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No TNSJ há festa na piscina e a crítica social escalda os “Veraneantes”

João Tuna

A peça encenada por Nuno Cardoso, baseada na obra de Gorki, é uma crítica quente e acutilante aos costumes de uma sociedade acomodada

André Manuel Correia

Estamos em março, o clima é incerto, as esplanadas ainda não se enchem, mas a época balnear no Teatro Nacional São João (TNSJ) está aberta. Com camisas floridas, calções de banho e havaianas, os “Veraneantes”, com encenação de Nuno Cardoso, a partir da obra de Gorki, estendem as toalhas da desídia a partir desta quinta-feira. A peça é uma crítica a uma sociedade decadente, vaidosa das virtudes próprias e jurisprudente dos defeitos alheios, entregue à frivolidade hedonista das ‘happy hours’, onde tudo é uma fachada sustentada por alicerces frágeis. Um dos espetáculos mais aguardados da temporada, chega assim com uma crítica social bem quente e fica até dia 18 de março.

Ao entrar no TNSJ podemos ficar encantados com a imponência da sala ou com os detalhes em talha dourada. Mas não desta vez. O olhar é automaticamente desviado para o palco, no qual abundam cadeiras de praia, toalhas e boias de borracha. As personagens divertem-se e dançam no jardim ao som de bossa nova. Parece haver uma festa na piscina e ninguém nos avisou.

Aparentemente, tudo parece calmo, numa ociosidade entorpecedora e dominante, mas a bandeira está vermelha. A tensão agudiza-se entre as personagens, num enredo repleto de conflitos, invejas e traições. Quando Gorki escreveu os “Veraneantes”, em 1904, na antecâmara da grande convulsão social de 1905 – conhecida na história como “domingo sangrento” – o Império Russo estava já em fase terminal. Um espectro pairava, mas todos pareciam ignorá-lo. As elites sociais viviam desfasadas da extrema precariedade que alastrava sobre as estepes gélidas e assim começaram a fervilhar as ideias revolucionárias, concretizadas em 1917.

A peça, considerada por muitos como uma sequela de “O Cerejal”, de Tchéckov, reflete os vícios e costumes supérfluos da pequena burguesia ascendente, bem como os comportamentos de uma classe trabalhadora já com novas orientações de pensamento e uma nova postura na ação política e social. Em palco encontramos médicos, engenheiros, advogados – sempre acompanhados pelas esposas –, um escritor em plena crise criativa e uma poetisa com ideias subversivas.

O cenário é encarado como um recreio, onde quase todos parecem entregues ao prazeroso jogo da vida social e ninguém quer ouvir o toque estridente da consciência. Fala-se muito e diz-se muito pouco, como refere a personagem Varvara Mikháilovna: “Vivemos de uma maneira estranha! Falamos, falamos e mais nada”. E é precisamente esse o aspeto que mais interessou ao encenador Nuno Cardoso, de regresso à dramaturgia russa e que considera esta peça “muito a propósito do que são os dias de hoje”, pelo facto de espelhar o “lado monstruoso das pessoas”.

O dedo apontado a uma sociedade que discute cidadania com hashtags

Após mais um dos ensaios, à conversa com os jornalistas, o encenador evidencia a vontade de “refletir sobre uma classe média emergente”, “cheia de moralismos”, perdida “entre redes sociais, esplanadas do Porto turístico, ‘happy hours’, ‘ fashion trends’ e essas palavras todas”. “Estamos neste mundo e achamos tudo muito mal, mas naquilo que estamos, de facto, interessados é em saber quantos ‘likes’ temos no ‘Facebook’”, acrescenta.

Sem meias palavras ou eufemismos, Nuno Cardoso prossegue com o seu olhar crítico. “No meio disto tudo discute-se cidadania com ‘hashtags’”, denota o encenador, para quem estamos no “refluxo” de qualquer ideia de progresso social. “O que vinga agora é um populismo revanchista e isolacionista”, frisa.

“Veraneantes” é uma coprodução da companhia Ao Cabo Teatro, em parceria com o Centro Cultural Vila Flor, o Teatro D. Maria II e o TNSJ. As sessões da peça podem ser vistas à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h, e ao domingo, pelas 16h. A récita agendada para 12 de março conta com intérprete em Língua Gestual Portuguesa.

O espetáculo será depois apresentado noutras salas do país, como o Convento de São Francisco, em Coimbra, a 22 de março, ou no Theatro Circo, em Braga, entre os dias 24 e 25. No próximo mês, pode ser visto no Centro Cultural Vila Flor a 1 de abril, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, entre 6 e 9, e ainda no Teatro Aveirense no dia 13.