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E tudo a “Pé de Vento” mudou. Os 20 resistentes anos do Teatro da Vilarinha

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No Vilarinha o teatro é encarado como um instrumento e, apesar de todas as dificuldades, continua bem afinado. Conheça a história de um periférico teatro portuense que esteve no centro da evolução cultural na cidade

Situado em Aldoar, no Porto, um edifício construído no final do séc. XIX já foi um posto de controlo marítimo da Guarda-Fiscal e, no início de 1990, serviu de local de culto da Igreja Universal do Reino de Deus. No entanto, há 20 anos, por obra e graça da companhia de teatro “Pé de Vento”, foi reconvertido para servir de casa ao Teatro da Vilarinha. Localizado na periferia da cidade, tem resistido estoicamente com uma identidade programática centrada no teatro de criação.

Também há duas décadas, ali, naquela sala de espetáculos, subia ao palco o ator e dizedor poético Rui Spranger com a peça “Os Piratas”, baseada no conto de Manuel António Pina. Spranger regressa agora a uma casa que também é sua, como encenador de “O Lobo Sou Eu”, com dramaturgia do poeta Eduardo Leal, em cena entre este domingo e 2 de abril.

As portas abriram-se para o Expresso e o palco está transformado num bosque, escuro e tenebroso, onde duas crianças – Juvenal e Amélia – enfrentam os medos que habitam os seus imaginários. Juvenal (Ismael Calliano), um miúdo traquina e aparentemente destemido, assegura não ter receio de nada. Por sua vez, Amélia (Daniela Marques) assume a sua fragilidade perante o desconhecido e aquilo que pode estar do outro lado. Uma metáfora facilmente transportada para os nossos dias, como explica Rui Spranger, em que “na Europa vive-se com o medo do terrorismo e dos imigrantes”.

Este é um espetáculo infantojuvenil, mas todos estão convidados. “Espero que as crianças dialoguem com os pais e que esta peça levante questões”, diz o encenador que, parafraseando Isabel Alves Costa, acredita que “não existe teatro para crianças ou para adultos, existe bom ou mau teatro”.

Identidade à prova de crise

A primeira vez que Rui, então em início de carreira, pisou o palco do Vilarinha foi em abril de 1997. Era a primeira temporada da nova sala de teatro portuense. A semente ainda tinha sido lançada há pouco tempo, mas a identidade que perdura até hoje já estava delineada: apostar no teatro de criação, bem como dar visibilidade a novos autores e encenadores, juntando à criação literária a exploração cénica da linguagem.

A história deste teatro confunde-se com a evolução do panorama cultural da Invicta. “É um percurso semelhante ao da própria cidade, que foi evoluindo desde 1996. Nós participámos nessa renovação das salas de espetáculos da cidade”, afirma o diretor do Teatro da Vilarinha e fundador da companhia “Pé de Vento”, João Luiz.

Em duas décadas, a cortina abriu-se para mais de 2200 apresentações e na sala intimista com capacidade para 108 pessoas foram interpretadas obras de autores que dispensam apresentações, como Manuel António Pina, Teresa Rita Lopes, Álvaro Magalhães ou Gonçalo M. Tavares.

“Muitas das obras que encomendámos foram editadas e atualmente fazem parte do Plano Nacional de Leitura”, frisa João Luiz. “Olhamos para isso, naturalmente, com orgulho e brio pelo trabalho que desenvolvemos, mas temos a responsabilidade de continuar a corresponder a essas expectativas que criámos no público”, acrescenta o responsável de 73 anos. Há mais de meio século ligado ao teatro, João é um homem resiliente que não deixa cair o pano no Teatro da Vilarinha, apesar de todas as dificuldades e de uma quebra de público na ordem dos 50% nos últimos dois anos.

Entre o final da década de 1990 e os primeiros anos do novo milénio a sala de espetáculos conheceu a sua época dourada. O público chegava desde Braga até Aveiro. “A partir de 2002, houve um fechamento e isso teve várias consequências negativas, a que se juntou a crise económica”, relembra João Luiz. “A crise ia-nos levando”, admite. “Agora assistimos, com este novo executivo municipal, a um regresso ao centro da cidade e o Teatro da Vilarinha está na periferia. Mas acredito que voltará a ser integrado numa nova fase da cidade. Porque nós já cá estamos há muito tempo”, enaltece.

Teatro feito de forma artesanal mas com a máquina bem afinada

Dizer que o Teatro da Vilarinha é apenas uma sala de espetáculos é, contudo, redutor. Os estreitos corredores do edifício e as escadas sinuosas conduzem até às oficinas, onde os cenários e os figurinos são concebidos. Ali tudo se faz de forma bastante artesanal e o teatro é encarado como uma ferramenta para a experimentação.

Já quase no final da conversa e da visita, João Luiz leva-nos até ao início de tudo. Mostra-nos um antigo realejo e nem tempo temos para perguntar se ainda funciona. Com a mão firme a fazer rodar a manivela, rapidamente faz ecoar as primeiras notas harmoniosas provenientes da bela caixa de música. E assim acabamos, como tudo começou, embalados por uma das músicas que em 1997 acompanhou as aventuras d’“Os Piratas”de Manuel António Pina, um amigo da casa recordado com saudade.

Vinte anos depois, com mais de 70 espetáculos e 36 estreias absolutas, a máquina continua afinada no Teatro da Vilarinha e, enquanto o braço de João Luiz se mantiver firme, o encanto não vai parar neste teatro que é também um instrumento. “Além de ser uma sala de espetáculos, é um instrumento para fazer teatro. Há que ter unhas para o saber tocar”, afirma, entre risos, o histórico diretor artístico.

A peça o “ Lobo Sou eu” pode ser vista aos sábados e domingos, pelas 16h, e durante a semana, com marcação prévia, o espetáculo estará disponível para o público escolar, com apresentações às 11h e 15h.