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A maldição de Nootka Sound

D.R.

“Taboo” é a grande aposta televisiva de Tom Hardy. Já em exibição no canal AMC, a série transporta-nos para o início do século XIX, onde a história de James Keziah Delaney será revelada

A sua ausência era demasiado longa e todos pensavam que James (Tom Hardy) já não pertencia ao mundo dos vivos. Há muito que ninguém o via ou ouvia a sua voz, mas a razão para o seu desaparecimento era mais mundana do que se julgava. Para todos, incluindo para a sobrevivência do império britânico, como era conhecido, seria melhor que ele nunca mais regressasse. Nenhuma das partes terá essa sorte.

Corre o ano de 1814 e o filho de Horace Delaney (Edward Fox) está de regresso a Londres para o enterro do pai. “Perdoai-me, Pai. Porque eu realmente pequei”, diz-lhe, dirigindo-se ao corpo sem vida como se de Deus se tratasse. O filho havia passado uma grande temporada no continente africano, talvez mais de 10 anos, e acabava de regressar a Londres com uma missão. James estava interessado em herdar parte do império naval do seu pai e reconstruir a sua vida, sem pensar o quão difícil seria cumprir os sonhos que consigo carregava. A seu favor, apenas tem o facto de ser o único beneficiário do testamento do velho Horace.

“Se a América fosse um porco virado para Inglaterra, aquilo estaria mesmo no rabo dele. Só tem pedras e índios”, dizem aqueles que querem levar James Kezia Delaney a prescindir da sua herança e entregá-la à Companhia das Índias Orientais. Julgam que conseguem demover o antigo cadete premiado de tomar o que lhe pertence por direito. Aquele pedaço de terra que o pai conquistou a troco de algum dinheiro e muita pólvora. Não conseguirão demovê-lo, mesmo que a “terra que consta do testamento seja, mais do que inútil, perigosa para quem a detém”.

Em causa está uma disputa territorial — ficcional, uma vez que o tempo descrito na série não corresponde exatamente ao das negociações transfronteiriças da região — que opõe a Coroa Britânica aos Estados Unidos. O pequeno território do Pacífico, situado na ilha de Vancouver, no sul do atual Canadá, era um ponto estratégico de que nenhuma potência queria prescindir, e James veio baralhar tudo o que já era dado por garantido. A questão tinha sido ultrapassada através de um acordo da Coroa com Zilpha Geary (interpretada por Oona Chaplin), a meia-irmã casada com Thorne Geary (Jefferson Hall). No entanto, é preciso regressar ao início e garantir que o processo volta a correr pelo melhor.

O antigo soldado, por muitos considerado louco — “Já a mãe era”, diz-se entre dentes —, não está à procura de dinheiro e só quer o que é seu por direito, mas isso vai levá-lo numa viagem sem retorno rumo à verdade. Será que James está preparado para enfrentar todas as conspirações, escapar a todas as tentativas de assassínio e lidar com as consequência de desvendar um mistério familiar demasiado negro?


APOSTA NA TELEVISÃO


“Taboo” é considerada a maior aposta de sempre de Tom Hardy. O ator, vencedor do Óscar de Melhor Ator Secundário pelo seu papel em “The Revenant — O Renascido” no último ano, não é apenas o protagonista e assume ainda os papéis de criador e produtor executivo. Com um orçamento de 10,4 milhões de libras (cerca de 12,2 milhões de euros) para a primeira temporada, a série que nos transporta para a época gregoriana britânica ainda só terá rendido 8,4 milhões de libras (9,8 milhões de euros) aos cofres da Taboo Productions Ltd. Após a distribuição televisiva, os analistas apontam para a possibilidade de a empresa que Tom fundou — para realizar o sonho que partilhava com o pai, Chips Hardy — tentar um acordo para a integração de “Taboo” na oferta de um serviço de streaming e ser disponibilizado em formato físico (DVD ou Blu-Ray). O objetivo será apenas um: recuperar o valor investido.

Apesar dos custos da produção e de ainda não terem sido alcançados quaisquer lucros, a história de “Taboo” não vai ficar por aqui — ou pelo menos é nisso que acredita o cocriador e argumentista Steven Knight. Numa entrevista recente, o também argumentista (responsável pela série “Peaky Blinders” e autor do argumento de filmes como “Locke”, “A Viagem dos Cem Passos” ou o mais recente “Aliados”) afirmou que planeia escrever pelo menos mais duas temporadas.

Com produção de Ridley Scott e realização de Kristoffer Nyholm (episódios 1 a 4) e de Anders Engström (episódios 5 a 8), a série conta com um vasto elenco, entre os quais se destacam, além de Tom Hardy, nomes como Leo Bill, Oona Chaplin, David Hayman, Michael Kelly, Jonathan Pryce, Danny Ligairi, Edward Fox ou Mark Gatiss. A série, que estreou no último domingo, é exibida em Portugal pelo AMC — o canal criou até o site http://taboo.pt para assinalar o lançamento — e estará em antena ao longo de oito semanas.