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Eles são artistas e criam sobre ruínas de palcos de horror. E nós, quem somos?

José Caldeira D.R.

Dorothée Munyaneza e Mithkal Alzghair são artistas exilados e carregam memórias inolvidáveis do genocídio no Ruanda e da guerra civil síria. Ainda hoje tentam descobrir quem são. E nós? Onde estávamos e o que fizemos?

Dorothée Munyaneza é coreógrafa, cantora e artista performativa. Atualmente vive em Paris, mas foi para o Reino Unido que se mudou aos 12 anos, idade com que, em 1994, assistiu aos horrores do genocídio no seu país de origem, o Ruanda. Mithkal Alzghair é um bailarino sírio a morar em França, refúgio criativo depois de ter abandonado um território desolado por uma guerra civil encravada num jogo político internacional e com contornos complexos. Ambos tiveram de reconstruir a sua identidade, mas ao mesmo tempo preservá-la. Carregam as memórias e manifestam-nas em palco como um grito acutilante dirigido ao mundo.

Eles são artistas e viram o horror bem de perto. Nós assistimos a tudo, a uma distância segura e, tantas vezes, entorpecedora. Onde estávamos quando fomos confrontados com aquelas imagens? O que fizemos? Quem somos nós?

Os dois artistas estiveram no Porto, esta sexta-feira e sábado, para apresentarem criações que refletem as suas vivências e foram os protagonistas do foco “Deslocações”, realizado no Teatro Campo Alegre. Ambos transportam para o palco cenários de violência, totalitarismo, genocídio, êxodo, com uma linguagem igualmente pungente capaz de remeter o espectador ao mais introspetivo silêncio.

José Caldeira D.R.

Além dos espetáculos, estiveram à conversa com a poetisa e investigadora Golgona Anghel e com a professora do Conselho Português para os Refugiados Isabel Galvão, num debate moderado pelo diretor do Expresso, Pedro Santos Guerreiro, que começou por lhes perguntar: “Quem são vocês atualmente? Porque aquilo que vos aconteceu não é apenas parte do vosso passado, mas é também, suponho, parte de quem vocês são hoje”. Se a questão é complexa, as respostas ainda mais.

Ela não precisa da nossa culpa, mas pergunta onde estávamos em 1994

Dorothée, aos 34 anos, ainda não tem uma resposta clara para a pergunta colocada por Pedro Santos Guerreiro. “Tento lidar com estas memórias e continuo à procura de mim mesma. Espero nunca encontrar-me, na verdade, porque isso seria extremamente aborrecido”, considera a artista.

“Eu carrego comigo aqueles três meses. Não consigo separar-me daquilo que vi. Daquilo que vocês não viram através dos media”, prossegue na explicação, porque do que aconteceu no Ruanda, conhecemos somente os factos e os números. Um genocídio de mais de 800 mil pessoas, de etnia tutsi, em apenas 100 dias.

“Mesmo quando partilho o meu testemunho, nunca explico a fundo como tudo aquilo foi. Não partilho as imagens, os sons, os cheiros, porque as palavras não conseguem aproximar-se daquela brutalidade”, frisa a bailarina e coreógrafa que no Teatro Campo Alegre apresentou o espetáculo “Samedi Détente”.

“Esta é a minha história, da minha família, do meu país e do meu continente”, afirma Dorothée, que não estava ali para nos “entreter e fazer sentir bem com o espetáculo”. Tampouco quer a nossa culpa, mas deixa-nos a pergunta: “onde estavam vocês em 1994?” A sua arte é sobre “a generosidade e a dignidade humana” pelas quais diz ainda batalhar todos os dias.

“Estou aqui para cozinhar alimento para a mente”, assevera a artista exilada em Inglaterra. “Quero apenas que sintam que alguma coisa podia ter sido feita, que aprendam com isso e prestem atenção ao que se passa, por exemplo, na Síria, na América do Sul, nos Estados Unidos ou na Rússia”, acrescenta.

José Caldeira D.R.

Para Golgona Anghel, poetisa de origem romena mas que escreve em língua portuguesa e há oito anos habita no nosso país, o espetáculo de Dorothéé trata de temas que não podem ser traduzidos por palavras e que são irrepresentáveis, deixando-nos “um pouco envergonhados”, confessa. “Fomos parte disto. Estávamos aqui. Assistimos e não fizemos nada”, salienta. “O que vemos normalmente nas notícias é uma massa de pessoas anónimas em sofrimento. Quase como uma paisagem. Raramente essas pessoas têm voz”, notou Golgona Anghel.

Mais do que uma performance, é uma manifestação em palco

Mithkal começou por explicar que abandonou a Síria um ano antes de conflito ter início. “Aquilo que era uma revolução tornou-se uma guerra civil. Tudo começou com a violência das forças militares contra a população e rapidamente se transformou numa guerra civil ou numa guerra internacional”, recorda o bailarino e coreógrafo.

“Como artista, senti a necessidade de tomar uma posição através do meu trabalho e falar daquela realidade, porque era preciso mostrar o que estava a acontecer no meu país”, explica o bailarino sírio, que trouxe até ao Porto o espetáculo “Displacement”.

“Durante dois anos, os media não mostraram imagens do que se passava. Todos os dias ativistas colocavam fotografias ou vídeos na internet, mas nenhuma delas merecia tratamento jornalístico”, explica o artista, até que a publicação da fotografia de um menino sírio, Aylan Kurdi, morto numa praia na Turquia, chocou e correu o mundo. “O Obama quis chorar quando viu aquela fotografia. François Hollande também. Mas para mim foi como uma orientação”, lembra Mithkal Alzghair. “Para esta peça tive a necessidade de fazer uma manifestação em palco e não somente uma performance”, garantiu o bailarino.

A reconstrução da identidade

Isabel Galvão ensina português a refugiados desde 1997. No último ano, chegaram pessoas de 58 nacionalidades e a maioria delas traz uma dúvida comum na bagagem desprovida de sonhos e esperança. “Quem sou eu?”, é a grande questão com que se deparam.

“Normalmente, numa sala de aula tenho pessoas de 14 ou 15 nacionalidades. Pessoas diferentes, trabalhos diferentes e de ‘backgrounds’ sociais e culturais muito distintos”, destaca a professora do Conselho Português para os Refugiados. “Por vezes, quando começamos, temos de saber os nomes e alguns são difíceis de pronunciar. Mas os nomes são importantes, porque fazem parte da nossa identidade”, afirma a responsável.

Aprender um idioma é muito importante. É um passo determinante para reiniciar uma nova fase da vida. “Não é apenas aprender gramática, vocabulário ou ter uma bela pronúncia. É muito mais do que isso. É aprender muitos códigos sociais, culturais e históricos”, afirma Isabel Galvão, que há dois anos iniciou um projeto intitulado “RefugiActo”, onde através do teatro estas pessoas aprendem a exorcizar as memórias de um sofrimento inenarrável.

No final da tertúlia, completamente sem guião e onde as emoções estiveram sempre à flor da pele, Pedro Santos Guerreiro terminou da mesma forma que iniciou a conversa, mas desta vez dirigiu a questão ao público. “Quem são vocês atualmente?”, questionou o diretor do Expresso. Ninguém ousou responder. O silêncio deu lugar aos aplausos que tomaram conta do café-teatro do Campo Alegre. A pergunta, certamente, tomou conta da consciência de cada um.