismo é, no entanto, algo bastante abrangente, quase galáctico, pois nesse rótulo cabem múltiplas correntes criativas anticanónicas e sinestéticas, emergentes na primeira metade do séc.XX, como o surrealismo, o dadaísmo, o futurismo ou o cubismo. Logo na primeira página do número inaugural da revista, encontramos um texto – com moldes de manifesto – intitulado “Literatura Viva”, assinado por José Régio, figura maior desta segunda vida do movimento modernista no nosso país. Aí ficam bem plasmados os propósitos da “Presença”.

“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe”, são estas as primeiras linhas com que o poeta, nascido em Vila do Conde em 1901, anuncia ao que vem.

Na opinião de Bernardo Pinto de Almeida, é nas páginas daquela revista que José Régio “produz o essencial de um pensamento teórico da maior importância e é a partir da matriz ‘presencista’, por exemplo, que nasce o cinema de Manoel de Oliveira”, realizador do curto filme documental “As Pinturas do Meu Irmão Julio” (1965).

O historiador de arte ouvido pelo Expresso defende que a “Presença” correspondia a um “movimento, sentido por toda a Europa, e a que o Jean Cocteau chamou de regresso à ordem”. Acrescenta o especialista que fica bem marcada “a ideia de um modernismo que já não está tão implicado no sentido de uma revolta, de uma transformação violenta”, mas antes com “a estabilização de uma voz introspetiva, com a tentativa de continuar uma linha modernizante iniciada com ‘Orpheu’, mas sem os excessos”.

Artistas idealistas, sem a simpatia do regime e da oposição

Surgida num período cinzento entre as duas grandes guerras e com o regresso dos militares portugueses a um país agastado pela instabilidade da Primeira República, a “Presença” acaba por ser o reflexo de uma sociedade descrente das grandes transformações sociais e desprovida da euforia pelo progresso científico, ideais bem patentes na geração de Orpheu.

A isto junta-se o facto de, dez meses antes de ter sido lançado o primeiro número da revista, Portugal ter passado por uma revolução que culminou com a instauração da Ditadura Militar. Em 1926, Salazar ocupa também o primeiro cargo governamental, como ministro das Finanças, sendo esse o início de um percurso que conduziria o país à mordaça do Estado Novo.

Foi este o contexto em que nasceu e viveu a “Presença” até 1940. Uma publicação mal vista por um regime que preferia o conservadorismo, de índole fascista e propagandista, preconizado por artistas como António Ferro. Na oposição os amigos também eram poucos, porque à esquerda os neorrealistas consolidavam o seu espaço, muito por força de uma estética mais marcada pelas preocupações sociais e políticas, bem vincadas em publicações como a “Seara Nova”, fundada em 1921 por Raul Proença.

“A ‘Presença’ pagou caro, porque não beneficiava da simpatia do regime, nem da simpatia da oposição comunista. Estava num universalismo um pouco idealista e afastada desses compromissos”, explica o professor Bernardo Pinto de Almeida.

Até ao último número, esta publicação cultural serviu sobremodo para difundir em Portugal a obra e o pensamento de diversos autores, como Marcel Proust, André Gide, Henrik Ibsen, Pirandello ou André Breton, autor do manifesto surrealista em 1924. “A primeira ocorrência do termo surrealista em Portugal vem pelo João Gaspar Simões, que era um crítico de arte da ‘Presença’, ao falar de um sobrerrealismo, procurando introduzir essa temática no nosso país”, nota o historiador e autor da obra “Arte Portuguesa no Século XX: Uma História Crítica”. “A revista não se fechava num nacionalismo estreito. Não ficava agarrada à ideia de um Portugal pequeno e fechado, pelo contrário. Tinha um desejo enorme pela Europa”, finaliza.

Um ano para lembrar e estudar a “Presença” em Vila do Conde

Para evocar os 90 anos do lançamento da revista, a Câmara Municipal de Vila do Conde, cidade onde nasceu o poeta José Régio e o irmão Julio – assim conhecido pela sua produção nas artes plásticas e por Saul Dias enquanto poeta –, vai organizar um conjunto de iniciativas para divulgar o legado cultural deixado pela “Presença”.

Já de portas abertas ao público até 21 de maio estão duas exposições, patentes no Centro de Memória – onde em novembro de 2015 abriu a Galeria Julio, com quase 90 obras, no total, que dão a conhecer as diversas fases e facetas do pintor, fortemente influenciado pelo expressionismo alemão e um dos precursores em Portugal, depois de Amadeo, da arte abstrata. Em “Mapas da Imaginação e da Memória I: Lugares e Paisagens”, o público é levado, como se de uma viagem de comboio se tratasse, de Vila do Conde até ao Porto, com paragens seguintes em Coimbra, Lisboa e Évora, num trajeto que acompanha a vida e as transformações de um artista plástico autodidata.

Quase todos os trabalhos expostos são património da autarquia, após o filho do artista, José Alberto Reis Pereira, ter feito a doação de aproximadamente seis mil desenhos e 23 óleos. A coleção está avaliada em, estimadamente, 10 milhões de euros.

Em maio é inaugurada a exposição “O que foi a Presença? – uma leitura a 90 anos de distância”, patente até 5 de junho e promovida pelo Centro de Estudos Regianos, seguida pela mostra, a partir do dia 3 do mesmo mês, “Mapas da Imaginação e da Memória 2: Versos de José Régio e desenhos de Julio”.

Durante o mês de setembro, o Auditório Municipal acolhe a apresentação da fotobiografia de Régio e da revista “Estudos Regianos”, bem como um espetáculo a cargo de Ivo Flores, que vai dar voz aos versos do poeta de “Cântico Negro”.

No mês seguinte, entre 23 e 25 de novembro, terá lugar um congresso internacional dedicado à análise da preponderância cultural da “Presença”, em parceria com a Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Por essa altura é inaugurada também a última das três exposições que integra o ciclo “Mapas da Imaginação e da Memória”, que incide inteiramente sobre a revista.