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Porto com sentido

PORTO. Colocada no centro dos principais roteiros turísticos, a cidade é hoje um poderoso foco de atração, embora com o risco de afastar os seus moradores de sempre. (Na imagem, “Quadro com bola verde”, 1984, Dario Alves, acrílico sobre tela)

Há pouco mais de dois anos, pela primeira vez na história da humanidade, a maior parte da população passou a residir em cidades. As estimativas da ONU indicam que essa percentagem subirá para 65% até 2050. São transformações brutais com impactos ainda desconhecidos na configuração das cidades, na vivência do espaço urbano, na organização das áreas públicas, ou no modo como os cidadãos vivem a urbe.

Trata-se de um fenómeno com consequências diversificadas e gerador de crescentes e novos desafios. As cidades sempre foram um crucial ponto de atração dos povos, mas porventura nunca como agora passou a ser explorado e vivenciado o conceito de cidade como zona de confluência de tudo e de todos.

“Adega do Galo”, 1930, Dominguez Alvarez, óleo sobre tela

“Adega do Galo”, 1930, Dominguez Alvarez, óleo sobre tela

A este fenómeno generalizado correspondem diferentes abordagens e diferentes consequências. Enquanto na Europa se assiste a um preocupante decréscimo populacional, sem que as suas cidades reflitam necessariamente essa tendência de queda, em África, por exemplo, ocorre o inverso. Estamos a assistir a um significativo aumento populacional, ao ponto de por volta de 2 040 os censos deverem registar mais de dois mil milhões de africanos. Também eles, numa parte muito significativa, a convergirem para as cidades, o que está já a desencadear movimentos incomuns no mundo da arquitetura. Recentemente, o arquiteto norte-americano Michael Murphy sustentava que num prazo de 15 anos não haverá no mundo arquiteto que não esteja a trabalhar em África. Ele próprio tem já obra espalhada por 12 países daquele continente.

As multidões desabam nas cidades e as cidades nem sempre sabem como lidar com essa avalanche de gente que as afoga. Às vezes quase se diria literalmente, como está a suceder com o turismo em Veneza. Outras vezes pelo modo como tão acentuadamente perturba a vida quotidiana dos que lá vivem o dia a dia. Um dos exemplos maiores será Barcelona, com movimentos de cidadãos a tentarem impor regras para gerir o caudal turístico que se apoderou da cidade.

“Cais da Ribeira”, 1935, Dórdio Gomes, óleo sobre tela

“Cais da Ribeira”, 1935, Dórdio Gomes, óleo sobre tela

Para lá dos dilemas decorrentes da museificação dos centros urbanos, coloca-se o gravíssimo problema dos perigos de gentrificação. A cidade deixa de ser de quem verdadeiramente a quer, para passar a ser de quem a pode querer. Jovens e população envelhecida com baixos rendimentos deixam de ter acesso às rendas proibitivas que começam a ser cobradas.

Daí as reservas com que muitos assistiram, atónitos, à excessiva valorização ou à desmesurada festa feita à volta da nomeação do Porto como melhor destino europeu. Nem é muito relevante estar agora a esmiuçar o rigor da votação ou a credibilidade do processo.

“Clérigos”, 1941, Nadir Afonso, óleo sobre tela

“Clérigos”, 1941, Nadir Afonso, óleo sobre tela

O que importa, aqui, é o que diz respeito às pessoas. E, para matar à nascença qualquer laivo de demagogia, diga-se desde já que é excelente o momento vivido pela cidade em resultado da extraordinária captação de turismo. É fantástico tudo quanto tem estado a acontecer nos últimos anos. É de sublinhar a dinâmica económica e cultural direta ou indiretamente induzidas pelos crescentes fluxos turísticos. O Porto está irreconhecível e, mesmo para quem vive na cidade, todos os dias parece surgir algo de novo. Todos os dias o Porto constrói a diferença.

Porém, essa notável capacidade de assumir o novo e o diverso tem de passar por uma outra aptidão. A de revelar inteligência no tratamento das condições de vida dos portuenses de sempre. Os que já vivem na cidade, os que já viveram, mas viram-se forçados a sair, os que ainda não saíram, mas receiam ter de sair, e os que sempre tendo vivido nas margens, gostariam de integrar por inteiro a cidade que é sua.

“Batman foge da Barbie na Torre dos Clérigos”, 1997, Carlos Carreiro, acrílico sobre tela

“Batman foge da Barbie na Torre dos Clérigos”, 1997, Carlos Carreiro, acrílico sobre tela

Há um sentido do Porto e tem de haver um Porto com sentido. Não apenas para nos fixarmos na imagem nostálgica de uma cidade que já não é, não tem de ser, nem pode ser o que já foi, e aparece tão bem espelhada nas muitas obras expostas na Fundação Manuel António da Costa, ao Mercado do Bom Sucesso. Podem ser vistos lá os trabalhos de artistas como Abel Salazar, Albuquerque Mendes, António Cruz, Ângelo de Sousa, Aurélia de Sousa, Domingos Pinho, Dominguez Alvarez, Dórdio Gomes, João Abel Manta, José Rodrigues, Júlio Resende ou Nadir Afonso, entre muitos outros.

“Praça da Liberdade Porto 1º de Maio de 1982”, 1983, António Fernando, óleo sobre tela

“Praça da Liberdade Porto 1º de Maio de 1982”, 1983, António Fernando, óleo sobre tela

Todos constroem um discurso amoroso sobre o Porto. Um Porto passado. Um Porto porventura já inexistente tal qual algumas das imagens o fixam. Mas um Porto cujo espírito rebelde e libertário nunca se esfumou, concretiza-se nesta recusa de ver a cidade apenas pensada em função do turismo, e reivindica o direito à cidade e a criação de condições para que a chegada de uns, sempre bem vinda, não signifique o indesejável afastamento de quem ajudou a construir a alma da urbe. Só isso dará sentido ao Porto.